Harry Potter Especial – Os cinco primeiros filmes
Por André Azenha (15/07/2009) // ComentePor: Ricardo Prado
Harry Potter e a Pedra Filosofal (Harry Potter and the Sorcerer Stone, EUA / Inglaterra, 2001). Direção: Chris Columbus. Roteiro: Steven Kloves, baseado em livro de J.K. Rowling. Elenco: Daniel Radcliff, Rupert Grint, Emma Watson, Richard Harris, Maggie Smith, Alan Rickman e John Cleese. Aventura / Fantasia. 152 min. (Cor).
7,5
Independente de terem sido escritos de olho em adaptações para o cinema, a série “Harry Potter”, escrita pela inglesa J. K. Rowling e lançada pela primeira vez no Reino Unido em 1997, tem, sim, um valor visual e imaginativo muito vasto. Já na primeira história, a autora trata de criar e desenvolver uma complexa mitologia, que vai desde as particularidades da escola de bruxos, Hogwarts, até o tipo de doce que os jovens comem, como os sapos de chocolate. E só deu certo em cinema porque teve uma produção respeitável por trás e a consultoria direta da própria autora. Com uma direção de arte digna de uma história de fantasia, um elenco principal desconhecido e nenhuma pressa em contar tudo do mais importante do livro, “Harry Potter e a Pedra Filosofal” chegou aos cinemas com um potencial que se confirmou.
Em 1999, a autora Rowling vendeu os direitos dos quatro primeiros livros de sua série para a Warner Bros., por um valor divulgado como de 1 milhão de libras. Fazia questão que o elenco fosse estritamente inglês (apesar de o intérprete de Dumbledore, Richard Harris, ser escocês). O filme estreou em 2001 e foi bem recebido pela crítica e, principalmente, pelo público. Quem não conhecia a história tratou de devorar os quatro livros que já estavam nas livrarias, além de garantir assentos nas salas quando estreassem os próximos filmes. Ao mesmo tempo em que introduz o universo dos bruxos, que convivem em segredo entre as pessoas normais (ou “trouxas”), “Harry Potter e a Pedra Filosofal” também se dedica ao desenrolar da aventura envolvendo a tal pedra. Com quase duas horas de meia de filme, acontece muita coisa: Harry descobre ser um bruxo, desvenda seu passado sombrio, vai a Hogwarts, conhece seus amigos, aprende a voar de vassoura, entra para o time de Quadribol, sofre um ataque de Trasgo, descobre a história por trás da pedra filosofal e, por fim, fica cara-a-cara com Voldemort, o grande vilão da saga, e que foi responsável pela cicatriz que Harry carrega em sua testa.
O nome gerou um pouco de confusão depois que acabou mudando, quando o filme estreou nos Estados Unidos. Em inglês, o primeiro livro se chama “Harry Potter and the Philosopher’s Stone”, mas se chama “Harry Potter and the Sorcerer’s Stone” nos EUA, supostamente porque as crianças de lá não se interessariam por uma pedra filosofal, mas sim por uma “pedra de feiticeiro”.
Encontrar um castelo gigantesco para servir de Hogwarts não deve ter sido difícil, já que o Reino Unido é notório por ainda contar com diversos deles em seu território. Hogwarts é “interpretada” pelo castelo Alnwick, que fica em Northumberland, e que foi residência do duque do lugar. Construído inicialmente em 1096, foi residência da linhagem Northumberland até o século 16. É o mesmo castelo utilizado em filmes como “Robin Hood, o Príncipe dos Ladrões” (1991) e “Elizabeth” (1998). O castelo ficou estabelecido como Hogwarts em todos os filmes que seguiriam.
Já os papéis principais tiveram seus atores escolhidos por extensivos testes feitos com milhares de crianças britânicas. Dos três, Daniel Radcliffe é o único que já havia atuado antes (ele interpretou um jovem David Copperfield no filme homônimo para a tevê inglesa, e também esteve em “O Alfaiate do Panamá”, com Pierce Brosnan e Jamie Lee Curtis). Escolhas preciosas também foram feitas entre o elenco mais experiente, o dos professores, como Maggie Smith, que faz a professora Minerva McGonagall, Richard Harris, o professor Dumbledore, Alan Rickman, como o professor Snape, e até John Cleese, ex-Monty Python, em um papel tão “humor britânico” como: Nick Quase-Sem-Cabeça.
Os anos 2000 serão lembrados em cinema como a época em que grandes épicos de fantasia foram feitos, já que a tecnologia permitia que se pudesse fazer de tudo, praticamente. Coincidentemente, mais tarde, no mesmo ano, também seria lançado outro grande marco dessa década, que seria “O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel”, também inspirado em literatura, e que teve seu universo transposto para o cinema com competência graças a uma direção de arte à altura. “Harry Potter”, hoje, já tem garantidas adaptações para todos os seus livros, até o final. Isso é resultado da competência da produção e também dos fãs, que pularam em números surpreendentes nesse barco e não quiseram sair mais.
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Harry Potter e a Câmara Secreta (Harry Potter and the Chamber of Secrets, EUA / Inglaterra / Alemanha, 2002). Direção: Chris Columbus. Steven Kloves, baseado em livro de J.K. Rowling. Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Richard Harris, Maggie Smith, Kenneth Branagh, Alan Rickman, Robbie Coltrane, Jason Isaacs, John Cleese. Aventura / Fantasia. 161 min. (Cor).
7,5
Como terreno assentado pelo primeiro filme, “Harry Potter e a Câmara Secreta” pôde estender ainda mais o universo dos bruxos e dar mais espaço à trama central desse capítulo. Logo no início, o espectador conhece a família dos protagonistas, começando pelos Weasley e, em seguida, Lucius Malfoy, o pai de Draco e um vilão por si só. O que mais se percebe, porém, é um tom bem mais sombrio do que o primeiro filme, tanto nos temas invocados quanto na direção de arte.
A equipe de produção é a mesma; o que mudou, na verdade, foi a atenção dada ao tom geral do livro. Mesmo “Harry Potter e a Pedra Filosofal” tinha uma ambientação sombria, mas que não se mostrou atraente para o cinema, ainda mais no primeiro filme. Agora, com os fãs conquistados e garantia de sucesso em, pelo menos, outros dois filmes, “Harry Potter e a Câmara Secreta” pôde finalmente ser mais sério.
De volta a Hogwarts para o seu segundo ano na escola de magia, Harry vê que tudo parece conspirar para que ele não continue por lá. Ainda na casa dos Dursley, foi visitado por um elfo chamado Dobby, que o advertia para não voltar. Rony Weasley aparece em um carro voador (um Ford Anglia visivelmente modificado) e o leva para sua casa, até o momento de terem que embarcar no Expresso Hogwarts, que acabam perdendo. A solução acaba sendo o próprio carro, novamente. Já na escola, misteriosos acontecimentos passam a ocorrer, com pessoas sendo petrificadas e Harry ouvindo uma voz sinistra dizendo “matar”.
Novos professores aparecem nesse filme. Mais notavelmente, Gilderoy Lockhart, que vem para ficar no lugar do professor Quirrell, que se revelou o vilão do capítulo anterior. Interpretado graciosamente por Kenneth Branagh, que é um ator e diretor shakesperiano, vindo de Hamlet, Otelo e Henry V. Miriam Margolyes aparece timidamente como a professora de herbologia, mas é Jason Isaacs quem rouba a cena, como o malévolo Lucius Malfoy, que já é um ator de gabarito e esteve recentemente em “Um Homem Bom”, de Vicente Amorim. Já Richard Harris aparece aqui pela última vez como Dumbledore e no cinema como um todo, já que morreu poucas semanas depois do término das filmagens, sendo substituído a partir de “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban” por Michael Gambon. Este também foi o último “Harry Potter” dirigido por Chris Columbus (cujo maior feito em cinema continua sendo “Esqueceram de Mim” e sua continuação), já que o mexicano Alfonso Cuarón assumiu como diretor na continuação, “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban”.
Quanto aos jovens protagonistas, percebe-se a natural mudança de voz de Daniel Radcliffe e Rupert Grint, então com 13 anos de idade, no meio de transições pelas quais todo rapaz passa. Quem aparece mais é a irmã de Rony, Gina (feito por Bonnie Wright, que também apareceu rapidamente no primeiro filme, sem falas). Tom Felton faz um Draco Malfoy perverso como sempre, só que um pouco mais alto.
Os efeitos especiais surgem mais sofisticados do que nunca, começando logo de cara com Dobby, construído digitalmente e com apurada destreza. Mais para o final, com a revelação de uma aranha gigante e, posteriormente, uma cobra gigante, é que percebemos que realmente não há limites para esse departamento.
“Harry Potter e a Câmara Secreta” representou mudanças necessárias e bem-vindas à série, como uma mudança para tom mais sério. Ao longo da série, cada vez mais temas políticos e relacionados à mitologia da série iriam se tornar mais importantes, então “Harry Potter e a Câmara Secreta” proporciona um bom treino. Tem mais de duas horas e meia de duração, mas a essa altura os fãs já foram fisgados e agüentam, sim, todo o tempo sem reclamar.
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Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (Harry Potter and The Prisoner of Azkaban, EUA / Inglaterra, 2004). Direção: Alfonso Cuarón. Roteiro: Steven Kloves, baseado em livro de J.K. Rowling. Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Maggie Smith, Emma Thompson, Alan Rickman, Gary Oldman, Julie Christie. Aventura / Fantasia. 139 min. (Cor).
8,0
Apesar de ter introduzido elementos mais sombrios, temos que concordar que “Harry Potter e a Câmara Secreta” não teve tanto suspense quanto a sua continuação, “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban”. Foi a primeira vez que a trama central e o passado de Harry se cruzaram, num bolo que não só ajudava o espectador a conhecer mais sobre o universo dos pais do garoto como também introduzia personagens novos que viriam a continuar importantes mais à frente. “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban” também foi marcado por grandes mudanças na produção. Chris Columbus deixou a direção, atuando apenas como produtor, e passou o cargo para o mexicano Alfonso Cuarón (consagrado com a comédia “E Sua Mãe Também”, e que, depois de “Harry Potter”, faria “Filhos da Esperança”). O papel de Alvo Dumbledore passou para o ator Michael Gambon, já que o intérprete original morreu pouco depois do lançamento do filme anterior.
Das tais mudanças, nenhuma diminuiu a qualidade da produção. Dá para percebê-las bastante, porém. A fotografia está bem melhor cuidada, existem mais fade-ins e fade-outs, os protagonistas deixam de usar os robes para andarem de roupas mais, digamos, urbanas, e, claro, um tom mais sério e sombrio do que os filmes anteriores. O novo Dumbledore é sutilmente diferente do anterior, também. Se Richard Harris fazia um diretor sereno e enigmático, Michael Gambon faz um Dumbledore mais animado, quase eloqüente demais.
Como no ano anterior, Harry volta a Hogwarts com uma ameaça. Sirius Black, um psicopata, fugiu da prisão de Azkaban, tida como impossível de se escapar, e seu alvo é o menino da cicatriz. Também chega a Hogwarts um novo professor de Defesa Contra as Artes das Trevas, o sr. Lupin. Acontece que agora a escola está sob vigilância dos Dementadores, criaturas fantasmagóricas que têm o objetivo de recapturar Black.

Desde o filme anterior era possível perceber certa tensão entre Rony e Hermione, e mais ainda se nota aqui. Fica claro que algo acontecerá entre os dois. Já Harry não mudou muito desde “Harry Potter e a Câmara Secreta”, apenas teve seu isolamento aumentado. Depois de bastante tempo retratado como uma verdadeira força do mal, Snape aparece aqui mais como um benfeitor do que outra coisa. E é muito boa a participação de Emma Thompson (irreconhecível, como sempre) como a professora Trelawney, de Adivinhação. Impagável, principalmente, quando “recebe” um espírito.
Até hoje Alfonso Cuarón expressa desejo de voltar a dirigir “Harry Potter”, já que considerou a experiência memorável. Com a saída de Chris Columbus, a produção penou para conseguir encontrar um substituto. Considerou-se Guillermo del Toro (”Hellboy” e, mais tarde, “O Labirinto do Fauno”), Marc Forster (”Em Busca da Terra do Nunca”, mas que não quis trabalhar com crianças novamente), e três outros nomes sugeridos pela própria Warner: Callie Khouri (sem trabalhos proeminentes, só em 2008 lançaria “Loucas por Amor, Viciadas em Dinheiro”), Kenneth Branagh (que interpretou Gilderoy Lockhart no filme anterior, e já tinha extensa carreira em teatro e como diretor) e, finalmente, Cuarón, que não havia visto nenhum dos filmes nem lido nenhum dos livros. Depois de conferir tudo, decidiu aceitar.
Este terceiro filme demorou mais do que o anterior para chegar às telonas. O primeiro veio em 2001, e o segundo, em 2002. Já este terceiro só ficou pronto em 2004. A partir daí, a produção deixou de se preocupar em lançar os filmes rapidamente (o próximo intervalo de dois anos viria entre “Harry Potter e o Cálice de Fogo” e “Harry Potter e a Ordem da Fênix”).
“Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban” continuou a ótima passagem dos livros de J. K. Rowling para os cinemas, fazendo sucesso tanto entre os críticos quanto com o público, com destaque para a direção de arte, sempre competente, e os efeitos especiais, que nos fazem crer naquele universo. E não pare o filme após o final, já que a seqüência de créditos finalmente deixou de ser o chatíssimo fundo-preto-texto-branco para se tornar um trabalho hipnótico de bom.
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Harry Potter e o Cálice de Fogo (Harry Potter and the Goblet of Fire, EUA / Inglaterra, 2005). Direção: Mike Newell. Roteiro: Steven Kloves, baseado em livro de J.K. Rowling. Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Alan Rickman, Gary Oldman, Ralph Fiennes, Michael Gambon, Jason Isaacs, Maggie Smith e Miranda Richardson. Aventura / Fantasia. 157 min. (Cor).
8,0
É só olhar para uma estante que carrega os quatro primeiros livros da série para perceber o quão enorme é “Harry Potter e o Cálice de Fogo”. Com mais de setecentas páginas na edição original, a história foi consideravelmente cortada para ser adaptada às telonas, por mais que “Harry Potter e o Cálice de Fogo” seja sutilmente mais curto que “Harry Potter e a Câmara Secreta”. Mais uma vez com novo diretor (Mike Newell, de “Quatro Casamentos e um Funeral”, “Donnie Brasco”, e, mais tarde, “O Amor nos Tempos do Cólera”), o filme recebeu muita atenção da mídia por mostrar os protagonistas no pico da adolescência, e passando por conflitos dessa época.
Para começar, os Dursley nem aparecem neste filme. Em vez de um início igual ao dos outros três filmes, temos uma saudável mudança de cenário, com o próprio Voldemort no meio de seus servos. As aulas de Hogwarts também foram todas cortadas, com exceção de uma única de Defesa Contra as Artes das Trevas, mais uma vez com um novo professor: Alastor Moody, ou Olho-Tonto Moody. Existem também outros cortes e “enxugamentos”, normais em qualquer adaptação. O que fica não é um filme corrido, mas específico.
“Harry Potter e o Cálice de Fogo” acaba sendo o primeiro da série a ser sobre um assunto, somente. E este é o Torneio Tribruxo. Enquanto os outros filmes tinham seu enredo principal, mas também contavam com outros elementos na história, aqui tudo que acontece é relacionado ao torneio. O Torneio Tribruxo é uma tradição no mundo dos magos, e envolve três escolas (Hogwarts, Durmstrang e Beauxbatons) e o perigo de morrer durante as três tarefas. Apesar de ser proibido para menores de 17 anos, de alguma forma, Harry é inscrito e acaba sendo selecionado para o torneio.
À época da estréia do filme, falou-se muito da efervescência dos jovens, dos hormônios, entre outros clichês. O que se percebe em “Harry Potter e o Cálice de Fogo” é, na verdade, uma confusão de emoções. O primeiro choque ocorre quando Rony e Harry brigam, quando o primeiro acha que o segundo trapaceou ao acabar sendo selecionado para o torneio. Mais para frente, Hermione tem um verdadeiro chilique ao ter que explicar para Rony que ele deveria tê-la chamado para o baile logo no início, e não deixado até se esgoteram todas as opções. Já Harry tenta, sem sucesso, aproximar-se de uma moça oriental chamada Cho.
Como Alastor Moody, está Brendan Gleeson, veterano de filmes como “Cruzada”, “A Vila”, “Tróia”, e que mais tarde brilharia ao lado de Colin Farrell em “Na Mira do Chefe”. Ele está sob uma maquiagem belíssima, por sinal, com um olho mecânico fora de controle que insiste em roubar a cena. Outra jóia é Ralph Fiennes, como sempre. Finalmente o vilão onipresente da série, Voldemort, toma corpo, e é o de um ator fantástico, por mais que usando uma máscara que limita demais a sua expressão. E Jason Isaacs (Lucius Malfoy) volta, para tornar o elenco melhor ainda, por mais que não apareça tanto assim. E quem prestar atenção vai poder notar dois membros do Radiohead e mais dois da banda Pulp como parte da banda de bruxos The Weird Sisters, que toca na segunda parte do baile. Destaque, também, para Robert Pattinson, no papel de Cedrico, que mais tarde branquearia o rosto e iria se tornar ídolo adolescente em “Crepúsculo”.
A partir de “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban”, os pôsteres dos filmes se tornaram quase impossíveis de se diferenciar. Dê uma olhada. O padrão se instituiu: Harry, Rony, Hermione em um fundo escuro, tom azulado, nuvens tempestuosas e olhar sinistro. Até o de “Harry Potter e a Câmara Secreta” começava a mostrar tais características. É uma pena para uma série com conteúdo visual tão frutífero. Por que não fazer como os livros e colocar, por exemplo, Harry enfrentando o dragão em “Harry Potter e o Cálice de Fogo”? É uma decisão discutível.
“Harry Potter e o Cálice de Fogo”, convenhamos, fez milagre para fazer sentido tendo um livro grande como matéria prima. É claro que, hoje, sabemos que o próximo livro (“Harry Potter e a Ordem da Fênix”), com viria a ser maior ainda, e o esforço da produção teve que ser tão grande quanto. Por conta das escolhas feitas para condensar tudo, pode-se dizer que este quarto filme seja um tanto corrido, ou até menos memorável do que os outros. Mas ninguém pode chamar de corrida ou imemorável o primeiro embate entre Harry Potter e Lord Voldemort, ao final.
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Harry Potter e a Ordem da Fênix (Harry Potter and the Order of the Phoenix, EUA / Inglaterra, 2007). Direção: David Yates. Roteiro: Michael Goldenberg, baseado em livro de J.K. Rowling. Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Alan Rickman, Gary Oldman, Maggie Smith, Imelda Staunton, Michael Gambon, Emma Thompson, Helena Bonham Carter, Jason Isaacs e Ralph Fiennes. Aventura / Fantasia. 138 min. (Cor).
9,0
É interessante como os primeiros filmes da série conseguiram ser tão bem conduzidos, já que não contavam quase nada perto do que passou a ser contado da metade da série para o final. O antagonista só consegue se reviver no final de “Harry Potter e o Cálice de Fogo”, o quarto filme. Até entao, manifestava-se de formas bem menores, mas que, mesmo assim, criavam tensão (o clímax de “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban nem envolvia um confronto com o lorde das trevas, mas contra os Dementadores). Agora, as coisas ficaram sérias. Passavam a fazer parte do universo da série intrigas e interesses políticos, exércitos e organizações secretas. Só não se pode dizer que os filmes estão irreconhecíveis, já que tudo faz parte de uma evolução.
Ao início, tornamos a ver os Dursley, que não víamos desde “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban”. Harry e Duda são atacados por Dementadores, que misteriosamente aparecem no Surrey. Ao espantá-los, Harry é intimado pelo Minisério da Magia, já que usou magia na frente de um trouxa. É nesse momento que ele percebe uma verdadeira conspiração contra ele, liderada pelo ministro Fudge, que não acredita no retorno do Lorde Voldemort. Quando volta a Hogwarts, as coisas ficam ainda piores: como professora de Defesa Contra as Artes das Trevas, assume Dolores Umbridge, que, na verdade, atuará como os olhos do Ministério em Hogwarts. Ela começa a interferir em praticamente tudo dentro da escola, instituindo decretos autoritários e, por fim, tomando o posto de Dumbledore como diretora. Ao mesmo tempo, Harry começa a recrutar seus amigos para lutar contra o mal que já chegou.
É verdade que “Harry Potter e a Câmara Secreta” era mais dark do que o primeiro filme, mas foi só aqui, no quinto, que as coisas ficaram verdadeiramente sérias e tensas. Agora, as aulas se tornaram irrelevantes, já que o mundo dos magos testemunha o retorno daquele que tanto o aterrorizou no passado. Daqui para frente será assim, e os fãs que cresceram com a série agradecem. Só deve espantar quem resolver se iniciar agora.
Mais uma vez houve troca de diretor. Sai Mike Newell, entra David Yates, que logo seria indicado para dirigir os filmes da série até o final. Justamente pelo clima tenso e político de “Harry Potter e a Ordem da Fênix” é que Yates foi chamado, devido ao seu trabalho na série dramática “Sex Traffic”. Como este capítulo tem extensos e complexos enfrentamentos, foi chamado o coreógrafo Paul Harris, que havia trabalhado em “A Outra” e em programas da BBC como “Jane Eyre”, “Bleak House”, e no filme da Disney “The Cheetah Girls 2″. Aliás, é graças à longa seqüência do clímax que “Harry Potter e a Ordem da Fênix” tem um dos finais mais eletrizantes da série até então.
Agora que todos os livros já foram lançados, pode-se dizer que “Harry Potter e a Ordem da Fênix” é o mais longo de toda a série. São 704 páginas na edição brasileira da Editora Rocco. Se “Harry Potter e o Cálice de Fogo”, então o maior, já foi difícil, este então foi uma verdadeira Cruzada. O roteirista Michael Goldenberg declarou que se preocupou em ser fiel ao “espírito do livro”, e não a cada frase e palavra. Mais uma vez, um grande corte foi o Quadribol, que não vemos faz tempo. Entre outros cortes, cenas que detalhavam mais o desenvolvimento dos personagens (no livro, Rony tenta entrar para o time de Quadribol, e a morte dos pais de Neville é melhor tratada). Harry dá seu primeiro beijo neste filme, com Cho Chang, mas também é só neste momento em que existe intimidade alguma entre eles, novamente devido a cortes.
No elenco, mais uma vez contamos com o sempre sinistro Alan Rickman, com um Snape cada vez mais interessante e enigmático. Outro sempre ótimo, Jason Isaacs, volta mais uma vez como Lucius Malfoy, finalmente estabelecido como um vilão, infinitamente mais do que seu filho, Draco, jogado para escanteio, sem importância alguma na história. Helena Bonham Carter (mulher de Tim Burton e presença freqüente nos filmes dele) aparece como a enlouquecida Bellatrix Lestrange, uma das servas de Voldemort, mas fica a sensação de que ela deverá ter maior importância mais para frente ou que sua importância aqui foi cortada por razões de espaço. Tem também Imelda Staunton, como a perversa Umbridge, que o espectador amará odiar.
Não dá para ignorar o fato de a série simplesmente não diminuir em qualidade conforme os filmes são lançados. A produção realmente está em uma boa sintonia com os trabalhos originais mas, mais importante ainda, com as técnicas do bom cinema. Lançado à mesma época que “Transformers”, ficou realmente visível a qualidade da série e do filme.
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