Maria
Por André Azenha (01/02/2009) // ComentePor: André Azenha
Maria (Mary, Itália / França / EUA, 2005). Direção: Abel Ferrara. Roteiro: Mario Isabella, Abel Ferrara e Simone Lageoles. Elenco: Juliette Binoche, Forest Whitaker, Matthew Modine, Heather Graham, Marion Cotillard, Stefania Rocca. Drama. 83 min. (Cor).
7,0
Abel Ferrara impressiona. O diretor nova-iorquino de quase sessenta anos quase sempre realiza suas obras com pouquíssimo dinheiro, e ainda assim costuma seduzir atores premiados, conhecidos e respeitados, com suas histórias sobre o submundo de viciados, estuprados, desajustados e vingativos – exemplo disso são Harvey Keitel e Christopher Walken, presentes em várias obras do cineasta.
E “Maria” não é exceção à regra e conta com um ótimo elenco, encabeçado por Juliette Binoche (“O Paciente Inglês”) e o vencedor do Oscar de Ator em 2007 Forest Whitaker (por “O Último Rei da Escócia”).
A história tem um filme dentro do filme, dirigido por Tony Childress (Matthew Modine, com quem Ferrara já havia trabalhado), sujeito de caráter duvidoso. Childress produz um longa-metragem chamado “This Is My Blood”, onde defende a influência que Maria Madalena teria exercido na época de Jesus Cristo. A atriz Marie (Binoche), depois de fazer o papel da discípula de Cristo, tem a sua vida transformada e decide viver em Jerusalém, deixando para trás uma carreira promissora.
Paralela a essa trama, há o apresentador de TV Theodore Younger (Whitaker), responsável por um programa de boa audiência veiculado em rede nacional sobre Jesus Cristo e as religiões. Logo, os caminhos de Younger, Childress e Marie acabam se cruzando.

Um ano depois, Tony está para lançar o filme no circuito americano, mas enfrenta críticas e protestos de religiosos fanáticos. Younger deseja ter Tony em seu programa para discutir a visão de Hollywood sobre Jesus. Tony aceita o convite, desde que o apresentador cubra a pré-estréia de sua produção. Porém, enfrentando problemas com o parto de sua esposa Elizabeth (Heather Graham), Ted não comparece ao evento.
Apesar da boa participação de todo o elenco, Whitaker e Modine se destacam. O primeiro, dá um banho de interpretação na cena em que se arrepende de seus “pecados” e pede ajuda para sua família. Já Matthew não fica atrás, e arrepia no momento em que seu personagem se encontra dentro da sala de projeção, na estréia do filme, quando surge a notícia de que há uma bomba no local. O jeito como fala e a sombra do seu cabelo que remete a um par de chifres fazem uma analogia chocante com o demônio. Enquanto isso, Binoche decepciona. Sua personagem não só dá título ao longa como é aquela responsável, ao menos no papel, por desencadear toda a discussão – e não causa nenhum tipo de emoção à platéia, apesar das vezes em que chora e faz questionamentos, não conseguindo transmitir esses sentimentos e a forte mudança interior a qual está passando.
Ferrara tenha discutir os dogmas católicos e o papel das religiões no mundo atual. E “Maria” até levanta algumas questões importantes, mostrando inclusive cenas reais dos conflitos entre palestinos e israelenses. Apesar da ambição, o trabalho não consegue responder completamente nenhuma delas, nem debater por completo religião, fé, existência de Cristo e fanatismo religioso, mesmo porque são temas complexos demais para um único filme – e Abel provavelmente sabia disso. O ápice da carreira do cineasta foi na década passada, quando produziu “O Rei de Nova York” (1990), “Vício Frenético” (1992) e “Olhos de Serpente” (estrelado por Madonna em 1993), e apesar do longa irregular, ainda conseguiu levar o prêmio do Grande Júri no Festival de Veneza por este “Maria”.
