Garota Ideal, A

Por André Azenha (12/06/2009) // Comente

Por: Ricardo Prado

garotaidealA Garota Ideal (Lars and the Real Girl, EUA, 2007). Direção: Graig Gillespie. Roteiro: Nancy Oliver. Elenco: Ryan Gosling, Patricia Clarkson, Emily Mortimer, Paul Schneider, Kelli Garner. Comédia. 106 min. (Cor).

8,5

A premissa de um homem que se apaixona por uma boneca certamente soa engraçada, e daria uma excelente comédia. O caso em “A Garota Ideal” é bem mais extraordinário. O roteiro pega essa premissa e explora o drama por trás deste homem solitário que só tem seus sentimentos correspondidos por uma namorada que encomenda e chega em sua garagem numa caixa. Num trabalho de atuação digno de prêmio por parte de Ryan Gosling (de “Half Nelson”), “A Garota Ideal” tem, sim, suas partes cômicas, mas propõe ao espectador essa outra leitura.

Lars Lindstrom é um homem tímido e solitário que vive na garagem da casa onde o irmão mora com a mulher grávida. A partir da recomendação de um colega do trabalho, Lars encomenda uma boneca “anatomicamente perfeita”. Ao invés de mantê-la só para si, ele começa a apresentá-la para todo mundo, como se fosse uma pessoa de verdade. Preocupado, o irmão vai atrás de ajuda psiquiátrica para Lars, e o conselho dado é “play along”, faça parte da brincadeira. Tratar a boneca, chamada de Bianca, como gente é uma manifestação psicológica de Lars, e a única forma de lidar com a situação é entrar no jogo dele. Em solidariedade ao rapaz, toda a cidade começa a tratar Bianca como se fosse uma pessoa de verdade, tornando-se até presença disputada nas festas da cidade — às vezes até nem levando Lars junto.

garotaidealum

A partir desse ponto, certa confusão pode se criar. Quase todos os retratos de losers que temos no cinema tratam-se de retratos negativos, ou de personagens um tanto desprezíveis. Ninguém geralmente gosta deles, ou são ignorados completamente. Não é o caso de Lars, que é querido por todos apesar de seu jeito recluso. É por isso que todos entram fácil na brincadeira de tratar Bianca como gente. Há quem assista o filme e pense que Bianca é mesmo de verdade (uma reviravolta do tipo “Clube da Luta”, por exemplo) ou a cidade inteira é formada por loucos (”O Alienista” gostaria dessa história; ou não). É justamente o amor que todos sentem por Lars que os fazem “acreditar” na vida dentro de Bianca, e o charme do filme está no fato de isso não ser explicitamente mostrado, pelo menos não até o finalzinho.

Ao se ver de longe, a premissa de “A Garota Ideal” causa risos ou repulsa. Quando visto, percebe-se que é um dos filmes mais doces já feitos. Talvez uma metáfora para o próprio Lars: estranho de longe, amável de perto.

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