Hithcock e o porto do suspense
Por André Azenha (08/05/2009) // ComenteMarnie – Confissões de Uma Ladra
Por: Alessandro AtanesTexto originalmente publicado no site PortoGente
Marnie - Confissões de Uma Ladra (Marnie, EUA, 1964). Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Winston Graham, Jay Presson Allen. Elenco: Tippi Hedrenn, Sean Connery, Diane Baker, Martin Gabel. Suspense. 130 min. (Cor).
Além de lugar de transbordo de cargas, os portos são também local de passagem de condição social de seus personagens. No filme “Marnie – Confissões de Uma Ladra”, de Alfred Hitchcock, Tippi Hedrenn, que também foi a principal atriz de “Os pássaros”, interpreta a ladra do título, uma golpista que sob nomes falsos emprega-se em empresas para aplicar calotes. Ela é elegante, bem vestida, polida e belíssima e não atrai suspeitas entre escritórios da área comercial da cidade de Maryland, Estados Unidos.
Entre um e outro golpe, ela passeio de cavalo (outro sinal “aristocrático” cultivado pela personagem) e visita a mãe, que mora na zona portuária. Após novo desfalque, a personagem chega ao cenário às margens do porto, o lar da infância, quando sua mãe costumava sair com marinheiros para conseguir sustentar a família. Ela chega de táxi. O automóvel sobe a rua e, enquanto Marnie desce do carro para voltar à casa da mãe, meninas pulando corda na rua reforçam a cena de volta à infância.

O retorno ao porto da infância
O destino de Marnie se altera quando conhece Mark Rutland, personagem interpretado por Sean Connery, herdeiro de uma das empresas “visitadas” que sofreram o golpe. Rutland desconfia de Marnie desde o primeiro momento, mas apaixona-se pela ladra e ainda se casa com ela. Preocupado em desvendar os motivos que a levaram para esse caminho, Rutland inicia uma investigação sobre o passado da esposa que culmina em segui-la até a casa da mãe. É ali, no cenário portuário, que ele faz com que Marnie confronte o trauma de infância que a levou ao crime na vida adulta. Como num bom filme de suspense, e esse é um deles, o clímax do enredo ocorre durante um dia de chuva torrencial.
Há uma analogia entre a infância desamparada em “Marnie – confissões de uma ladra” e a infância em torno do porto em “Querô – Uma Reportagem Maldita” (1975), de Plínio Marcos, romance cuja adaptação ao cinema foi lançada agora em 2007 (creio que eclipsado pelo fenômeno social de “Tropa de Elite”). Do suspense de Hitchcock à denúncia social em Plínio Marcos, fica o porto enquanto espaço de uma infância perdida.