Fronteira da Alvorada, A
Por André Azenha (23/08/2009) // ComentePor André Azenha
A Fronteira da Alvorada (La Frontière de L`aube, França, 2008). Direção: Philippe Garrel. Roteiro: Marc Cholodenko, Arlette Langmann. Elenco: Louis Garrel, Clémentine Poidatz, Laura Smet. Drama. 106 min. (PB).
Para o veterano cineasta francês Philippe Garrel, amor e loucura caminham lado a lado. Afinal, abrir mão do terreno seguro, expor os sentimentos mais profundos e deixar a razão de lado não fazem parte das vidas dos sãos. Amar é correr risco. Se arriscar não é algo para os serenos.
Em sua filmografia (pouco divulgada no Brasil) Garrel tem defendido esse ponto de vista desde filmes como “Liberté, La Nuit” (1983), com o qual foi premiado no Festival de Cannes, a “Amantes Constantes” (2005). Talvez por ter vivido uma paixão arrebatadora com a falecida cantora – ex-Velvet Underground - Nico (1938-88), com quem viajou durante dez anos por Paris, Espanha e Ibiza.
“A Fronteira da Alvorada” mantém várias características do diretor, que além de voltar a versar sobre a relação amor e insanidade, filmou novamente em PB e escalou para ser o protagonista de um filme seu o filho Louis Garrel, que já trabalhara em muitas outras produções do pai, inclusive “Amantes Constantes”.
Louis (que esteve em “Os Sonhadores”, de Bernardo Bertolucci, e “Em Paris”) interpreta o jovem fotógrafo François, que num de seus trabalhos conhece a atriz Carole (Laura Smet, de “A Dama de Honra”). A química entre os dois é instantânea, mas de acordo com uma teoria apresentada no longa, Carole e François são como dois limpadores de pára-brisas: nunca se encontram. Ou seja, jamais querem a mesma coisa ao mesmo tempo.
Carole é casada, e com o retorno do marido diretor (que estava em Hollywood) de cinema, ela e o amante separam-se. Quando o marido dela viaja novamente, a relação do casal protagonista esfria. Louis some e Carole passa a escrever cartas para o amado até perder a sanidade. A partir daí surgem reviravoltas na trama e, inclusive, o sobrenatural.
“A Fronteira da Alvorada” é uma obra que precisa ser apreciada nos pequenos gestos e olhares, como aqueles presentes nos dois encontros de Carole e François.
No primeiro, há respeito mútuo e timidez. O fotógrafo mal encosta na atriz, mas já é possível perceber uma clara atração entre eles.
Depois, quando se encontram novamente, no momento em que ele começa a fotografá-la só enxergamos a atriz em cena, e de repente aparece Louis indo de encontro à boca da artista.
Esses detalhes, somados aos elementos do cinema mudo (elipses indicadas pelo fechamento da íris e intertítulos que indicam a passagem do tempo) utilizados por Philippe Garrel, deixam o seguinte recado: não importa a maneira, o amor pode ser sentido e presenciado de inúmeras formas. Não é necessário dizer “eu te amo” para demonstrar afeto ao próximo.
Nesse sentido, o cineasta cumpre seus objetivos, porém o filme só não se garante completamente porque, mesmo com o roteiro que tenta evitar conversa mole, há frases do tipo: “quando o último sobrevivente do Holocausto morrer começará a Terceira Guerra Mundial.”
O uso de recursos ultrapassados por François para fotografar e o fato de Carole precisar recorrer às cartas para se comunicar com o fotógrafo (quando poderia usar o email, o SMS, etc) soam deslocados, já que a história se passa nos dias atuais.
E principalmente, a grande falha do filme reside na caracterização de François, que não passa de um bobo egoísta. E a fragilidade do personagem quase põe tudo a perder.
Felizmente as belas atrizes escaladas para viverem as duas mulheres na vida do fotógrafo correspondem positivamente. Smet mergulha na loucura crescente de Carole e Clémentine Poidatz transmite a fraqueza emocional de Ève, a namorada de François após a morte da primeira.
Por fim, quando um fantasma surge na trama Philippe Garrel mostra que mesmo aquela pessoa que parecia ser a única “normal” do enredo pode estar vulnerável à perda da sanidade.
Vaiado em Cannes, “A Fronteira da Alvorada” não é ruim como acharam os presentes no festival francês. É apenas um drama restrito a pessoas que conseguem enxergar sentimento onde a maioria não vê. É irregular sim, mas não por isso deixa de ter poesia, evocada também pela belíssima fotografia de William Lubtchansky.
7,0
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