Último Sol de Inverno
Por André Azenha (30/03/2009) // Comente
Por: Flávio Viegas Amoreira

Bergman e Antonionni
‘’Não há inspiração que não surja da Dor de uma Alma mais vasta que o Mundo.’’ Cioran
Escrevia estudo para editora carioca sobre 90 anos de Bergman quando soube da partida. Antonionni veio provar que em Arte o raio caí duas vezes no Olimpo. Jean Cocteau e Edith Piaf morreram no mesmo dia. Assim que assistiu filme nos primórdios da Sétima Arte, Paul Valéry disse: ‘’A civilização acabou…’’ grave profecia falhada. Eisenstein e Orson Welles filmavam pensando, Bergman e Antonionni pensavam filmando. Bergman compôs a película metafísica definitiva: ‘’O Sétimo Selo’’ pode ser lançado ao Cosmo numa cápsula para futuras civilizações descobrirem nosso fascinante fardo de existir e desaparecer.
Todo Kierkgaard está em Bergman, assim como ‘Blow Up’’ de Antonionni é aula de semiótica. ‘’Persona’’ revela psicologia do espanto ante desespero oceânico e o intimismo dum lago como refúgio ao Absurdo. Bergman vê o mundo pelo Homem, Antonionni espreita o Homem pelo mundo: alternavam close-ups e planos longos como Munch e De Chirico. Eles escreviam com os olhos: tocavam a sinfonia do Eterno e do efêmero de ouvido. Quando penso em Estética lembro de Visconti e na precariedade da condição humana evoco mentalmente a silhueta de Max Von Sidow defrontando a Morte. O que me conforta em Bergman? Só os artistas mambembes escapam da Peste medieval: só a Arte pode oferecer respostas mesmo que não definitivas. Antonionni expõem mesmo desprezo pela mediocridade: em ‘’O Mistério de Oberwald’’ a rainha e o revolucionário representam mesma solitude aristocrática dos intelectuais, dos poetas, dos loucos e dos homens demasiado sensíveis numa sociedade barbarizada pela ausência de Espírito.
Bergman e Antonionni foram perdas pessoais: rebubino diariamente ‘’Morangos Silvestres’’ e ‘’Profissão Repórter’’ entre neurônios imagéticos reciclados de novas perspectivas na aventura que é pensar poeticamente. O cinema erudito prova que não devemos temer novos suportes: o conteúdo criativo supera carência de qualquer forma midiática. Podemos fazer Poesia com marionetes ou na blogesfera. Ainda resta Godard, Resnais e Woody Allen e surgiram Ozon, Almodóvar e argentinos, iranianos, dinamarqueses. O cinema e o livro vão durar muito e a Internet há de alcançar excelência intertextual como quer Peter Greeneway. Bergman e os italianos dos anos 60 representaram a Renascença cinematográfica: faziam ‘filosofilmes’ para homens cultos. Homens cultos são cada vez mais raros, mas a Alta Cultura sobrevive nessa Idade Média cibernética que vivenciaremos. Artistas são aqueles que erguem catedrais na vasta planície: são enxadristas da sutileza, cavaleiros do Pensamento, oásis no enigma. No último dos dias gostaria de estar no escuro do cinema revendo Bergman à beira-mar. O Oceano é grande metáfora do Universo: denso e silencioso entre nossos gritos e sussurros.