Confissões de uma Garota de Programa
Por Ricardo Prado e Jean Garnier (15/11/2009) // Comente
Confissões de uma Garota de Programa (The Girlfriend Experience, EUA, 2009). Direção: Steven Soderbergh. Roteiro: David Levien, Brian Koppelman. Elenco: Sacha Grey, Chris Santos, Peter Zizzo, Timothy J. Cox, Timothy Davis, Jeff Grossman, Ted Jessup, Ken Myers, Bridget Storm. Drama. 78 min. (Cor).
Por Ricardo Prado
Steven Soderbergh traz aqui uma verdadeira experiência em matéria de gênero e expectativa. Com um título provocador (e, em português, sensacionalista ao extremo) e a atriz pornô Sasha Grey como protagonista, “Confissões de uma Garota de Programa” traz as tais confissões, sim, mas nada de cenas pesadas de sexo nem uma dramatização desse estilo de vida. Do contrário, é uma reflexão. Resta saber quantos espectadores irão ao cinema ver Sasha Grey para assistir uma série de divagações sobre os rumos da economia na época da Recessão.
A estrutura da narrativa lembra muito os filmes da Nouvelle Vague, com cortes súbitos, não-linearidade e muito diálogo. O fio condutor é Chelsea (Grey), garota de programa que tem um namorado e clientes ricos. Não é permitido ao espectador que entre muito da intimidade de Chelsea, que quase sempre é vista em público conversando com alguém, e só aparece sem roupas uma única vez. Por meio dos tais clientes ricos, a história fala também das incertezas sobre o rumo da economia durante as eleições presidenciais norte-americanas de 2008, o que é irônico, já que todos não hesitam em gastar dinheiro com Chelsea. Ao mesmo tempo, eventualmente acontece o inevitável conflito do namorado com a profissão da moça, que também está buscando ser avaliada em sites que dão notas às garotas de programa, mesmo que, para isso, tenha que dormir com um homem de graça.
A atuação de Grey não é sofrível, aliás, nem incomoda. É verdade que ela permanece com a mesma expressão durante todo o filme, e só em um momento tem a oportunidade de realmente se emocionar, mas isso pode ser visto como uma faceta da personagem, e não da atriz. Fica a dúvida se ela realmente irá continuar no cinema e largar o pornô. Dá para gostar também de Chris Santos, outro novato, que faz tudo direito como o namorado de Chelsea.
É interessante como Soderbergh consegue se manter eclético, no sentido mais extremo da palavra. Pouco tempo antes de “Confissões de uma Garota de Programa”, dirigiu o épico “Che” em duas partes e, antes, “Treze Homens e um Novo Segredo”. Vai decepcionar quem esperar um “Doce Veneno do Escorpião”, de Bruna Surfistinha, em versão cinematográfica. Ainda mais com um título traduzido como este e pela protagonista ser a atriz pornô Sasha Grey, deve desagradar grande parte do público. Exceto os avisados.
7,0
Por Jean Garnier
“Confissões de uma garota de programa” é uma viagem misteriosa que analisa a cultura do amor, transformado como um simples objeto que o dinheiro pode facilmente controlar. No início, um descontraído bate papo sobre acontecimentos do cotidiano entre um homem e uma mulher – “o que você achou do filme ‘O Equilibrista’?” pergunta ele – nos faz acreditar que são simples amantes jantando depois de um passeio no cinema. Mas não, na verdade ela é Chelsea (o pseudônimo da bela Cristine), uma garota de programa que oferece companheirismo e conversa, relegando às vezes o sexo a um ato secundário, como se fosse realmente a namorada sugerida no título original do filme, “The Girfriend Experience”.
Ambientado em Nova York, na época das eleições presidências norte-americanas de 2008, há um clima de apreensão no ar sobre o destino que a economia do país – e por sua vez a mundial – irá tomar. Nesse universo, há outro paralelo, este manipulado por dinheiro e status, no qual a prostituta de luxo reforça o seu poder não apenas por ser um objeto sexual. Um programa com Chelsea custa US$ 2 mil, até porque seus clientes são homens ricos de todas as origens e idades, que desejam passar algumas horas – e até finais de semana – com a sua companhia, seja numa limusine, num restaurante caro ou num requintado hotel. Ela aproveita para dar conselhos sobre assuntos variados – investimentos, política – e o que os homens dão em troca? Além de sentimentos, mostram a sua verdadeira face, como se subliminarmente dissessem: Eu sou um cara legal, me ouça e finja que gosta de mim! Em outro momento, durante uma entrevista que dá a um jornalista que está escrevendo uma história sobre prostituição, a protagonista entrega o jogo de como funciona o seu negócio: “Se eles quisessem que eu fosse realmente quem sou jamais me pagariam…”
Chelsea também tem os seus problemas e entre eles está o de compartilhar a rotina e a vida amorosa com o seu namorado Chris, um personal trainer que finge não ficar incomodado com a profissão de sua parceira e que também dá alguns conselhos aos frequentadores da academia. Por mais que ela esboce um carinho por ele, alguns temas são evitados e a sensação que se tem é de um relacionamento frio, aparentando usar as mesmas estratégias e artimanhas que ela usa nos seus programas. Há também o lado irônico quando negocia alguns elogios com um crítico de um blog.
Algumas coisas tornam o filme fascinante: a sensação de se estar assistindo um documentário e a boa escolha que o cineasta Steven Soderbergh fez para o papel principal, a estrela pornô Sasha Grey, que não apenas criou uma intrigante garota atraente com um olhar calculista e maduro, mas também uma “amiga” hábil nas suas respostas, que encarna diferentes personagens para seus clientes, que desejam se sentirem melhores. Ah, não há sexo explícito e nem tampouco algo que lembre a reprodução do ato.
7,5
