Estrela, A

Por André Azenha (31/07/2009) // 1 comentário

Por André Azenha

estrelacimaA Estrela (Star, EUA, 1968). Direção: Robert Wise. Roteiro: William Fairchild. Elenco: Julie Andrews, Noel Coward, Richard Crenna, Michael Craig, Bruce Forsyth. Musical / Biografia. 176 min. (Cor).

Existem filmes que são como vinhos. Ficam melhores com o passar dos anos, ao menos pela ótica de algumas pessoas de sensibilidade, que percebem o diamante onde ninguém mais vê, ou em gerações posteriores ao lançamento de um trabalho cinematográfico no cinema. São obras que estão à frente de seu tempo, que não conseguem, quando lançadas, o reconhecimento merecido da platéia, mas aos poucos são redescobertos e viram “cult”. “A Estrela” é claro exemplo deste tipo de situação.

O diretor Robert Wise preparou o longa especialmente para Julie Andrews, com quem havia trabalhado três anos antes em “A Noviça Rebelde”. O cineasta considerava a vida de Gertrude Lawrence (1898-1952), atriz britânica que se tornou estrela da Broadway na primeira metade do século passado, ideal para que sua pupila demonstrasse todo o potencial revelado nos filmes anteriores.

E o público teria a chance de conferir Andrews num papel diferente do que estava acostumado. Até então ela vivera personagens doces que transformavam positivamente a vida das pessoas ao seu redor. Foi assim ao encarnar Maria, em “Noviça”, e antes, quando deu vida à personagem título de “Marry Poppins” e foi premiada com o Oscar.

Gertrude Lawrence, como outros artistas que mergulharam com intensidade em suas carreiras, levou uma vida conturbada, saiu do nada para ganhar o mundo, mas a conquista do sucesso não significou propriamente felicidade em âmbito pessoal. Exagerava na bebida e durante a Depressão americana enfrentou problemas econômicos com a justiça daquele país. Sua morte foi digna de romances shakespereanos: estava no palco, atuando, quando passou mal e foi levada ao hospital e faleceu. Dias depois foi constatada a causa do falecimento: câncer.

Figura, a princípio, completamente diferente de sua intérprete. Enquanto Gertrude foi polêmica, Julie jamais esteve envolvida em escândalos. Mas alguns fatores aproximam as atrizes além da origem inglesa: a disposição, o talento e a paixão pela interpretação.

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                                       Julie Andrews (imagem à direita) revive famoso espetáculo de Gertrude Lawrence

E provavelmente foi essa afinidade que levou Julie a desempenhar o papel com tamanha dedicação. Enfrentou e superou seus maiores desafios vocais e físicos em canções de diferentes gêneros e coreografias difíceis. Talvez tenha sido sua atuação mais completa. Só que, paradoxalmente, o filme afastou a atriz dos holofotes da mídia.

Apesar de ser um musical, com vezes de comédia, cativante, e de tecnicamente ser impressionante, retratando com fidelidade tantos cenários e figurinos, a duração de quase três horas afugentou o grande público, que no mesmo ano pôde conferir outro filme parecido, “Funny Girl”, com Barbra Streisand. Isso sem contar a produção caótica do longa: as filmagens levaram quase um ano e somadas aos fatores já citados, fizeram a Fox ultrapassar o orçamento previsto. O longa chegou a ser reeditado, perdendo mais de uma hora da trama, e relançado com o título “Those Were the Happy Days!”, versão que passou na tevê brasileira.

Realmente não é um filme fácil e seu excesso de situações pode cansar alguns espectadores menos dispostos. Mas sua longa duração reúne vários momentos fantásticos, números musicais deliciosos e uma Julie Andrews surpreendente, comprovando sua versatilidade como artista num desempenho que lhe rendeu uma indicação ao Globo de Ouro – notem a cena em que sua personagem fica bêbada. Extremamente divertida. Seu companheiro em cena, Daniel Massey, saiu vencedor em Melhor Ator Coadjuvante também no Globo de Ouro e foi indicado ao Oscar – a produção recebeu mais seis indicações na premiação da Academia.

Waldemar Lopes, amigo, artista plástico e grande conhecedor da carreira e da vida de Julie Andrews (a quem ele conhece pessoalmente) lembra que “A Estrela” serviu também para Julie fazer uma grande amizade, com o lendário coreógrafo Michael Kidd (“Sete Noivas Para Sete Irmãos”, 1954), que em 1996 recebeu um Oscar Honorário das mãos dela.

Incompreendido em sua época, “A Estrela” atualmente faz parte do acervo em DVD “Fox Classics” e pode ser considerado um ancestral de “Forrest Gump”, ao inserir sua protagonista em momentos importantes das primeiras décadas do século XX, alternando estas cenas, rodadas em preto e branco, com a trama. E também parente de “Dreamgirls – Em Busca de Um Sonho”. Assim como o filme de 2006, é um musical tecnicamente impecável, com ótimo elenco, indicado várias vezes ao Oscar, mas que não foi sucesso de bilheteria e posteriormente seguiu bela carreira em home vídeo.

Cotação: 8,5

Confira mais imagens do filme e de Gertrude Lawrence no Flickr do site

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1 Comentário
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  1. André, parabéns pela sua bela análise da carreira de A ESTRELA, um musical grandioso mas que realmente fracassou nas bilheterias. Curiosamente, o musical foi ganhando um status “cult” e tem vários admiradores, entre eles José Wilker, um amante da 7.a arte.
    Julie diz que se orgulha de ter feito parte desse musical brilhantemente realizado por Robert Wise e com seu famoso bom humor declarou nunca ter aparecido mais glamurosa em toda vida, com cerca de 135 figurinos – um record para uma só atriz – e jóias Cartier enviadas de Paris exclusivamente para ela. Felizmente, o insucesso financeiro do filme só arranhou o estrelato de Julie na época: ela conseguiu dar a volta por cima nas décadas seguintes. Recentemente a revista Newsweek fez uma pesquisa e revelou que na história do cinema, a única atriz que arrecadou mais de 200 milhões de dólares no papel principal de um filme não foi Julia Roberts, Anjelina Jolie ou Reese Witherspoon. Foi Julie em Mary Poppins! E um site de boxoffice de atrizes em atividade pela média de filmes na carreira a coloca em surpreendente 3.0 lugar – atrás somente das gatonas Keira Knightly e Megan Fox! Brava, Julie, Star!

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