Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal
Por André Azenha (18/02/2009) // ComentePor: André Azenha
Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull, EUA, 2008). Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Elenco: Harrison Ford, Cate Blanchett, Shia LaBeouf, John Hurt, Jim Broabent , Karen Allen, Ray Winstone. Aventura / Ação. 122 min. (Cor).
7,5
O homem do chapéu e chicote voltou. Foram quase duas décadas para que o público pudesse conferir com lágrimas nos olhos os trailers em que o sessentão Harrison Ford surgia em cena usando o conhecido chapéu Fedora (fabricado no Brasil!), ao som do tema clássico de John Williams, e a aguardada estréia, com uma bilheteria mundial de US$ 300 milhões na primeira semana, que logo de cara praticamente pagou toda a produção.
“Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” não só é uma aventura com sequências eletrizantes, que retoma a fórmula da franquia que marcou os anos 80 – a busca por algum tipo de artefato místico –, mas é o filme que voltou a reunir Steven Spielberg (diretor) e George Lucas (produtor), os parceiros por trás do sucesso de Indiana Jones, mas também da história dos últimos 30 anos de campeões de bilheterias. Eles mudaram o cinema, transformando filmes em espetáculos do verão americano, e retornam a um dos personagens que melhor simboliza sua proposta de entretenimento.
Antes de iniciar as filmagens, Spielberg foi para seu cinema particular na companhia do seu diretor de fotografia oficial, Janusz Kaminski, e assistiu as três produções anteriores com o intuito de capturar a essência das histórias passadas. Para o diretor, Indiana Jones não poderia ser modernizado com as altas tecnologias do século 21, para não perder a identidade da trilogia original. Até os pôsteres de divulgação foram criados por Drew Struzan, autor dos cartazes de todos os episódios da saga.

Mas não foi fácil tirar o quarto Indiana Jones do papel. Lucas queria ver a obra rodada digitalmente, como seus novos episódios de “Star Wars”, mas a posição de Spielberg foi mantida – o cineasta dispensa softwares de edição e segue montando como “antigamente”, na moviola, apesar de todos os efeitos digitais que marcam suas produções mais recentes. Spielberg diz que 30% dos efeitos do “Reino da Caveira de Cristal” são digitais e 70% são práticos, arranjados na hora da filmagem.
A diferença de opiniões entre os parceiros também foi responsável por arrastar a escolha de um roteiro definitivo por quase duas décadas. Um dos maiores empecilhos foi que Frank Darabont teve seu roteiro aprovado pelo diretor, mas rejeitado por George Lucas. Darabont ficou bastante ressentido, mas bastava dar uma rápida lida para perceber um deslocamento histórico. Apesar de sua trama se passar nos anos 50, os violões eram… nazistas!
Lucas revelou: “Atravessamos várias versões diferentes de ‘Indiana Jones 4’ durantes todos esses anos, com cinco roteiristas distintos”. Mas a idéia finalmente aprovada, quem diria, veio da velha série de TV baseada no personagem. O produtor explica: “Enquanto fazíamos ‘As Aventuras do Jovem Indiana Jones’, um dos roteiros em que trabalhamos foi sobre uma caveira mística de cristal. Eu fiquei fascinado com isso, porque continha vários aspectos que pareciam se encaixar no nosso tipo de filme”.
A escolha da “Caveira de Cristal” acabou se tornando o grande impasse do roteiro. Lucas, Spielberg e Ford queriam que a trama se baseasse num artefato místico que honrasse o apelo da “Arca da Aliança” ou do “Cálice Sagrado”. Especulações previam que Indy iria atrás da “Lança do Destino”, usada em Cristo na cruz, ou da Atlântida. Mas Lucas mostrou-se obcecado pela idéia da caveira, cuja lenda tem origem na América pré-colombiana. “O filme ‘O Fantasma’ (1996) tinha a mesma premissa, mas era protagonizado por Billy Zane”, Lucas ironiza.
Harrison Ford confirma que a obstinação do produtor com o conceito da caveira de cristal foi mantida ao longo dos últimos 15 anos, enquanto o ator e Spielberg recusavam todos os diferentes roteiros que o produtor encomendava baseados nessa premissa. “Ele é um cabeça dura teimoso”, o ator revela. “Ele ficou insistindo e eu geralmente me rebelando contra, até que um roteiro apareceu que finalmente colocou tudo em perspectiva, sem se esforçar muito para usar os outros filmes como referência, carregando a trama de forma lógica. O personagem teve a oportunidade de envelhecer e nos encontramos em outro período de tempo. Após ler esse último roteiro só pude concordar e dizer ‘Vamos nessa, vamos logo filmar essa história’”.
O co-produtor Frank Marshall analisa o longo caminho até a realização do projeto. “Esteve no ar por anos, mas nunca achávamos a trama certa. David Koepp chegou com um ótimo roteiro. Está bem legal. O que fizemos foi avançar de 1940 para 1950. O melhor jeito de descrever o filme é dizer que é um filme de Indiana Jones. Tem o estilo dos velhos filmes, não estamos tentando fazer nada diferente”, conclui.
A expectativa, claro, era imensa. Vários sites especializados apontaram “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” como o filme mais aguardado do ano passado, e a bilheteria de US$ 300 milhões em uma semana confirmou a ansiedade do público. Lucas respirou fundo: “Foi como fazer ‘A Ameaça Fantasma’ novamente, a expectativa por parte dos fãs é tão grande que se torna maior do que o que você pode oferecer. Mas ninguém ia querer entrar nesse projeto se não estivesse realmente feliz com isso”.
Além de Harrison Ford, outra integrante da franquia original que retorna é Karen Allen, na pele da espirituosa Marion Ravenwood, a primeira parceira de Indy, em “Os Caçadores da Arca Perdida” (1981), e que não filmava há quatro anos (desde “Nunca Fui Amada”). Ela se junta a um elenco que ainda destaca a vencedora do Oscar Cate Blanchett no papel de vilã e o jovem Shia LaBeouf, de “Transformers”, na pele do filho rebelde de Indiana Jones, que acaba virando seu parceiro na busca pelos artefatos do título. Pelo caminho, os mocinhos passam por terras brasileiras e ainda precisam enfrentar agentes russos.
As cenas filmadas no Brasil, nas Cataratas do Iguaçu, foram captadas em agosto de 2007 durante cinco dias. As imagens registram tomadas aéreas das cataratas, assim como das várias trilhas existentes no local.
O roteirista David Koepp revela como foi o processo para agradar Lucas e Spiielberg: “Gastei aproximadamente um ano no roteiro, fazendo os primeiros esboços com Steven e então encaminhando para George. Eu desenvolvi cenas com Steven algumas vezes, mas nunca com os dois ao mesmo tempo. São grandes caras com opiniões fortes e é definitivamente um desafio”. Koepp, que trabalhou com Spielberg no roteiro de “Guerra dos Mundos” (2005), decidiu incluir o filho do herói na história como forma de renovar a franquia. O produtor Frank Marshall explica: “Não tentamos esconder a idade de Harrison, mas temos LaBeouf chegando como seu ‘ajudan te’, então adicionamos um elemento jovem”.

Harrison Ford estava com 65 anos na época do lançamento do filme. Mesmo assim, fez seus próprios truques em cena. Ele entrou num programa especial de exercícios físicos, frequentando academia três vezes por semana. “No primeiro filme, arrebentei minha perna esquerda fazendo os pulos do herói”, o ator conta. “No segundo, estourei as costas e precisei de uma cirurgia de emergência no meio das filmagens. Mas, neste, eu consegui escapar incólume”.
O estilo da ação permanece fiel aos filmes anteriores, mas a trama trouxe novidades. “Se você retorna com um personagem antigo, tem que fornecer algo diferente às novas audiências”, ensina Ford. “Neste filme, nós aprenderemos algo mais sobre Indiana Jones.” Assim como em “Indiana Jones e a Última Cruzada”(1989) conhecemos seu pai, agora somos introduzidos a seu filho.
Shia Labeoulf, que vem se tornando um dos atores mais requisitados de sua geração e vive o filho de Jones, pode herdar o legado de Ford em possíveis continuações da franquia, que o trariam como protagonista. “Eu penso que essa possibilidade não é real, mas é um boato divertido”, ele desconversa. Sobre essa hipótese, Spielberg reforça o coro do suspense: “Vamos ver”.
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Já Cate Branchett foi escalada para viver a vilã trama, a agente russa Spalko, que disputa com Indiana Jones a tão desejada caveira do título. Com visual completamente diferente de seus papéis anteriores, a atriz surge em cena morena, com corte de cabelo chanel, ao estilo de Louise Brooks em “A Caixa de Pandora” (1929). Sua personagem comanda o exército soviético, na missão de encontrar a Caveira de Cristal nas florestas da América do Sul, disputando o artefato com Indiana Jones.
A atriz, que já venceu o Oscar (atriz coadjuvante por “O Aviador”, 2004), voltou a participar de uma superprodução cinco anos após “O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei”.
Outros atores escalados são Ray Winstone (“A Lenda de Beowulf”, 2007), no papel de Mac, misto de rival e parceiro de aventuras do herói, o inglês John Hurt (“Alien”, 1979), como o pai de Marion, que entrou na trama quando Sean Connery decidiu não retornar à pele do pai de Indy, e Jim Broadbent (“Moulin Rouge”, 2001), que faz um personagem parecido com o amigo acadêmico de Indiana, interpretado pelo falecido Denholm Elliot nas antigas produções.
Fiel à sua essência, o filme é ideal para os fãs do personagem, não deu novo rumo à franquia e vale mais por ter reunido tantas feras do cinema que não trabalhavam juntas há anos.

