Entrevista – Alessandro Atanes

Por André Azenha (16/04/2009) // Comente

Por: André Azenha

Foto: Leandro Amaral

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Quem tem o costume de comparecer aos eventos do Restaurante La Quiche Dorée, em Santos, já deve ter se deparado com este jornalista, que muitas vezes atua como intermediador nos encontros culturais realizados pelo estabelecimento. Ou então é só acontecer um evento cultural interessante na cidade do litoral paulista que provavelmente o santista Alessandro Atanes, 36 anos, estará presente.

Casado com a também jornalista, assessora de comunicação e produtora cultural Marcia Costa, Atanes é Mestre em História Social pela USP, assessor de comunicação, autor da coluna  Porto Literário, da revista eletrônica PortoGente (onde, além da ligação da literatura com o porto, escreve sobre cinema), e colaborador do CineZen Cultural, entre tantas outras atividades, sempre conectadas à cultura e ao jornalismo de alguma forma, Trata-se de uma figura de opinião forte, e que contribui à sua maneira para a cultura da Baixada Santista.

Em entrevista exclusiva ao site, Alessandro narrou como nasceu a coluna Porto Literário, opinou sobre o jornalismo cultural realizado no Brasil, e sobre a cultura em Santos, emendou: “Não dá para uma secretaria de Cultura ainda atuar na base do balcão que recebe projetos e seleciona o que vai ser encampado pelo poder público. A seleção pública vai melhorar essa questão, mas o que importa é que a secretaria preste atenção no que vem sendo feito pela própria prefeitura, que é parceira em organizações como a Incubadora de Empresas de Santos ou o Arranjo Produtivo Local de Tecnologia da Informação, ambas soluções de governança que reúnem diversos atores do mesmo setor para fortalecimento desses mercados. Já imaginou Santos, com tantos artistas e movimentos, com uma incubadora cultural ou arranjos coletivos para os artistas? Uma incubadora, por exemplo, pode reunir grupos de instrumentistas, atores, corais, figurinistas, etc. Estão todos juntos, dá para montar uma ópera por ano, pelo menos”.

Sobre sua relação com a sétima arte, afirmou que em “semanas boas” costuma conferir um filme por dia, na TV a cabo, e quando solicitado para indicar cinco filmes para assistir e outros cinco para evitar, ultrapassou o número na primeira categoria, revelando-se admirador de Alfred Hitchcock e Stanley Kubrick, e afirmou que “não devemos evitar os filmes, mas saber que tem uma boa parte deles que não serve para muita coisa”.

Ao listar seus escritores preferidos, fez questão de lembrar dos conterrâneos Flávio Viegas Amoreira, Marcelo Ariel, Ademir Demarchi e Alberto Martins. Abaixo, o papo completo.

Como nasceu a idéia de escrever uma coluna onde você relaciona literatura, e também cinema, ao Porto?
Alessandro Atanes - Desde 2001, com uma especialização que fiz na Uniban sobre História e Historiografia, venho estudando a história do porto e da cidade de Santos usando como documento os textos literários (romances, contos, poesias e também relatos de viagem). Após a especialização, continuei estudando como aluno especial nas aulas da pós graduação da USP até 2005, quando ingressei como aluno regular do Mestrado em História Social. Foi nesse ano que o site PortoGente me convidou para escrever uma coluna semanal sobre História e Literatura, cujo nome é Porto Literário. O PortoGente é um semanário on line sobre portos, movimentação de cargas, reportagens sobre as questões do comércio exterior e da administração portuária, enfim, essa coisa toda em torno dos portos, e achei muito legal eles abrirem esse espaço para a literatura.

Você é jornalista e trabalha na área cultural. Qual sua opinião sobre o jornalismo cultural brasileiro? É possível sobreviver neste segmento sem estar na grande imprensa?
AA  – Tem coisa que gosto, tem coisa que não. Não dá para dizer  “é bom”, “é ruim”, “é mais ou menos”. Temos aqui em São Paulo os dois cadernos culturais de domingo, da Folha e do Estado, que devem ser seguidos por qualquer um que queira escrever sobre literatura, Ciências Sociais, cinema, artes plásticas. Se possível, a gente deve ler também o do Globo e o do Jornal do Brasil, que infelizmente não é mais distribuído em Santos. Sou leitor do Mais! desde 1992 ou 1993, e hoje acho que ele passa por uma fase fraquinha. O Caderno 2 de domingo tem feito nos últimos meses matérias de capa robustas, com profundidade.

No dia-a-dia, a coisa é mais complicada. O que era jornalismo (reflexão, opinião, entrevista, debate) virou agenda, o que transformou as páginas dos cadernos culturais em espaço dos releases das grandes editoras, gravadores e produtoras de cinema e espetáculos. Como sair disso? Não faço a mínima idéia, mas não podemos deixar de produzir.

Há incentivo para a cultura no Brasil? E em Santos?
AA - Sim, há. A Lei Rouanet e outras de âmbito estadual ou municipal em todo o país acabam direcionando cada vez mais recursos para o setor, apesar das distorções que volta e meia aparecem na imprensa (inclusive as distorções causadas pela imprensa). Aqui em Santos parece que o movimento cultural e a Secretaria de Cultura não conseguem dialogar. Apesar das questões pessoais e políticas que geram obstáculos nessa comunicação, creio que cabe ao poder público municipal incrementar esse diálogo.

Em audiência pública na Câmara de Vereadores no dia 1º de abril, representantes da secretaria anunciaram que no segundo semestre saem os editais para seleção de projetos a serem bancados pelo Fundo Municipal de Cultura. Espero que não se atrasem.

Ainda em relação a políticas públicas, não dá para uma secretaria de Cultura ainda atuar na base do balcão que recebe projetos e seleciona o que vai ser encampado pelo poder público. A seleção pública vai melhorar essa questão, mas o que importa é que a secretaria preste atenção no que vem sendo feito pela própria prefeitura, que é parceira em organizações como a Incubadora de Empresas de Santos ou o Arranjo Produtivo Local de Tecnologia da Informação, ambas soluções de governança que reúnem diversos atores do mesmo setor para fortalecimento desses mercados. Já imaginou Santos, com tantos artistas e movimentos, com uma incubadora cultural ou arranjos coletivos para os artistas? Uma incubadora, por exemplo, pode reunir grupos de instrumentistas, atores, corais, figurinistas, etc. Estão todos juntos, dá para montar uma ópera por ano, pelo menos.

Você é Mestre em História Social pela USP. Qual foi seu objetivo ao ingressar neste mestrado e como você utiliza essa experiência na sua profissão?
AA – Não sei bem se eu tive um objetivo. O negócio é que eu gosto de estudar, é o que mais gosto de fazer e a escolha pelo Mestrado ocorreu por necessidade de me aprofundar, buscar conhecimentos que pudessem me ajudar a contar a história de Santos de uma maneira que não existia até a minha dissertação, que é usar a literatura como um documento histórico, não só como uma ilustração dos fatos reais, mas tentar entender como o texto estético, de invenção, se relaciona com esses fatos. Acho que consegui contribuir um pouco para o conhecimento sobre a cidade com meu trabalho. Quem quiser dar uma lida na dissertação, “História e Literatura no porto de Santos: o romance de identidade portuária Navios Iluminados”, pode baixá-la no site www.teses.usp.br. É só procurar pelo meu nome ou pelo título.

Existe uma série de eventos culturais e pessoas batalhando pela cultura na Baixada Santista. Como você enxerga esse movimento? O que precisa melhorar para que as pessoas que lidam com cultura na região possam viver disso e serem realmente respeitadas?
AA - Vejo o pessoal que produz cultura cada vez mais organizado. O respeito vem daí. Quanto a viver de cultura, acho que o pessoal está se virando. As condições estão cada vez melhores e a internet virou uma vitrine democrática. Tem gente que consegue mais, outros menos. E isso não tem nada a ver com talento, depende das condições e das circunstâncias de cada intelectual, artista ou grupo.

Qual sua relação com o cinema? Costuma assistir quantos filmes por semana?
AA – Não sei se posso dizer que sou um cinéfilo. Em semanas boas, vejo um filme por dia, principalmente no cabo. Mas nesta temporada estou devendo: desde antes do Oscar de 2009, por causa de uns trabalhos freelancer que fiz nas horas vagas, não tenho acompanhado os lançamentos. Na verdade, acho que devo deixar claro que não sou um crítico de filmes. Chegando ao quarto ano de Porto Literário, acho que não escrevi nem dez artigos sobre cinema. O que tento fazer nesses casos é notar como os portos se configuram como componentes narrativos nos filmes. Um exemplo é “Marnie – confissões de uma ladra”, de Alfred Hitchcock, em que o porto é o cenário que revela a infância pobre da protagonista.

Quais cinco filmes você indicaria para o leitor assistir, e outros cinco para evitar?
AA -
Minhas preferências mudam de tempos em tempos, mas para exercício lembro de “Clamor do Sexo”, de Elia Kazan, com Nathalie Wood e Warren Beaty em seu primeiro filme; “O terceiro tiro”, uma comédia de Hitchcock; “Simplesmente Alice”, de Woody Allen, principalmente as sequências de aventuras de Alice por Nova York com um fantástico tango de trilha sonora; “Kill Bill”, de Tarantino, obra-prima de nosso século, e, para não esquecer uma animação da safra recente, o filosófico “Wall-e”. Ih, nem citei Kubrick e seus “Laranja Mecânica”, “Nascido para Matar”, “2001: uma Odisséia no Espaço”. Não devemos evitar os filmes, mas saber que tem uma boa parte deles que não serve para muita coisa.

Você também escreve sobre literatura. Qual seu autor preferido?
AA  - Sempre tem um favorito. Nesse momento é Jorge Luis Borges, clássico de escolha certeira. Tem conto dele que já li cinco, seis, sete vezes. Mas gosto também de outros argentinos, principalmente o Ricardo Piglia e Adolfo Bioy Casares. Mas o pêndulo já está se movendo e tenho lido com muita atenção e gosto dois contemporâneos, o chileno Roberto Bolaño, morto recentemente, autor do futuro clássico “Os Detetives Selvagens”, e o português Gonçalo M. Tavares, uma grande imaginação a serviço da Literatura. Entre os historiadores fico com o italiano Carlo Ginzburg, um papa das questões referentes à ligação entre História e Literatura, sem contar os textos críticos e ensaios do Umberto Eco, prova de que vigor intelectual, profundidade e erudição não são divorciados de graça, humor e leveza.  Entre os contemporâneos da terra, vale a pena acompanhar a proesia (prosa+poesia) de Flávio Viegas Amoreira, a erudição socolina (de Vila Socó) de Marcelo Ariel, o apuro da poesia de Ademir Demarchi e os versos sobre o porto e o litoral de Alberto Martins.

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