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	<title>CineZen &#187; Home Vídeo</title>
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		<title>Anatomia de um Crime: Um dos melhores thrillers de tribunal já feitos</title>
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		<pubDate>Mon, 06 Feb 2012 02:01:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[50 Anos de Filmes]]></category>
		<category><![CDATA[Clássicos & Cults]]></category>
		<category><![CDATA[Outros destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Anatomia de um Crime]]></category>
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		<description><![CDATA[Filme foi ousadíssimo para sua época]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-36080" title="anatomiadeumcrime" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2012/02/anatomiadeumcrime.jpg" alt="" width="698" height="528" /></p>
<p>“Anatomia de um Crime” é um filmaço. Daquela excelsa categoria dos filmes perfeitos, em que não falta nada, não sobra nada, tudo se encaixa milimetricamente. É um dos melhores thrillers de tribunal que já foram feitos.</p>
<p>Tem importância histórica: lançado em 1959, era ousadíssimo para a época. Os Estados Unidos mal saíam do período de trevas do macarthismo, e o diretor Otto Preminger, ao enfrentar de peito e palavras abertas uma história que envolvia estupro, ajudou a lançar uma pá de cal sobre o Código Hays, o conjunto de regras rígidas de autocensura imposto ao cinema pelos grandes estúdios nos anos 1930.</p>
<p>Hoje, fala-se com absoluta tranquilidade de tudo o que envolve sexo, mas, na época, era inadmissível. Pois Preminger avançou sinal: foi o primeiro filme americano em que se pronunciou a palavra panties – calcinha. E a palavra aparece não uma vez, mas dezenas e dezenas de vezes, já que era peça importante no julgamento que ocupa boa parte da ação.</p>
<p>Tem importância histórica, mas não é uma peça de museu. Meio século depois de ter sido feito, o filme não envelheceu nada. Mantém intacta sua força, seu vigor. E, como todo grande filme, agrada a cada nova revisão; não dá para ficar cansado de ver e rever “Anatomia de um Crime”. Revimos agora para eu fazer esta anotação; depois chequei – tínhamos visto o filme em 1997, 2000 e 2006. Em 2006, anotei apenas uma frase: “Eis aí um filme daquela espécie rara, que se torna melhor a cada revisão”.</p>
<p>É a pura verdade. É um filme que se torna melhor a cada revisão.</p>
<p><strong>Um ritmo tranquilo, maneiro, tomadas longas</strong></p>
<p>Uma das coisas que mais me encantaram ao revê-lo agora foi o ritmo. Comparado aos filmes de hoje do cinemão comercial, “Anatomia de um Crime” tem ritmo lento, quase, como diria minha amiga Andrea Maura, tai chi chuan.</p>
<p>Claro, vai aí um bom exagero. Não é que o filme seja paradão. Não é isso. Mas as coisas, os fatos, as pessoas, vão sendo apresentadas em um ritmo deliciosamente tranquilo, maneiro. Ou, como diria Walter Franco, com aquele jeito zen dele, “a 60 minutos por hora, sem pressa nem demora”.</p>
<p>Tem 160 minutos. Duas horas e 40 minutos. Mas a gente nem nota que sua duração é quase o dobro de muitos dos filmes atuais. Na verdade, é daqueles filmes tão bons que, quando se aproximam do fim, deixam o espectador chateado: pô, mas já tá acabando?</p>
<p>Um ritmo tranquilo, maneiro. Tomadas longas. Alguns diálogos que não são fundamentais para a história – mas que servem perfeitamente para que o espectador conheça os personagens, seu caráter, seu jeito de encarar a vida, o mundo.</p>
<p>Ai, ai. Não gosto de saudosismo, mas a verdade dos fatos é que o cinema era muito melhor, antes de aderir às explicitudes todas e à estética pós-MTV de tomadas curtíssimas, montadas a uma velocidade frenética.</p>
<p><strong>Um advogado que tem pouco trabalho, e gosta de pesca, música e cachaça</strong></p>
<p><img class="alignright size-medium wp-image-36087" title="anatomiadeumcrime2" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2012/02/anatomiadeumcrime2-300x239.jpg" alt="" width="300" height="239" />Ritmo tranquilo – mas não que o filme perca tempo. Com 15 minutos de projeção – que incluem créditos iniciais belíssimos, assinados pelo mestre Saul Bass, um inteligente grafismo sobre a anatomia humana, os pedaços do corpo, ao som da trilha composta por Duke Ellington –, já foram apresentados os personagens principais e a base da história.</p>
<p>Paul Biegler (James Stewart, aos 51 anos, 25 de carreira) é um advogado de uma cidadezinha bem pequena do Michigan, Iron City. Solteirão, trabalhou dez anos como promotor, até ser sacaneado por um colega, Mitch (Brooks West), que então assumiu o cargo. Como a cidade é pequena, Paul tem pouco trabalho – um ou outro divórcio, algumas cobranças de caloteiros. Passa a maior parte do tempo pescando num lago próximo à cidade. À noite, recebe em sua casa – confortável, porém modesta, onde também funciona seu escritório – o velho amigo Parnell McCarthy (Arthur O’Connell), ele também advogado, mas já aposentado. Bebem bourbon, conversam e lêem livros de Direito, acórdãos de tribunais, anais da Suprema Corte. Tem uma vida tranquila e gostos simples: adora um uísque, charutos, cigarros e jazz. Tem uma grande coleção de LPs de jazz, e toca piano, bastante direitinho.</p>
<p>Quando a ação começa, Paul está voltando para casa depois de dias pescando. Sua secretária, Maida (Eve Arden), uma figuraça, havia deixado um recado, dizendo que ele fora procurado por uma tal sra. Manion. Como estivera fora, não ficara sabendo que, numa cidade vizinha, Thunder Bay, tinha havido um homicídio. Parnell contará para ele – e para o espectador – os fatos principais do caso.</p>
<p>Um sujeito chamado Barney Quill, dono de um bar e um hotel em Thunder Bay, teria estuprado a sra. Manion, Laura Manion (Lee Remick). O marido dela, Frederick Manion, tenente do Exército, que estava estacionado numa base na região, foi atrás de Barney Quill e despejou cinco tiros nele. Estava agora preso na cadeia do condado. Laura, a mulher dele, tinha ligado para pedir a Paul que se encarregasse de sua defesa.</p>
<p>Laura aparece no escritório de Paul no dia seguinte. E muito rapidamente o espectador percebe muito sobre quem é a mulher. Jovem, muito bonita (Lee Remick tem olhos azuis faiscantes, dos mais belos do cinema), gostosa, é plenamente consciente de sua beleza e exibe o corpo em roupas ousadas, provocantes. É um tipinho fútil, vazio, que parece estar se oferecendo ao primeiro homem que encontrar. Uma mulher vulgar.</p>
<p>Com exatos 15 minutos de filme, Paul vai à cadeia para sua primeira conversa com o tenente Manion (Ben Gazzara). Assim como sua mulher, Manion se mostra muito rapidamente ao espectador. É uma figura em tudo por tudo desprezível. Tem temperamento quente, é um sujeito violento, cheio de si, arrogante, presunçoso – e tem um ciúme doentio da mulher bonita e gostosa cujo maior interesse na vida é atrair a atenção de todos os homens que passarem à sua frente.</p>
<p><strong>Atores em interpretações maravilhosas, diálogos afiadíssimos, preciosos</strong></p>
<p>James Stewart, Lee Remick, Ben Gazzara, Arthur O’Connell, Eve Arden – e também Joseph N. Welch, no papel do juiz Weaver, que conduzirá o julgamento do tenente assassino, e George C. Scott, que interpreta Claude Dancer, um experiente e presunçoso advogado que vem de uma cidade grande para auxiliar o promotor Mitch. Todos esses atores estão não menos que brilhantes. É um show de interpretações maravilhosas.</p>
<p>Os diálogos são afiadíssimos, preciosos.</p>
<p>Bem no início da ação, por exemplo, quando vemos o encontro de Paul com seu velho amigo Parnell – e já sabemos que este último bebe além da conta –, há um diálogo que qualquer escritor gostaria de assinar. Parnell bate o olho no saco de papel marrom que Paul havia trazido da pescaria e deixado em cima de um móvel. É óbvio que lá dentro há uma garrafa de bebida.</p>
<p>Parnell: – “O que tem no saco de papel marrom?”</p>
<p>Paul (mexendo nos peixes que trouxe da pescaria): – “Pode ser um repolho.”</p>
<p>Parnell: – “Aposto que não seria.”</p>
<p>Paul: – “Você é um homem muito desconfiado.”</p>
<p>Parnell: – “Verdade, sou um homem eternamente desconfiado… e/ou fascinado pelo conteúdo de sacos de papel marrons. Posso dar uma olhada?”</p>
<p>Paul: – “Faça isso, doutor, faça isso. E, depois que der uma olhada, pode destampar o que você encontrar.”</p>
<p><img class="size-full wp-image-36090 aligncenter" title="anatomiadeumcrime3" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2012/02/anatomiadeumcrime3.jpg" alt="" width="600" height="449" /></p>
<p>Parnell (depois de verificar que a garrafa de uísque estava pela metade): – “Você andou lutando contra esse soldado. Você andou bebendo sozinho, Paulie. Não gosto disso.”</p>
<p>Paul (sentado diante do piano, começando a tocar): – “Jogue fora a pedra, doutor. Você vive numa casa de vidro.”</p>
<p>Parnell: – “Minhas janelas foram arrebentadas faz tempo, então eu posso dizer o que quiser.”</p>
<p align="center">***</p>
<p>Pouco depois, quando Paul desliga o telefone após falar pela primeira vez com Laura Manion, combinando o encontro para o dia seguinte, Parnell conta para o amigo o que saiu nos jornais a respeito do assassinato de Barney Quill pelo tenente Manion. O relato termina assim:</p>
<p>- “O tenente vai até o bar de Quill e acerta o sr. Quill umas cinco vezes, o que leva o sr. Quill a rapidamente morrer de envenenamento por chumbo.”</p>
<p align="center">***</p>
<p>Depois que Paul tem a primeira conversa com o tenente, na cadeia, Parnell pergunta a ele: – “Você deu ao tenente uma Lição Conhecida?”</p>
<p>Paul: – “Se você quer saber se eu o ensinei a contar uma história mentirosa, não.”</p>
<p>Parnell: – “Talvez você seja puro demais, Paul. Puro demais para as naturais impurezas da lei.”</p>
<p>“Guarde esse rebolado para o seu marido ver – se e quando eu conseguir tirá-lo da cadeia”</p>
<p>Bem mais tarde, quando estamos com 52 minutos de filme, há uma sequência maravilhosa em um bar, que mostra perfeitamente o caráter de Paul e o caráter de Laura Manion. Há uma banda tocando um jazz dançante; Paul está sentado ao piano ao lado do pianista da banda, os dois tocando juntos no mesmo piano. A pessoa que interpreta o pianista é ninguém menos que Duke Ellington, The Duke em pessoa, fazendo ali uma ponta no filme para o qual compôs a trilha sonora.</p>
<p>Entre os casais dançando na pista está Laura Manion, sorridente, soltinha, feliz da vida, com uma calça comprida de pano leve que acentua sua bunda redondinha.</p>
<p>É Laura que vê o advogado do marido. Brinca com ele, e continua dançando, livre, leve e solta. Paul fecha a cara, pede desculpas ao pianista, levanta-se, vai atrás dela, arrasta-a para fora do bar. Quer saber por que ela não foi visitar o marido na cadeia nos dois últimos dias. Ela se espanta: ué, tem que visitar o marido todos os dias? Ah, então tá, vou lá amanhã, tudo bem?</p>
<p>O calmo Paul perde a paciência:</p>
<p>- “Até que o julgamento termine, você vai ser uma dona de casa bem comportada, com óculos de aro antigos, e você vai ficar longe dos homens, dos bares e de bebida e de máquinas de fliperama…”</p>
<p>(Antes de ser estuprada por Barney Quill, Laura estivera jogando fliperama com ele no bar, e, segundo testemunhas, requebrando muito.)</p>
<p>- “… e você vai usar saia e sapatos de salto baixo e uma cinta. Especialmente uma cinta. Olhe, Laura, creia, eu normalmente não reclamo de um belo rebolado, mas guarde esse rebolado para o seu marido ver – se e quando eu conseguir tirá-lo da cadeia.”</p>
<p><strong>Juiz, advogado e promotor discutem em voz baixa: há outra palavra para designar calcinha?</strong></p>
<p><img class="alignright size-medium wp-image-36093" title="anatomiadeumcrime4" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2012/02/anatomiadeumcrime4-300x224.png" alt="" width="300" height="224" />A menção à cinta (girdle, em inglês; aprendi com o filme, mas claro que amanhã já não me lembro mais), assim como todo o comportamento de Laura Manion, devem ter enfurecido os conservadores, os carolas, os caretas – e aqueles eram tempos conservadores, carolas e caretas. Mas pior ainda seriam as seguidas menções à calcinha de Laura Manion.</p>
<p>A história que ela conta é que Barney Quill se ofereceu para dar carona a ela, quando ela, tarde da noite, decidiu voltar para seu trailer, onde o tenente Manion estava dormindo. Antes que chegassem ao trailer, ele a atacou. A calcinha dela foi arrancada e rasgada por Barney Quill. A polícia vasculharia toda a área, mas a calcinha não foi encontrada.</p>
<p>Paul leva bastante tempo para trazer à baila, durante o julgamento, o estupro de Laura. A promotoria fazia de tudo para que o assunto não fosse abordado. Quando, finalmente, o advogado consegue fazer com que o juiz admita a discussão sobre o estupro, este chama Paul e os dois promotores para uma conferência em voz baixa, para que não fossem ouvidos pelos jurados e espectadores do julgamento. O diálogo – de grande importância na história do abrandamento da censura – é o seguinte:</p>
<p>Juiz Weaver: – “Sr. Biegler, o senhor finalmente colocou o estupro dentro do caso, e penso que todos os detalhes agora devem ficar claros para o júri. Exatamente a que roupa de baixo o senhor se referiu agora há pouco?”</p>
<p>Paul: – “Calcinha, Meritíssimo.”</p>
<p>Juiz Weaver: – “Você acha que esse tema voltará a aparecer?”</p>
<p>Paul: – “Sim, senhor.”</p>
<p>Juiz Weaver: – “Há uma certa conotação ligeira ligada à palavra ‘calcinha’. Podemos achar outro nome para ela?”</p>
<p>Promotor Mitch: – “Nunca ouvi minha mulher chamar isso de qualquer outra palavra.”</p>
<p>Juiz Weaver: “Senhor Biegler?”</p>
<p>Paul: – “Sou solteiro, Meritíssimo.”</p>
<p>Juiz Weaver: – “Grande ajuda. Senhor Dancer?</p>
<p>Dancer: – “Quando estive no exterior durante a Guerra, Meritíssimo, aprendi uma palavra francesa. Mas tema que ela possa ser levemente sugestiva.”</p>
<p>Juiz Weaver: – “A maioria das palavras francesas é.”</p>
<p align="center">***</p>
<p>Que maravilha: ao final de um diálogo que entraria para a história, incrustraram uma pitada da velha relação de amor e ódio que une e separa Estados Unidos e Europa!</p>
<p><strong>A história de Joseph N. Welch, que interpreta o juiz, daria um filme</strong></p>
<p>O senhor que faz o papel do juiz Weaver, Joseph N. Welch (1890-1960), é um caso à parte. Mereceria um filme sobre sua vida. Tem uma atuação brilhante como o juiz calmo, dócil, gentil, mas afiado feito peixeira de baiano. O roteirista Wendell Mayes criou para Welch se apresentar aos habitantes de Iron City e ao espectador uma delícia de introdução:</p>
<p>- “Um juiz é muito parecido com qualquer outro. A única diferença pode estar no estado de suas digestões ou sua propensão para dormir na poltrona. De minha parte, posso digerir ferro. E mesmo se parecer às vezes estar tirando uma soneca, vocês vão descobrir que posso facilmente ser acordado, particularmente se for instigado por um bom advogado com uma citação interessante da lei.”</p>
<p>A atuação de Joseph N. Welch como o juiz Weaver é uma maravilha – mas o cara não era ator. Era advogado; foi o principal advogado do Exército americano durante as investigações macarthistas sobre a infiltração de comunistas entre soldados e oficiais. Lá pelas tantas, durante uma das audiências do que passou à História como as Audiências Exército-McCarthy, Joseph N. Welch virou-se para o senador Joseph McCarthy, o sujeito que enxergava comunista comendo criancinha em qualquer lugar, e disse o seguinte:</p>
<p>- “O senhor já foi longe demais. O senhor não tem senso de decência? Finalmente, não sobrou para o senhor nenhum senso de decência?”</p>
<p>Consta que o papel do juiz Weaver foi oferecido a Spencer Tracy e Burl Ives. Quis a sorte que nenhum deles acabou fazendo o papel, que ficou para a interpretação brilhante desse homem íntegro, decente.</p>
<p><strong>A história se baseia num caso real; o advogado de defesa transformou-a num livro</strong></p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-36095" title="anatomiadeumcrime5" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2012/02/anatomiadeumcrime5.jpg" alt="" width="698" height="528" /></p>
<p>O autor do livro “Anatomy of a Murder”, publicado em 1958, apenas um ano antes de o filme ser feito e lançado, também é uma história à parte. Ele também mereceria um filme sobre sua vida.</p>
<p>O livro leva a assinatura de Robert Traver. Este é também o nome que aparece nos créditos iniciais do filme. Era o pseudônimo de John D. Voelker (1903-1991), ele mesmo um advogado e depois magistrado que chegou à Suprema Corte do Estado de Michigan.</p>
<p>O livro, por sua vez, foi inspirado em um caso real. Em 1952, um tenente do Exército foi acusado de matar um homem que teria estuprado sua mulher. O advogado de defesa no julgamento desse tenente foi o próprio Voelker. O sucesso do livro em que ele romanceou o caso real do qual participou foi tão grande que ele se aposentou da Suprema Corte de Michigan para se dedicar a escrever e a pescar – exatamente como Paul Biegler, o personagem do livro e do filme, Voelker era um apaixonado por pesca.</p>
<p>A realização dos grandes filmes em geral tem também belas histórias. Além das histórias de Joseph N. Welch e John D. Voelker, há também o caso da escolha da atriz para interpretar Laura Manion.</p>
<p>Consta que o papel foi oferecido a Lana Turner, uma das maiores atrizes do cinema americano da época. Lana aceitou o papel, mas impôs uma condição: ela só usaria roupas desenhadas especialmente para ela por seu figurinista, Jean Louis, nome conhecido da alta costura. A Columbia estava disposta a aceitar a exigência da estrela – afinal, Lana era garantia de bilheteria -, mas o diretor Otto Preminger argumentou que não seria possível: o tipo de roupas que Jean Louis desenhava não tinha nada a ver com as que Laura Manion teria que usar, roupas mais simples, mais baratas, mais provocantes, mais abertamente sensuais. Lana Turner então bateu o pezinho e disse que não aceitaria mais o papel.</p>
<p>Sorte de Preminger, sorte do filme, sorte dos espectadores. Lana Turner é bela, gostosa, sensual – basta lembrar dela virando a cabeça e ferrando a vida do pobre coitado do protagonista de O Destino Bate à Sua Porta, de 1946. Só que estávamos em 1959; Lana estava com 38 anos, jovem ainda, mas Laura precisaria ser bem mais jovem.</p>
<p>Lee Remick estava no estupor dos 24 aninhos. Tinha feito apenas dois filmes – “Um Rosto na Multidão”, de Elia Kazan, em 1957, e “O Mercador de Almas”, de Martin Ritt, em 1958.</p>
<p>Há registro de que o papel teria sido ofertado a Jayne Mansfield, e recusado. Ainda bem. Os peitos de Jayne Mansfield seriam grandes demais para Laura Manion.</p>
<p><strong>Na TV americana, o filme teve 13 intervalos comerciais; Preminger levou o caso à Justiça</strong></p>
<p>Outras historinhas sobre o filme:</p>
<p>O pai de James Stewart ficou tão ofendido pelo filme, que chamava de “sujo”, que fez publicar um anúncio no jornal de sua cidade sugerindo que as pessoas não vissem a obra.</p>
<p>Na época do lançamento, o filme teve sua exibição proibida em Chicago. Chicago, uma das maiores metrópoles do país!</p>
<p>Calcinha não era a única palavra chocante do filme. Havia também “bitch” (puta), “contraceptive”, “penetration”, “rape (estupro)”, “slut” (outra palavra para puta) e “sperm”.</p>
<p>Na cena em que Paul Biegler-James Stewart vai visitar a gerente do bar de Barney Quill, Mary Pilant (Kathryn Grant), um funcionário está lendo Exodus, o calhamaço de Leon Uris. Um ano depois, Otto Preminger dirigiria o filme baseado no livro.</p>
<p><a href="http://cinezencultural.com.br/site/2012/02/06/anatomia-de-um-crime-um-dos-melhores-thrillers-de-tribunal-ja-feitos/"><em>Clique aqui para assistir o vídeo inserido.</em></a></p>
<p>Vários anos após a estréia nos cinemas, a Columbia e sua subsidiária Screen Gems venderam Anatomia de um Crime para a TV, dentro de um pacote de 60 filmes. Ao exibir o filme em Nova York, a rede ABC interrompeu o filme 13 vezes, com 36 comerciais. Otto Preminger entrou na justiça contra o estúdio; o caso rendeu muita publicidade, mas o diretor perdeu a ação.</p>
<p>“Anatomia de um Crime” teve sete indicações ao Oscar: filme, ator para James Stewart, ator coadjuvante para Arthur O’Connell e George C. Scott, roteiro adaptado para Wendell Mayes, fotografia em preto-e-branco para Sam Leavitt e montagem para Louis R. Loeffler. Não levou nenhum.</p>
<p>Além dos Oscars, teve 11 outras indicações, e ganhou sete prêmios, entre eles um Grammy para a trilha sonora de Duke Ellington.</p>
<p><strong>“Uma dissecação incisiva, amarga, dura e inteligente do sistema legal americano”</strong></p>
<p>Leonard Maltin deu cotação máxima, 4 estrelas: “Longo, emocionante drama de tribunal; ousado quando lançado, mais domado agora. O grande elenco está ótimo: O’Connell como o advogado bêbado estimulado por Stewart, Joseph Welch como juiz (Welch era o famoso advogado presente às audiências do macarthismo que depois virou juiz na vida real), Scott como o advogado da promotoria. Mas Stewart eleva-se acima de todos como o inteligente, largadão mas esperto advogado de defesa.”</p>
<p>O livro “1001 Filmes para Ver Antes de Morrer” diz que o filme, que gerou controvérsia na época do lançamento, “continua sendo uma dissecação incisiva, amarga, dura e inteligente do sistema legal americano”. “Desde o impressionante desenho dos créditos iniciais de Saul Bass (também presentes no cartaz) até a trilha jazzística de Duke Ellington, Anatomia de um Crimefaz uma abordagem sofisticada incomum para um filme hollywoodiano do seu período. Radicalmente, se recusa a mostrar o assassinato ou qualquer das cenas relatadas no tribunal, deixando nas nossas mãos decidir, juntamente com o júri, se o rabugento e indiferente tenente Frederich Manion (Ben Gazzara) foi ou não vítima de um ‘impulso irresistível’ equivalente à loucura quando matou a tiros Barney Quill.”</p>
<p>E conclui: “Simplesmente o melhor filme de tribunal já feito”.</p>
<p>Eu não chegaria a isso. Mas que é um dos melhores, não há dúvida alguma.</p>
<p>Um absoluto brilho de filme.</p>
<p><strong><img class="alignright size-full wp-image-36084" title="anatomiadeumcrimedvd" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2012/02/anatomiadeumcrimedvd1.jpg" alt="" width="160" height="225" />ANATOMIA DE UM CRIME</strong><br />
<em>(</em><em>Anatomy of a Murder, EUA, 1959).</em><strong><br />
</strong>Direção:<strong> </strong>Otto Preminger.<br />
Roteiro: Wendell Mayes, baseado no livro de Robert Traver (pseudônimo do juiz John D. Voelker).<br />
Elenco: James Stewart (Paul Biegler), Lee Remick (Laura Manion), Ben Gazzara (tenente Frederick Manion), Arthur O’Connell (Parnell McCarthy), Eve Arden (Maida), Kathryn Grant (Mary Pilant), Joseph N. Welch (juiz Weaver), Brooks West (Mitch Lodwick), George C. Scott (Claude Dancer), Murray Hamilton (Alphonse Paquette), Ken Lynch (sargento Durgo), Duke Ellington (Pie-eye).<br />
Mistério / Drama / Crime.<br />
160 minutos.<br />
Preto e branco.</p>
<p>- Indicação ao Oscar: Filme, Ator (James Stewart), Ator coadjuvante (Arthur O’Connell e George C. Scott), Roteiro adaptado, Fotografia em preto-e-branco, Montagem.<br />
- Indicação ao Globo de Ouro: Filme/Drama, Diretor, Atriz em drama (Lee Remick), Ator coadjuvante (Joseph N. Welch).<br />
- Grammy: Trilha sonora para filme de cinema ou televisão.</p>
<p><em>O filme integra o acervo da <a href="http://www.videoparadiso.com.br">Vídeo Paradiso</a>.</em></p>
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		<title>O Aviador: a mente do tamanho do céu</title>
		<link>http://cinezencultural.com.br/site/2012/01/28/o-aviador-a-mente-do-tamanho-do-ceu/</link>
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		<pubDate>Sat, 28 Jan 2012 16:12:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ricardo Flaitt</dc:creator>
				<category><![CDATA[Clássicos & Cults]]></category>
		<category><![CDATA[DVDteca Básica]]></category>
		<category><![CDATA[Outros destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Alan Alda]]></category>
		<category><![CDATA[Cate Blanchett]]></category>
		<category><![CDATA[John C. Reilly]]></category>
		<category><![CDATA[Kate Beckinsale]]></category>
		<category><![CDATA[Leonardo DiCaprio]]></category>
		<category><![CDATA[Martin Scorsese]]></category>
		<category><![CDATA[O Aviador]]></category>

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		<description><![CDATA[Biografia do excêntrico milionário traz Scorsese e DiCaprio em suas melhores formas]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-35913" title="oaviador1" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2012/01/oaviador1.jpg" alt="" width="696" height="556" /></p>
<p>Muitos homens vêm ao mundo para desafiar os limites. Sejam os limites impostos pelo mundo ou os limites psíquicos delineados por nossa complexa personalidade.</p>
<p>Em “O Aviador”, Martin Scorsese projeta nas telas muito mais do que a vida de Howard Hughes (interpretado muito bem por Leonardo DiCaprio), que revolucionou o sistema de aviação no mundo, o sistema e os meios de produção do cinema da época e que teve que lutar com o céu nebuloso que se projetava em sua mente.</p>
<p>Hughes, com a morte dos pais, herda uma verdadeira fortuna que foi acumulada pela empresa de brocas (Hughes Tool Company), utilizadas na perfuração de petróleo.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-35915" title="oaviador2" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2012/01/oaviador2.jpg" alt="" width="696" height="453" /></p>
<p>Ainda jovem, resolve desafiar a até então indústria do Cinema lançando o filme “Hells Angels” (Anjos do Inferno), filme sobre batalhas na Guerra Mundial, que inovou os meios de composição, com a marca do seu modo megalômano de lidar com a vida, levando ao limite da época o número de câmeras para as filmagens, com mortes de pilotos durante as gravações, sempre em busca da imagem nunca feita.</p>
<p>Mas a paixão de Howard Hughes era a aviação. Assim cria uma nova empresa &#8211; Hughes Aircraft Corporation &#8211; e começa a projetar aviões para serem utilizados em guerra. Arrisca-se em novos experimentos, como a tentativa do “Hercules”, que seria o maior avião de carga do mundo e também a revolução que proporcionou ao projetar o “Constellation”, destinado ao transporte de passageiros.</p>
<p><a href="http://cinezencultural.com.br/site/2012/01/28/o-aviador-a-mente-do-tamanho-do-ceu/"><em>Clique aqui para assistir o vídeo inserido.</em></a></p>
<p>Em meio aos seus inventos com asas, o filme também mostra como funciona os lobbys para se conseguir verba junto ao governo para o desenvolvimento de novas armas de guerra, a luta com a poderosa PaNam pela concessão dos vôos domésticos e internacionais, os mecanismos da política e dos interesses econômicos que permeiam para destruir a imagem de um homem genial, porém, repleto de manias (o que não diminui em nada a sua contribuição para o mundo).</p>
<p>Hughes, inovador e ousado, virou celebridade. Galã, se envolveu com Katharine Hapburn e Ava Garner, mas era avesso ao mundo de glamour. Sua maior paixão era a aviação, novos experimentos, novos inventos, a superação do homem.</p>
<p>Ao mesmo tempo em que dava asas aos seus inventos, Hughes tinha que domesticar a sua mente. Sofria de distúrbios, principalmente com a limpeza. Em fases de crises crônicas, saía de cena para se reconciliar com o mundo e consigo mesmo.</p>
<p>Scorsese remonta a vida de Howard Hughes sem cair no tom de documentário. Realiza um grande filme, dinâmico, envolvente, que levou cinco estatuetas do Oscar.</p>
<p><strong><img class="alignright size-full wp-image-10074" title="oaviador" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2009/04/oaviador.jpg" alt="" />O AVIADOR</strong><br />
<em>(The Aviator, 2004, EUA).</em><br />
Direção: Martin Scorsese.<br />
Roteiro: John Logan.<br />
Elenco: Leonardo DiCaprio (Howard Hughes), Kelli Garner (Faith Domergue), Cate Blanchett (Katharine Hepburn), Kate Beckinsale (Ava Gardner), John C. Reilly (Noah Dietrich), Adam Scott (Johnny Meyer), Alec Baldwin (Juan Trippe), Alan Alda (senador Owen Brewster), Gwen Stefani (Jean Harlow).<br />
Drama biográfico.<br />
170 minutos.</p>
<p>- Oscar: Atriz coadjuvante (Cate Blanchett), Montagem, Fotografia, Direção de Arte e Figurino.<br />
- Indicação ao Oscar: Filme, Diretor, Ator (Leonardo DiCaprio), Ator Coadjuvante (Alan Alda), Som e Roteiro Original.<br />
- Globo de Ouro: Filme/Drama, Ator/Drama (Leonardo DiCaprio) e Trilha Sonora.<br />
- Indicação ao Globo de Ouro: Diretor, Atriz Coadjuvante (Cate Blanchett) e Trilha Sonora.<br />
- Bafta: Filme, Melhor Atriz Coadjuvante (Cate Blanchett), Desenho de Produção e Maquiagem. – Indicação ao Bafta: Diretor, Ator (Leonardo DiCaprio), Ator Coadjuvante (Alan Alda), Trilha Sonora, Fotografia, Efeitos Visuais, Figurino, Edição, Som e Roteiro Original.</p>
<p><em>O filme integra o acervo da <a href="http://www.videoparadiso.com.br">Vídeo Paradiso</a>.</em></p>
<p><em>Leia mais sobre e comente o filme também na <a href="http://www.cinemaki.com.br/O-Aviador/p/2724">Cinemaki</a>.</em></p>
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		<title>Trem da Vida: Mais ousado que uma simples comédia</title>
		<link>http://cinezencultural.com.br/site/2012/01/23/trem-da-vida-mais-ousado-que-uma-simples-comedia/</link>
		<comments>http://cinezencultural.com.br/site/2012/01/23/trem-da-vida-mais-ousado-que-uma-simples-comedia/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 23 Jan 2012 02:01:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[50 Anos de Filmes]]></category>
		<category><![CDATA[Clássicos & Cults]]></category>
		<category><![CDATA[Outros destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Clément Harari]]></category>
		<category><![CDATA[Lionel Abelanski]]></category>
		<category><![CDATA[Michel Muller]]></category>
		<category><![CDATA[Radu Mihaileanu]]></category>
		<category><![CDATA[Rufus]]></category>
		<category><![CDATA[Trem da Vida]]></category>

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		<description><![CDATA[Filme do romeno Radu Mihaileanu retrata a perseguição dos nazistas aos judeus em tom de realismo fantástico]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-35813" title="tremdavida1" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2012/01/tremdavida1.jpg" alt="" width="696" height="438" /></p>
<p>Fazer uma comédia sobre a perseguição dos nazistas aos judeus é um ato de coragem. Mas “Trem da Vida”, que o diretor romeno radicado na França Radu Mihaileanu realizou em 1998 é mais ousado ainda que uma simples comédia, porque é um filme não realista – é uma farsa, uma fantasia, uma obra de realismo fantástico, do surrealismo, quase um nonsense.</p>
<p>Um ano antes de “Trem da Vida”, o italiano Roberto Benigni havia feito uma comédia sobre o mesmo tema, “A Vida é Bela”, um filme de grande sucesso e, na minha opinião, um tanto superestimado, com seus três Oscars, outros 52 prêmios e 31 indicações.</p>
<p>Não que Benigni tivesse, é claro, inventado a roda. Os judeus – assim como os ciganos, homossexuais, portadores de deficiência – ainda estavam sendo presos e enviados para os campos de concentração quando Charles Chaplin fez “O Grande Ditador” (1940) e Ernst Lubitsch realizou “Ser ou Não Ser” (1942), duas comédias ácidas, duras, mas comédias, sobre o nazismo.</p>
<p>O grande diferencial de “Trem da Vida”, me parece, é o fato de ser uma narrativa nada, nada realista. E, nisso, ele foi um precursor de uma série de filmes que seriam feitos nos países surgidos dos escombros do comunismo, como a Geórgia e, em especial, a própria Romênia natal de Radu Mihaileanu. Filmes que denunciam, com extrema violência, imensa virulência, o outro regime totalitarista que dominou diversos países europeus ao longo de várias décadas do século XX.</p>
<p>Era como se aqueles diretores, que viveram sob as ditaduras comunistas, tivessem tanto ódio do totalitarismo imposto pelo império soviético que se insurgiam também contra o estilo narrativo que o Estado comunista exigia, o realismo socialista, optando pelo oposto dele – um estilo surrealista, quase nonsense.</p>
<p><img class="alignright size-full wp-image-35815" title="tremdavida2" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2012/01/tremdavida2.jpg" alt="" width="300" height="300" />Como já escrevi aqui: Em “Os 27 Beijos Perdidos”, feito por Nana Djordjadze em 2000 na Geórgia, a terra natal de Stálin, há um navio que passeia pelas ruas da pequena cidade e pelos campos ao seu redor, um marinheiro que perdeu o mar, um oficial que manda a artilharia disparar seus canhões em direção ao local em que sua mulher o trai com outro homem, um sujeito que amarra rolamentos no pauzão de 27 centímetros e depois não consegue tirá-los de lá e a cidade inteira tem que acudi-lo; e, numa sequência antológica, um camarada que está comendo uma mulher de pé, encostando-a numa mesa, usa, para ficar mais alto e facilitar o trabalho, dois livrões de Karl Marx sob os pés – livros que em seguida vão pegar fogo.</p>
<p>Em “Casamento Silencioso”, feito em 2008 na própria Romênia, a narrativa do diretor Horatiu Malaele passeia pelo paranormal, vê fantasmas, bota os atores para atuar como que em um teatro farsesco, faz um surrealismo que deixaria Fellini humilhado de inveja.</p>
<p><strong>O louco da aldeia é que dá aos sábios a ideia de fugir num trem</strong></p>
<p>Essa fuga do realismo, essa vingança não só contra a ditadura, mas também contra a sua estética, é o cerne de “O Trem da Vida” – mais ainda que a opção, corajosa e difícil, pelo riso.</p>
<p>O filme conta a história de um vilarejo judeu, um shtetl, no verão de 1941, quando as tropas nazistas dominavam a maior parte da Europa, e, no seu avanço, iam prendendo milhares, milhões de judeus, que em seguida eram deportados, em trens, para os campos de concentração e extermínio. Não se especifica em que país fica aquela pequena aldeia – pode ser qualquer um da Europa Central ou do Leste, como a própria Romênia (onde boa parte do filme foi rodado).</p>
<p>Quem primeiro avista os nazistas chegando a uma aldeia próxima é Schlomo (Lionel Abelanski, na foto acima), o louco daquela aldeia, daquele shtetl específico. É Schlomo que conta o que viu para o conselho de sábios do shtetl, chefiado pelo Rabino (Clément Harari) – e é ele também, o louco da aldeia, que dá a idéia: antes que chegue o trem nazista para deportá-los, a aldeia poderia criar o seu próprio trem, pintá-lo como um trem nazista, e fantasiar alguns de seus habitantes como soldados nazistas. E assim eles poderiam viajar e escapar das prisões – viajar rumo à Rússia, depois rumo à Palestina.</p>
<p>Ao ver o movimento frenético da vila no dia seguinte à reunião do louco com os sábios, uma das mulheres sentencia:</p>
<p>- “Deus, por que são os homens que dirigem o mundo? E um louco mostra o caminho!”</p>
<p><strong>Uma atmosfera onírica, surrealista, impregnada de um humor desavergonhado</strong></p>
<p>Dá-se uma grande discussão para definir quais deles representarão os nazistas. Naturalmente, ninguém quer o papel do opressor. Mas o conselho de sábios vota e decide: Mordechai (Rufus), um dos bons comerciantes da aldeia, será o chefe do destacamento nazista incumbido de “deportar” os judeus.</p>
<p>A aldeia entra numa atividade febril – e são maravilhosas, esplendorosas as sequências, com belos travellings, elaborados planos gerais da aldeia trabalhando freneticamente, preparando o grande golpe. Essas sequências são tornadas mais fantasticamente belas pela trilha sonora, de autoria de Goran Bregovic, o grande músico natural de Sarajevo.</p>
<p>O filho do Rabino, Yossi (Michel Muller), é enviado até uma cidade para providenciar passaportes falsos com um amigo da comunidade. O tal amigo era um comunista ferrenho, e Yossi volta à sua aldeia comunistinha da silva, falando que ninguém deveria fugir de coisa alguma, que em breve o comunismo dominaria o mundo e tudo seria uma única e feliz nação socialista, formado apenas pelos homens novos, conforme ensinava o camarada Stálin.</p>
<p>Na hora de providenciar um profissional para pôr para andar a locomotiva, o máximo que conseguem é um jovem idealista, um burocrata do Ministério dos Transportes, que nunca dirigiu coisa alguma na vida. Mas ao menos ele tem um livro com instruções sobre como manejar uma locomotiva.</p>
<p>E por aí vai – tudo numa atmosfera onírica, surrealista, mas sempre impregnada de um humor desavergonhado, escrachado.</p>
<p><strong>A garota mostra os seios para o jovem comunista: “Isto aqui não é melhor que Marx?”</strong></p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-35816" title="tremdavida3" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2012/01/tremdavida3.jpg" alt="" width="696" height="449" /></p>
<p>A garota mais bela da aldeia, Esther (Agathe de La Fontaine), apaixona-se perdidamente por um garoto boa pinta, filho de Mordechai, e que havia sido convertido ao comunismo pela doutrinação de Yossi. Quando a bela conta ao pai o objeto de sua paixão, desperta a ira dele: ela não pode, de jeito nenhum, se apaixonar por um comunista que além de tudo é filho de um nazista.</p>
<p>Sim, porque a maioria dos vilarejos passa a acreditar piamente que seus compatriotas, seus amigos até dias atrás, que agora vestem fardas nazistas, passaram a ser de fato nazistas.</p>
<p>O próprio Mordechai, depois de algumas aulas de alemão, passa a achar que ele é, de fato, um oficial nazista que tem o direito de dar ordens aos prisioneiros judeus.</p>
<p>E, lá pelas tantas, a bela Esther se cansa da perspectiva de continuar virgem para todo o sempre, abre a blusa e mostra os peitos de estátua renascentista para o neo-comunista filho do neo-nazista:</p>
<p>- “Isto aqui não é melhor que Marx e Engels e Lênin?”</p>
<p><strong>O rabino faz negócio com Deus</strong></p>
<p>Num determinado momento, o trem – que anda em círculos, sem sair muito do lugar de origem – é cercado de nazistas de verdade.</p>
<p>O rabino negocia com Deus:</p>
<p>- “Meu Deus, nunca imaginei mesmo que todos nós escaparíamos. Mas faça com que as crianças e os jovens atravessem a fronteira e vivam em paz na Palestina.”</p>
<p>E, já que está mesmo negociando, prossegue:</p>
<p>- “Mulheres e homens também. Afinal, as crianças precisam dos pais. E, já que salvou tanta gente, por que abandonar os velhos? O que foi que eles fizeram?”</p>
<p><strong>“A Terra só é Santa em um lugar?”</strong></p>
<p>Usar o humor ao se falar de uma das maiores tragédias da história da humanidade é algo perigoso. Qualquer passo em falso e se pode cair da corda bamba no ridículo, no grotesco.</p>
<p>Radu Mihaileanu é um equilibrista de mão cheia. Um talento absurdo nessa arte perigosa. Jamais pisa em falso. Jamais comete uma vulgaridade. Jamais erra o tom. E tempera as tiradas surreais, oníricas, de sonho ruim, de pesadelo terrível, com pitadas de imensa simpatia pelos homens, pelos pobres seres humanos. Como no diálogo de um garotinho com sua mãe, no trem:</p>
<p><a href="http://cinezencultural.com.br/site/2012/01/23/trem-da-vida-mais-ousado-que-uma-simples-comedia/"><em>Clique aqui para assistir o vídeo inserido.</em></a></p>
<p>O garotinho: – “Ainda estamos longe?”</p>
<p>A mãe: – “Sim, meu querido.”</p>
<p>O garotinho: – “A Terra só é Santa em um lugar?”</p>
<p>A mãe: – “Tem razão. A Terra todas podia ser Santa. Bastaria querer. E nada mais seria distante.”</p>
<p><strong>Um grande, talentoso realizador que produz poucos filmes, burilados como jóias</strong></p>
<p>“Trem da Vida” foi o terceiro filme do diretor. Havia feito um curta-metragem em 1980, o ano em que se radicou da França, fugindo da ditadura patética de Nicolau Ceausescu. Em 1993 realizou Trahir e, em 1997, para a TV, seu segundo longa,”Bonjour Antoine”. Em 1998, ano de Trem da Vida, estava com 40 anos de idade.</p>
<p>É daquele tipo de artista que não produz demais; ao contrário, sua filmografia não é longa. Em 2002 veio outro filme para a TV,”Les Pigmées de Carlo”; em 2005, “Um Herói do Nosso Tempo”. E, em 2009, realizaria “O Concerto”, uma obra-prima maravilhosa, acachapantemente bela.</p>
<p>“O Concerto” tem várias das características que Mihaileanu já burilava em “Trem da Vida”. É também uma comédia, que muitas vezes passa longe dos naturalismos, do realismo pão-pão, queijo-queijo; também flerta com o nonsense, com a atmosfera onírica, surrealista. Também comete exageros – sem que isso, no entanto, desequilibre, desbalance a narrativa. E, como Trem da Vida, O Concerto é um panfletaço anti-totalitarismos, anti a entrega apaixonada e cega das pessoas às ideologias</p>
<p>Logo depois de ver “O Concerto”, poucos dias atrás – o que me deu muita vontade de rever este Trem da Vida –, anotei que o filme demonstra, como outras obras-primas do cinema, que as pessoas estão acima dos Estados, das ideologias, dos nacionalismos; que as pessoas são todas iguais; raça, existe uma só, a humana, seja a pele de que cor for, a íris dos olhos de que cor for; que são as ideologias, as fórmulas inventadas pelos que se pretendem dominadores das pessoas, que criam, nutrem e exacerbam os preconceitos entre os grupos de uma raça que afinal é a mesma; que, se fossem deixadas a seus próprios destinos, se não fossem instigadas pelas máquinas governamentais, as pessoas poderiam conviver de forma melhor, talvez até quase fraterna.</p>
<p><strong>Quando passam a ser comunistas ou fantasiados de nazistas, os personagens deixam de ser fraternos</strong></p>
<p>“Trem da Vida” insiste muito nessa noção, que está presente também em “O Concerto”. Em “Trem da Vida”, isso é realçado o tempo todo: os amigos da aldeia, uma vez divididos entre judeus e (falsos) nazistas e recém convertidos ao comunismo, tornam-se quase inimigos mortais. E a fantasia, a farda falsa, quase transforma o bom Mordechai num nazista.</p>
<p>Dá vontade de ver os outros filmes desse sujeito de imenso talento – os anteriores, e o que ele fez depois de “O Concerto”, “La Source des Femmes”, o poço das mulheres, uma produção de 2011. Credo em cruz: nesse novo filme, ele reúne a fantástica Hiam Abbas, de “Lemmon Tree”, “A Noiva Síria” e “O Visitante”, com a revelação Hafsia Herzi, a garotinha da dança do ventre de “O Segredo do Grão”. Um romeno-francês, uma palestina de Nazaré, uma francesa descendente de tunisianos e argelinos.</p>
<p>Promete, promete. Radu Mihaileanu é grande. Radu Mihaileanu é supra-nacional, como a música, o cinema, como toda arte que vale a pena.</p>
<p><strong><img class="alignright size-medium wp-image-35814" title="tremdavidadvd" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2012/01/tremdavidadvd-212x300.jpg" alt="" width="212" height="300" />TREM DA VIDA</strong><br />
<em>(Train de Vie, </em><em>França / Bélgica / Holanda / Israel / Romênia, 1998).</em><br />
Direção e roteiro: Radu Mihaileanu.<br />
Elenco: Lionel Abelanski (Shlomo), Rufus (Mordechai), Clément Harari (o rabino), Michel Muller (Yossi), Agathe de La Fontaine (Esther), Johan Leysen (Schmecht), Bruno Abraham-Kremer (Yankele), Marie-José Nat (Sura), Gad Elmaleh (Manzatou).<br />
Comédia / Drama / Romance.<br />
103 minutos.</p>
<p>- Mostra de São Paulo: Melhor filme, Prêmio da audiência.<br />
- Festival de Sundance: Prêmio da audiência.</p>
<p><em>O filme integra o acervo da <a href="http://www.videoparadiso.com.br">Vídeo Paradiso</a>.</em></p>
<p><em>Leia mais sobre e comente o filme também na <a href="http://www.cinemaki.com.br/Trem-da-Vida/p/5713">Cinemaki</a>.</em></p>
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		</item>
		<item>
		<title>Brazil – O Filme: aquarela burocrática</title>
		<link>http://cinezencultural.com.br/site/2012/01/22/brazil-o-filme-aquarela-burocratica/</link>
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		<pubDate>Sun, 22 Jan 2012 22:03:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ricardo Flaitt</dc:creator>
				<category><![CDATA[Clássicos & Cults]]></category>
		<category><![CDATA[DVDteca Básica]]></category>
		<category><![CDATA[Brazil - O Filme]]></category>
		<category><![CDATA[Ian Holm]]></category>
		<category><![CDATA[Ian Richardson]]></category>
		<category><![CDATA[Jonathan Pryce]]></category>
		<category><![CDATA[Katherine Helmond]]></category>
		<category><![CDATA[Michael Palin]]></category>
		<category><![CDATA[Terry Gilliam]]></category>

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		<description><![CDATA[Clássico de  Terry Gilliam não tem ligação direta com imagens brasileiras, a não ser pela burocracia, que é universal... ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-35800" title="brazil1" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2012/01/brazil1.jpg" alt="" width="650" height="350" /></p>
<p>“Brazil – O Filme” segue a mesma linha de filmes como “Laranja Mecânica” e “1984”, onde as pessoas vivem sob um sistema social opressor, vigilante e tecnicista.</p>
<p>Ao contrário do que possa parecer, “Brazil” leva esse nome porque é embalado pela música “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso, mas a trama não tem ligação direta com imagens brasileiras, a não ser pela burocracia, que é universal&#8230;</p>
<p>A história se desenvolve a partir de uma falha na digitação (que trocou o T pela letra B), fazendo com que o departamento de repressão do governo aprisione um simples sapateiro, acusado de terrorismo contra o sistema.</p>
<p>Paralelamente ao fato, o filme mostra a vida do funcionário do governo Sam Lowry, interpretado por Jonathan Pryce, afundado numa repartição, que sonha escapar desse mundo burocrático e que têm sonhos escapistas por uma linda mulher, Jill Layton (Kim Greist).</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-35804" title="brazil2" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2012/01/brazil2.jpg" alt="" width="650" height="350" /></p>
<p>As histórias da mulher e do funcionário vão se entrelaçar, pois Jill é filha do sapateiro acusado injustamente de terrorista. Coexistem no mundo dos sonhos, mas, na realidade, são antagônicos, pois Jill pertence a um grupo de resistência ao sistema, enquanto Sam é uma engrenagem dessa máquina governamental.</p>
<p>O diretor Terry Gilliam (autor também de “Monty Python”) faz referências, entre outras coisas, ao Estado Nazista e também aos modelos de sociedades autoritárias como o socialismo soviético. Também faz referências às histórias de quadrinhos por meio de cenários e personagens, motivo pelo qual foi muito criticado ao fazer uma “salada” de signos.</p>
<p>Se o riso vem da calamidade, o diretor extrai risos por meio de um roteiro nonsense, potencializando os níveis de burocracia e tecnicismo da sociedade, criando situações surreais, mas que estão próximas da nossa realidade.</p>
<p><a href="http://cinezencultural.com.br/site/2012/01/22/brazil-o-filme-aquarela-burocratica/"><em>Clique aqui para assistir o vídeo inserido.</em></a></p>
<p>Outro ponto em que Gilliam critica é a preocupação exagerada com a aparência. A eterna busca pela juventude em detrimento dos valores morais. O que também é predominante no mundo em que vivemos e que todos nós sonhamos em uma vida mais simples, mais próxima de nossos sonhos.</p>
<p>O diretor de arte de “Brazil – O filme”, criou um futuro sombrio, entre o moderno e o antigo, como computadores feitos parte em máquinas de escrever e monitores. Mescla o moderno com o arcaico de forma propositada, para mostrar que apesar de novas tecnologias, o sistema estatal é burocrático e ineficiente.</p>
<p>“Brazil – O Filme”, dentro de seu roteiro aparentemente sem sentido, mostra de forma criativa que vivemos mesmo sob uma sociedade absurdamente burocrática, opressora, que contradiz os instintos humanos.</p>
<p><strong>Curiosidade:</strong> Terry Gilliam pretendia que o filme se chamasse &#8220;1984 and a 1/2&#8243;, como forma de homenagear o diretor Federico Fellini, mas teve que trocar o nome após o lançamento de “1984”, baseado na obra de George Orwell.</p>
<p><strong><img class="alignright size-medium wp-image-35799" title="brazildvd" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2012/01/brazildvd-225x300.jpg" alt="" width="225" height="300" />BRAZIL, O FILME</strong><br />
<em>(Brazil, 1985, Inglaterra).</em><br />
Direção: Terry Gilliam.<br />
Roteiro: Terry Gilliam, Charles McKeown e Tom Stoppard.<br />
Elenco: Jonathan Pryce (Sam Lowry), Robert De Niro (Archibald &#8220;Harry&#8221; Tuttle),  Katherine Helmond (Ida Lowry), Ian Holm (M. Kurtzmann), Bob Hoskins (Spoor), Michael Palin (Jack Lint), Ian Richardson (Sr. Warrenn).<br />
Ficção científica.<br />
131 minutos.</p>
<p>- Indicado ao Oscar: Roteiro, Direção de arte.<br />
- Bafta:  Efeitos visuais, desenho de produção.<br />
- Crítica de Los Angeles: Filme, Diretor, Roteiro.</p>
<p><em>O filme integra o acervo da <a href="http://www.videoparadiso.com.br">Vídeo Paradiso</a>.</em></p>
<p>Leia mais sobre e comente o filme também na <a href="http://www.cinemaki.com.br/Brazil-O-Filme/p/7241">Cinemaki</a>.</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Margin Call: Fotografia bem batida do egoísmo humano</title>
		<link>http://cinezencultural.com.br/site/2012/01/20/margin-call-fotografia-bem-batida-do-egoismo-humano/</link>
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		<pubDate>Fri, 20 Jan 2012 10:01:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adriano Mello Costa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Home Vídeo]]></category>
		<category><![CDATA[Aasif Mandvi]]></category>
		<category><![CDATA[Demi Moore]]></category>
		<category><![CDATA[J.C. Chandor]]></category>
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		<description><![CDATA[Filme retrata dia anterior à crise econômica que abalou o mundo]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-35216" title="Margin-Call-movie-image-Kevin-Spacey-2" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2011/12/Margin-Call-movie-image-Kevin-Spacey-2.jpg" alt="" width="696" height="413" /></p>
<p>Eric Dale (Stanley Tucci) está em frente ao computador de trabalho, com olhar compenetrado no que vê. Nada parece distinguir esse dia de outro dos últimos 19 anos em que é funcionário da mesma empresa, até ser chamado por uma pessoa que nunca viu antes que vem lhe explicar que está demitido (uma pessoa como o Ryan Bingham de “Amor Sem Escalas”). Lá ele ouve sobre o desligamento, fica com raiva, mas aceita. Antes de sair do prédio encontra um dos subordinados e entrega um arquivo em que trabalhava. Pede “cuidado” quando for analisar.</p>
<p>Estamos em setembro de 2008 em plena Wall Street, um dia antes de emergir a pior crise da história estadunidense desde o ano de 1929. A crise que derrubou titãs do mercado financeiro como o banco de investimentos Lehman Brothers (no qual o longa parece livremente se inspirar). E é nesse calamitoso dia que o estreante diretor (e roteirista) J.C. Chandor fez nascer “Margin Call &#8211; O Dia Antes do Fim”, um filme que tem a habilidade de balancear estreitos dramas pessoais com o cenário maior que irá se desencadear para milhares de cidadãos.</p>
<p><a href="http://cinezencultural.com.br/site/2012/01/20/margin-call-fotografia-bem-batida-do-egoismo-humano/"><em>Clique aqui para assistir o vídeo inserido.</em></a></p>
<p>O arquivo que Eric Dale trabalhava preocupado cai nas mãos do talentoso Peter Sullivan (Zachary Quinto, o Sylar da série “Heroes”) e ele por curiosidade e ambição se debruça nele para concluir. Para tanto, vara a madrugada. O resultado é que parece não ser nada animador, aliás, é completamente alarmante. Os números e projeções indicam que o patrimônio da empresa caminha para a desvalorização quase total, o que significa um desmoronamento rápido e absoluto, causado pela falta de compromisso e de zelo com as regras do mercado.</p>
<p>Ao pressentir a merda que se encaminha para o ventilador, Peter chama o chefe (Paul Bettany) de uma farra e depois todo o alto escalão é convocado como se fosse uma boneca russa se sobrepondo. Primeiro o diretor da seção Sam Rogers (Kevin Spacey), em seguida seu superior Simon Baker (Jared Cohen) e no final mais uma diretora (Demi Moore) e o grande leão da selva, o presidente (ou CEO, como preferir) John Tuld (Jeremy Irons). Em uma reunião farta de cobranças e medo, soluções são buscadas sem se ater a ideia do que é correto, apenas de resistir.</p>
<p>“Margin Call” é uma fotografia bem batida da podridão e egoísmo que o dinheiro faz despertar no ser humano. Em um lugar onde alguns lucram milhões por ano, de nada importa as pessoas que andam pelas ruas sem saber o que vai acontecer no próximo dia, como avalia em certa passagem o personagem de Zachary Quinto. Ao lado de “Trabalho Interno” de Charles Ferguson, o filme de J.C. Chandor forma um panorama abundante da linguagem que os chefões do mercado financeiro dominante no mundo conhecem. A linguagem do lucro e da sobrevivência.</p>
<p><strong><img class="alignright size-full wp-image-35767" title="Margin-Callbd" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2011/12/Margin-Callbd.jpg" alt="" width="200" height="283" />MARGIN CALL – O DIA ANTES DO FIM</strong><br />
<em>(Margin Call, EUA, 2011).</em><br />
Direção e roteiro: J.C. Chandor.<br />
Elenco: Kevin Spacey, Zachary Quinto, Jeremy Irons, Demi Moore, Stanley Tucci, Penn Badgley, Simon Baker, Mary McDonnell, Paul Bettany, Aasif Mandvi.<br />
Drama.<br />
107 minutos.</p>
<p><em>Estreia no Brasil: 09/12/2011.</p>
<p>Lançamento em DVD e Blu-ray: 18/01/2012. </em></p>
<p><em>Leia mais sobre e comente o filme também na <a href="http://www.cinemaki.com.br/Margin-Call-O-Dia-Antes-do-Fim/p/52285">Cinemaki</a>.</em></p>
]]></content:encoded>
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		</item>
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		<title>A Vida Íntima de Sherlock Holmes: Obra de Billy Wilder é muito menos badalada do que merece</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Jan 2012 02:01:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[50 Anos de Filmes]]></category>
		<category><![CDATA[Clássicos & Cults]]></category>
		<category><![CDATA[Outros destaques]]></category>
		<category><![CDATA[A Vida íntima de Sherlock Holmes]]></category>
		<category><![CDATA[Billy Wilder]]></category>
		<category><![CDATA[Christopher Lee]]></category>
		<category><![CDATA[Clive Revill]]></category>
		<category><![CDATA[Colin Blakely]]></category>
		<category><![CDATA[Genevieve Page]]></category>
		<category><![CDATA[Irene Handl]]></category>
		<category><![CDATA[Mollie Maureen]]></category>
		<category><![CDATA[Robert Stephens]]></category>
		<category><![CDATA[Sherlock Holmes]]></category>
		<category><![CDATA[Sherlock Holmes: O Jogo das Sombras]]></category>
		<category><![CDATA[Stanley Holloway]]></category>
		<category><![CDATA[Tamara Toumanova]]></category>

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		<description><![CDATA[Filmes conta uma das mais fascinantes tramas vividas pelo famoso detetive]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-35706" title="T" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2012/01/vidaintima1.jpg" alt="" width="696" height="317" /></p>
<p>Uma beleza de filme, uma obra de Billy Wilder muito menos badalada e reconhecida do que merece. Para mim, este filme conta uma das mais fascinantes, bem urdidas, bem sacadas tramas vividas por Sherlock Holmes, essa figura tão absolutamente fascinante que, para milhares de pessoas em todo o mundo, é uma pessoa real.</p>
<p>A trama maravilhosa é uma criação original da dupla Billy Wilder e I.A.L. Diamond. Mas é impressionantemente fiel ao estilo das 60 histórias criadas por Sir Arthur Conan Doyle – ou então, para me ater à crença dos sherlockianos do mundo inteiro, das 60 histórias relatadas pelo médico John H. Watson, companheiro de Holmes em suas aventuras e investigações, e que foram entregues a seu colega e agente literário Arthur Conan Doyle para serem editadas.</p>
<p>Conan Doyle – perdão, o dr. Watson redigiu 56 contos e 4 novelas relatando os casos investigados por Sherlock Holmes. A primeira história a ser publicada, “Escândalo na Boêmia”, saiu na Strand Magazine, de Londres, em 1891. A última veio a público em 1927. Este conjunto é chamado pelos aficionados, com todo o respeito que merece, de O Cânone.</p>
<p>Acontece que, fora do Cânone, houve dezenas e dezenas de outras histórias de que Sherlock Holmes é o protagonista. Diversos autores se aproveitaram da fama inigualável do gênio da dedução para escrever outras aventuras que não aquelas 60 cuja originalidade é mais que comprovada.</p>
<p><img class="alignright size-full wp-image-35710" title="vidaintima2" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2012/01/vidaintima2.jpg" alt="" width="344" height="216" />Essas novas histórias que não constam do Cânone Sherlockiano têm se multiplicado ao longo das décadas, em contos, novelas, peças teatrais e – em imenso número – no cinema. Surgem como uma praga. Ainda em 1893 – quando o grande detetive ainda estava vivo, portanto – uma paródia de Sherlock Holmes foi apresentada no Royal Court Theatre, em Londres. Em 1905, ele já estava no cinema, em um filme chamado “As Aventuras de Sherlock Holmes”, frouxamente baseado em “O Signo dos Quatro” (esta, sim, uma obra real do Cânone) e exibido na Inglaterra com o título de “Held for a Ranson”.</p>
<p>E, depois disso, “mal se passava um ano sem que Sherlock Holmes aparecesse na tela em algum lugar do mundo, mesmo que apenas no título”, segundo escreveu o historiador Michael Pointer em seu livro “The Public Life of Sherlock Holmes”, lançado em 1975.</p>
<p>A febre continua até hoje, passado bem mais de um século da primeira aparição de uma história de Holmes na Strand Magazine. Em 2009, o diretor Guy ex-Madonna Ritchie lançou seu “Sherlock Holmes”, e em 2012, o segundo filme, da mesma equipe, “Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras”.</p>
<p>Como tantos outros diretores e escritores, Guy Ritchie se valeu do nome, da fama de Holmes e seu parceiro Watson, de muitas de suas características, e de outros personagens constantes no Cânone, para criar novas histórias.</p>
<p><strong>A própria história de vida do filme é extraordinária</strong></p>
<p>Billy Wilder e I.A.L. Diamond haviam feito a mesma coisa 40 anos antes, neste filme interessantíssimo, fascinante.</p>
<p>Criaram, eles próprios, novas tramas protagonizadas por Holmes e Watson. Mas, ao contrário do filme de Guy Ritchie de 2009, extremamente criticado por ter fugido bastante das descrições originais feitas nos textos de Conan Doyle, perdão, de John Watson, Wilder e seu fiel colaborador criaram tramas que Watson poderia perfeitamente ter escrito. Foram bastante fiéis às características dos protagonistas descritas nos relatos originais publicados entre 1891 e 1927. Mais ainda: o próprio desenrolar da trama principal segue com fidelidade às vezes até assustadora a forma com que Conan Doyle, perdão de novo, Watson narrava as histórias originais do Cânone.</p>
<p>“A Vida Íntima de Sherlock Holmes” é tão fascinante que ele mesmo, o filme, tem uma trajetória, uma história de vida, se é que se pode usar o termo, extraordinária. O filme que chegou aos cinemas em 1970 e podemos ver hoje em DVD não é propriamente o filme que Billy Wilder dirigiu.</p>
<p>Mas é informação demais. É necessário ir por partes.</p>
<p><strong>Uma caixa guarda documentos a serem revelados 50 anos após a morte de Watson</strong></p>
<p><img class="alignright size-full wp-image-35711" title="vidaintima3" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2012/01/vidaintima3.jpg" alt="" width="320" height="256" />Um pouco sobre o que podemos ver no filme tal qual ele existe hoje.</p>
<p>A primeira tomada é de uma placa prateada, pregada em uma parede externa de um prédio londrino: “Cox &amp; Co, Bankers” – e, refletido na placa, o trânsito de Londres, um dos tradicionais ônibus vermelhos de dois andares passando.</p>
<p>Enquanto começam a rolar os créditos iniciais, e vemos dois homens entrando em um cofre-forte, ouvimos a narração de uma voz em off:</p>
<p>- “Em um cofre de um banco em Londres, há uma caixa com o meu nome. (Vemos a caixa, com a inscrição John H. Watson, MD, MD de medical doctor, que os dois homens pegam.) Ela não pode ser aberta antes que se passem 50 anos da minha morte. Contém certas recordações da minha ligação com o homem que elevou a ciência da dedução a uma forma de arte. O primeiro e, inegavelmente, mais famoso detetive particular do mundo.”</p>
<p>A caixa começa a ser aberta, e os dois homens vão tirando o que há dentro dela, em meio ao pó das décadas: o famoso chapeuzinho, o famoso cachimbo em forma de meia lua, depois algemas, um relógio de bolso – com a foto de uma mulher na parte interna da tampa –, uma partitura musical assinada por Sherlock Holmes, uma agulha de injeção, ou seringa hipodérmica…</p>
<p>Um pequeno detalhe: não se usa, no original, a expressão private detective, ou private investigator, que passariam a ser mais usadas nas décadas seguintes àquelas em que Sherlock Holmes viveu, em especial nos Estados Unidos, onde, a partir de private investigator, difundiu-se a expressão private eye, já com o eye, de olho, se pronuncia como a letra i, a primeira letra de investigator.</p>
<p>Como a voz que ouvimos é de um ator representando John Watson, ele usa a expressão consulting detective – consulting, de consultor, mesmo. Detetive consultor, que era como John Watson se referia, em seus textos, a Holmes.</p>
<p><strong>“Aventuras que envolvem assuntos de natureza delicada e às vezes escandalosa…”</strong></p>
<p>E então, depois de retirar de dentro da caixa mais uma série de itens – uma lente de aumento, uma carta de baralho, uma plaquinha com o número 221b, o mais famoso endereço de Londres depois do número 10 da Downing Street –, os dois homens chegam finalmente a um grande molho de páginas manuscritas. A voz em off lê o início do texto contido nelas:</p>
<p>- “Para meus herdeiros. (Parágrafo. Na outra linha:) Ao longo da minha vida, registrei cerca de 60 casos que demonstram os talentos singulares de meu amigo Sherlock Holmes, abordando desde o Cão de Baskervilles até seu misterioso irmão Mycroft e o diabólico Professor Moriarty. Mas houve outras aventuras que decidi não divulgar publicamente, por razões de discrição, até este momento bem mais tardio. Elas envolvem assuntos de uma natureza delicada e às vezes escandalosa, como poderão constatar a seguir. Em agosto de 1887, voltávamos de Yorkshire…”</p>
<p>E a partir daí vemos na tela o que Watson relatou nos papéis guardados a sete chaves por meio século.</p>
<p><strong>Uma bela sacada de Wilder &amp; Diamond – que respeita perfeitamente o Cânone</strong></p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-35712" title="vidaintima4" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2012/01/vidaintima4.jpg" alt="" width="600" height="454" /></p>
<p>É uma grande sacada da dupla Wilder &amp; Diamond. A história que os dois criaram incorpora com perfeição tudo o que Conan Doyle digo Watson escreveu em vida sobre ele próprio e Holmes. O Cânone é perfeitamente respeitado.</p>
<p>Watson escrevia à mão seus relatos, e os entregava ao amigo Conan Doyle, que se encarregava de fazê-los publicar, primeiro na Strand Magazine, depois em forma de livros.</p>
<p>Mas aquele manuscrito especificamente não foi dado à divulgação no período entre 1891 e 1927 porque continha temas que Watson gostaria de preservar, de manter em segredo. Meio século depois, aí sim, aquelas histórias poderiam ser conhecidas, já que o mal que eventualmente fizessem à reputação tanto dele quanto de Holmes não mais os atingiria; estariam mortos faria muito tempo.</p>
<p>Os temas sobre os quais se fala bastante, nessas histórias a serem divulgadas postumamente, são apenas arranhados nos relatos publicados por Watson, e que constam do Cânone. Mas eles estão lá, nas narrativas originais. Não foram inventados por Wilder &amp; Diamond.</p>
<p><img class="alignright size-full wp-image-35713" title="vidaintima5" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2012/01/vidaintima5.jpg" alt="" width="365" height="216" />São eles – e creio que posso citá-los aqui, sem que isso seja um spoiler – a questão da sexualidade de Holmes; a sua dependência de cocaína (injetada, não aspirada); e, talvez mais comprometedor do que os dois anteriores, o fato de que, pelo menos uma vez na vida, provou-se que o grande detetive não era infalível.</p>
<p>E os personagens são a mais pura representação de como Holmes e Watson são descritos no Cânone. Holmes é brilhante, genial – e sua inteligência é tão gigantesca quanto sua pose, seu ego, seu egocentrismo, sua empáfia. Cheio de si, impávido colosso, padece de terrível solidão, não mitigada pela presença eterna do companheiro Watson, amigo fiel, de quem ele de alguma forma gosta, apesar de considerá-lo um ser inferior.</p>
<p>Watson, por sua vez, é um sujeito suavemente bronco. Coração gigantesco, eticamente irrepreensível, uma pessoa boa, boníssima – e fascinada pelo fato de ter tido a oportunidade de conviver com um ser de inteligência superior.</p>
<p>O Holmes e o Watson do filme de Wilder são absolutamente fiéis ao Cânone.</p>
<p>Ou pelo menos é isso que me parece – e aqui aproveito para dizer que não sou um especialista em sherlokismo. Não sou especialista em nada, não entendo profundamente nada de nada. Sou apenas um curioso – e então que perdõem meus erros os sherlockistas de fato. (E, se possível, que os erros sejam apontados.)</p>
<p><strong>O criador que tomou ódio da criatura</strong></p>
<p>E aí faço uma pequena digressão.</p>
<p>Regina Lemos entendia de Conan Doyle. Tinha lido tudo, e entendido tudo, e feito todas as associações possíveis. (Bem ao contrário de mim, que li mas não compreendi tudo.) Fez uma beleza de matéria para o Jornal da Tarde, na época em que nos conhecemos, 1976, mostrando como Arthur Conan Doyle passou a odiar profundamente o personagem que havia criado. O criador tornou-se prisioneiro da criatura – e passou boa parte da vida querendo se libertar dela. Arthur Conan Doyle passou a ter um ódio profundo de Sherlock Holmes. Tentou matá-lo diversas vezes.</p>
<p><strong>Um filme com duas histórias distintas</strong></p>
<p>“A Vida Íntima de Sherlock Holmes” que passou nos cinemas em 1970 e está disponível em DVD (lançado no Brasil pela Versátil, em acordo com a MGM, que perdeu os direitos ao comprar a United Artists) é um filme de duas horas e cinco minutos. Conta duas histórias distintas.</p>
<p>A primeira envolve a maior bailarina clássica daquele final dos anos 1880, Madame Petrova (Tamara Toumanova), prima ballerina do Balé Imperial Russo. O Balé está se apresentando em Londres, e o diretor do corpo tem uma tarefa para Holmes executar. Caso aceite, Holmes, violinista diletante, receberá um Stradivarius autêntico, de valor incalculável.</p>
<p><img class="alignright size-full wp-image-35714" title="vidaintima6" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2012/01/vidaintima6.jpg" alt="" width="265" height="190" />Essa primeira história, que tem pouco mais de 30 minutos de duração, é apresentada com um toque cômico. Mas um tom cômico à la Billy Wilder – irônico, sarcástico, porém até mesmo sutil. Nada, absolutamente nada a ver com o humor aberto, escrachado, à la Mel Brooks, de “O Irmão Mais Esperto de Sherlock Holmes”, que Gene Wilder, seguindo as pegadas de seu mentor Brooks, dirigiria em 1975.</p>
<p>É um delicioso episódio, este, envolvendo Madame Petrova – mas é apenas o hors d’oeuvre, uma saborosíssima, porém bem pequena entrada, antes do prato principal.</p>
<p>Temos então que, lá pouco antes dos 35 minutos de filme, Holmes está morrendo de tédio em sua casa na Baker Street, 221b, na falta de um caso intrigante, extraordinário, Watson escrevendo seus manuscritos, talvez relatando o episódio envolvendo Madame Petrova, quando um motorista de charrete, o táxi londrino da época, bate a campainha da porta para entregar ali uma mulher.</p>
<p>Está encharcada, a mulher. O motorista conta que ela havia pulado no Tâmisa, e ele havia pulado para tirá-la da água – a qual, diz ele, com aquele delicioso sotaque cockney, estava especialmente gelada. Na mão, ela carregava o endereço – Baker Street, 221b.</p>
<p>- “Vão ficar com ela, ou devo jogá-la de volta ao rio?”, pergunta o motorista.</p>
<p><strong>A segunda história é de mistério e suspense, e o mistério só vai se adensando</strong></p>
<p>É uma mulher bonita. As roupas são boas – não é, de forma alguma, uma mendiga. Parece em estado de choque. Não sabe dizer seu nome, de onde vem, o que faz ali, por que carregava o endereço de Holmes. O dr. Watson diagnostica na hora um caso de amnésia pós-traumática.</p>
<p>Pouco acostumados a receber visitas femininas na casa, tanto Holmes quanto Watson e Mrs. Hudson (Irene Handl), a severa, britaniquíssima governanta levam um tempo imenso até botar a moça embaixo de um chuveiro (se é que havia chuveiro em Baker Street, 221b, em 1887, ou 1888), ou no mínimo tirar as roupas encharcadas dela.</p>
<p>Finalmente, põem a misteriosa mulher para dormir no quarto de Watson, que se transfere para o sofá da sala de estar.</p>
<p>De madrugada, a misteriosa mulher se levanta da cama – peladinha, peladinha – e se aproxima de Holmes, chamando-o de Emile.</p>
<p>Dá vontade de adiantar ao menos os elementos que virão a seguir na história envolvendo a mulher misteriosa vinda sem memória das águas geladas do Tâmisa, mas não é o caso. Atrapalharia quem ainda não viu o filme.</p>
<p><img class="size-full wp-image-35715 aligncenter" title="vidaintima7" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2012/01/vidaintima7.jpg" alt="" width="695" height="293" /></p>
<p>O que posso dizer, na verdade repetir, é isto: o que virá a seguir no filme é uma das mais belas tramas envolvendo Sherlock Holmes e o dr. Watson que foram criadas – seja as verdadeiras, as originais, as constantes no Cânone, seja as posteriores, as criadas pela imaginação de uma dezena, centena de outros autores.</p>
<p>Nessa história que se inicia com a chegada da mulher misteriosa, e dura três quartos do filme na forma em que ele existe hoje, Wilder não se furta a algum humor. Ele não evita humor nem quando fala de solidão, desespero, infidelidade conjugal, tentativa de suicídio, como em “Se Meu Apartamento Falasse”, nem quando mostra a vida de prisioneiros de guerra em um campo na Alemanha nazista, como em “Inferno Nº 17”.</p>
<p>Só que, aqui, o humor é bem mais sutil e suave do que no episódio envolvendo a companhia de balé russa. O clima é de mistério, de gostoso suspense – vão aparecendo mais e mais elementos, e as coisas não vão se esclarecendo. Ao contrário, o mistério vai se adensando – até quase o desfecho, quando os fios todos da trama se ligam. Um brilho.</p>
<p>É de alguma forma assustador pensar que, quando queria, Billy Wilder, com a ajuda de seu parceiro I.A.L. Diamond, era capaz de criar uma trama que faria inveja a Sir Arthur Conan Coyle, ao dr. John H. Watson.</p>
<p>É muita concentração de talento num cara só. Não há MST – movimento dos sem-talento – que consiga dar um jeito nisso.</p>
<p><strong>Nos papéis centrais, dois bons atores pouco conhecidos hoje</strong></p>
<p>Ainda não falei sobre os atores do filme. O trio central é formado por Robert Stephens (Holmes), Colin Blakely (Watson) e Geneviève Page (a mulher misteriosa). Imagino que só aficionados malucos conheçam Robert Stephens e Colin Blakely. Eu, que sou aficionado maluco, não conhecia. São dois bons atores das Ilhas Inglesas, aquelas ilhotas que têm a maior quantidade de bons atores por quilômetro quadrado que qualquer outro lugar do planeta.</p>
<p>Robert Stephens, bom físico para Sherlock, magro, alto, é inglês, fez 86 filmes. Colin Blakely, bom físico para Watson, mais parrudo, mais baixo (talvez um pouco menos gordinho do que o Watson das ilustrações do Strand Magazine), é irlandês do Ulster, fez 78 filmes.</p>
<p>Geneviève Page é, como Stephens e Blakely, uma boa atriz – e, se não fosse boa, não estaria em um filme de Billy Wilder. Francesa de Paris, viva ainda, tem 50 títulos na filmografia do IMDb – inclusive “Belle de Jour” de Buñuel e “El Cid” de Anthony Mann. (Ela faz a princesa Urraca, caráter ruim, mas grande beleza. Me lembro dela. Preciso rever “El Cid”.)</p>
<p><strong>Wilder e Diamond trabalharam por dez anos no roteiro do filme</strong></p>
<p><img class="alignright size-full wp-image-35716" title="avidaintima8" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2012/01/avidaintima8.jpg" alt="" width="339" height="216" />Agora, um pouco da história de vida de A Vida Íntima de Sherlock Holmes. Nunca soube de nada disso até agora, até depois de rever o filme agora e dar uma olhadinha nos alfarrábios. É uma história fantástica.</p>
<p>Consta (na verdade, mais do que consta; há indicações claras) que Wilder queria, a princípio, nada mais nada menos que Peter O’Toole como Holmes e Peter Sellers como Watson. Sonhar não custa nada, e faria todo sentido. O grande O’Toole é alto, bonito, e tem gestos que minha mãe chamaria de efeminados. O grande Sellers é mais baixo, mais atarracado, embora não tão gordinho quanto imaginamos Watson.</p>
<p>Bem, por algum motivo não deu para ter O’Toole e Sellers no elenco, e quem não tem cão caça com gato, e Stephens e Blakely estão ótimos.</p>
<p>Segundo um depoimento de Ernest Walter, que está no DVD da Versátil, Wilder &amp; Diamond trabalharam no projeto de “A Vida Íntima de Sherlock Holmes” ao longo de dez anos.</p>
<p>Wilder e Diamond assinaram juntos os roteiros a partir de “Amor na Tarde”, de 1957. A parceria durou até “Amigos, Amigos, Negócios à Parte”, de 1981, o último filme dirigido pelo mestre, que se aposentou a partir daí. (Ele viveria até 2002. Morreu aos 95 anos.)</p>
<p>Se é verdade o que diz Ernest Walter – e não há motivo algum para duvidar dele –, os dois amigos começaram a trabalhar na “Vida Íntima…” três anos após o início da parceria.</p>
<p>Ernest Walter (1919-1999) é uma figura impressionante. É uma das pessoas mais low profile, simples, tranqüilas, menos show off, estrela, ego inflado de que já tive notícia. Seu depoimento dura uma meia hora. Em nenhum momento ele chama alguma glória para si, se elogia, se enaltece. Fala de seu trabalho como um bancário, ou vendedor de seguros, ou copydesk que descrevesse seu dia a dia cinzento, sempre igual, modorrento.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-35717" title="T" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2012/01/vidaintima9.jpg" alt="" width="696" height="304" /></p>
<p>Foi o responsável pela montagem de 33 filmes; trabalhou com Blake Edwards, Franklin F. Schaffner, Mark Robson, Philip Dunne, Michael Anderson; assinou a edição de filmes do cinemão americano que foram sucesso comercial. Não esconde que a maior glória que teve na vida foi ter montado um filme de Billy Wilder – o único filme do mestre filmado nas Ilhas Britânicas, conforme assinala esse humilde senhor do País de Gales.</p>
<p>Guardou, cuidadosamente – de forma parecida com que o banco londrino guardou os manuscritos do dr. Watson –, o calhamaço com as centenas de páginas do roteiro final de A Vida Íntima de Sherlock Holmes. Exibe o calhamaço, enquanto dá o depoimento. Conta que Wilder filmou tudo exatamente de acordo com o roteiro. Sem espaço algum para improvisação, criação de última hora. Ouviu de Diamond que o roteiro, trabalhado ao longo de tantos anos, estava perfeito, e portanto, na filmagem, tudo tinha que ser exatamente como escrito.</p>
<p>Era até fácil o trabalho de montagem, conta ele, exatamente porque Wilder filmava tudo seguindo com rigor o roteiro. “Era praticamente só cortar fora a claquete, e juntar com a tomada seguinte”, diz ele, não exatamente com essas palavras, mas é o que ele quer dizer, num tom de voz monocórdico, sem um traço de orgulho, como se montar um filme de Billy Wilder fosse exatamente igual a carimbar papéis em um banco.</p>
<p>“Não entendo como a Mirish Company estranhou que o filme tivesse ficado grande”, diz ele – e de novo não estou citando ipsis literis, mas transcrevendo o sentido do que ele diz.</p>
<p>O chamado first cut, a primeira edição de todo o material filmado, tinha quase quatro horas de duração. Cleópatra, que quase quebrou a Fox, tinha 3 horas e 12 minutos quando chegou aos cinemas. Ben-Hur tinha 3 horas e 32 minutos. Mas o tempo desses dinossauros já havia passado, quando Billy Wilder filmou “A Vida Íntima de Sherlock Holmes”. E então a Mirisch Company encomendou ao humilde Ernest Walter que cortasse a trolha, transformasse aquele gigante em algo próximo das 2 horas de projeção.</p>
<p><a href="http://cinezencultural.com.br/site/2012/01/16/a-vida-intima-de-sherlock-holmes-obra-de-billy-wilder-e-muito-menos-badalada-do-que-merece/"><em>Clique aqui para assistir o vídeo inserido.</em></a></p>
<p>Wilder &amp; Diamond haviam escrito e filmado quatro histórias diferentes.</p>
<p>Os produtores incumbiram Ernest Walter de extrair fora duas das quatro histórias. Ficaram de fora um episódio chamado “O curioso caso do cômodo invertido” e outro chamado “O espantoso negócio dos recém-casados nus”. Extirpadas essas duas histórias, o filme ficou com sua duração de duas horas e cinco minutos.</p>
<p>Se fosse hoje em dia, Walter teria que cortar mais. O cinemão comercial não anda admitindo filmes com mais de 90, 100 minutos.</p>
<p><strong>“Tudo é muito longo, menos a própria vida e o própro pênis”</strong></p>
<p>Alguns trechos extirpados da versão que chegou aos cinemas – e que é a mesma que está no DVD da Versátil – chegaram a aparecer em uma edição americana do filme em laser disc.</p>
<p>Segundo a Wikipedia, um crítico chamado Kim Newman, na revista Empire, chamou a obra de “melhor filme de Sherlock Holmes jamais feito”, “infelizmente subestimado no Cânone de Wilder”.</p>
<p>Gostei desse Kim Newman. Legal essa brincadeira dele sobre o Cânone de Billy Wilder.</p>
<p>Vou agora ver a versão do próprio Billy Wilder no livro definitivo sobre sua obra, Billy Wilder – e o resto é loucura, do estudioso alemão Hellmuth Karasek.</p>
<p>Como bom alemão, Hellmuth Karasek não apenas entrevista Wilder, não apenas relata histórias que ouviu de seus vários entrevistados. Ele também filosofa e psicanalista. Sai-se com a teoria de que o Sherlock Holmes do filme é um auto-retrato de Billy Wilder: “solitário, envolvido por uma melancolia e um esnobismo à la Oscar Wilde”, “um entediado e presa da cocaína porque, com sua inteligência arguta e ausência de preconceitos, está acima do mundo em que vive”. E a mulher misteriosa seria “o símbolo do amor de Wilder pela Alemanha e pela Áustria, amor que, no entanto, ele tem que combater”.</p>
<p>Deve ser por essas e outras que Caetano diz estar provado que só é possível filosofar em alemão.</p>
<p>“Tudo é muito longo, menos a própria vida e o próprio pênis”, disse Wilder, segundo Karasek, ao saber que iriam cortar seu filme, “tirar a vida de seu mais enredado auto-retrato.”</p>
<p>Karasek relata que Wilder gosta muito do filme. Que o filme, menosprezado à época do lançamento, foi depois reabilitado, com grandes elogios de críticos importantes.</p>
<p>A indústria fica aí lançando cinco ou seis diferentes versões de “Blade Runner”, nove diferentes versões de “Avatar”. Nada contra “Avatar” e “Blade Runner”. Mas, caral…, não poderiam lançar a versão original de Billy Wilder deste filme maravilhoso?</p>
<p><strong><img class="alignright size-medium wp-image-35709" title="vidaintimadvd" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2012/01/vidaintimadvd-212x300.gif" alt="" width="212" height="300" />A VIDA ÍNTIMA DE SHERLOCK HOLMES</strong><br />
<em>(The Private Life of Sherlock Holmes, EUA, 1970).</em><br />
Direção: Billy Wilder.<br />
Roteiro: Billy Wilder e I.A.L. Diamond, baseados nos personagens de Sir Arthur Conan Doyle.<br />
Elenco: Robert Stephens (Sherlock Holmes), Colin Blakely (Dr. Watson), Irene Handl (Mrs. Hudson), Stanley Holloway (coveiro), Christopher Lee (Mycroft Holmes), Genevieve Page (Gabrielle Valladon), Clive Revill (Rogozhin), Tamara Toumanova (Petrova), Mollie Maureen (Rainha Victoria).<br />
Aventura / Comédia / Crime.<br />
125 minutos.</p>
<p><em>O filme integra o acervo da <a href="http://www.videoparadiso.com.br">Vídeo Paradiso</a>.</em></p>
<p><em>Leia mais sobre e comente o filme também na <a href="http://www.cinemaki.com.br/A-Vida-Intima-de-Sherlock-Holmes/p/7479">Cinemaki</a>.</em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Criação: Seleção pela sobrevivência</title>
		<link>http://cinezencultural.com.br/site/2012/01/12/criacao-selecao-pela-sobrevivencia/</link>
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		<pubDate>Thu, 12 Jan 2012 18:23:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ricardo Flaitt</dc:creator>
				<category><![CDATA[Clássicos & Cults]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[DVDteca Básica]]></category>
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		<description><![CDATA[A dualidade entre Deus, senhor da criação, pregada pela Bíblia; e a teoria de evolução das espécies, é o tema central do filme ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-35654" title="creation" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2012/01/creation.jpg" alt="" width="640" height="359" /></p>
<p>As concepções de mundo foram chacoalhadas quando, em 1859, Charles Darwin publicou “A Origem das Espécies”. Daquele momento em diante, o conceito de Deus como criador supremo passou a ser questionado por uma teoria evolucionista.</p>
<p>E é a dualidade entre Deus, senhor da criação, pregada pela Bíblia; e a teoria de evolução das espécies, o tema central do filme “Criação”.</p>
<p>No filme dirigido por Jon Amiel (“Sommersby – O Retorno de um Estranho”, “Armadilha”) não temos a imagem de Darwin velhinho, de barbas longas, mas do jovem cientista, pai de 10 filhos, uma esposa extremamente religiosa, que sofre com os conflitos em sua mente diante de tamanha constatação evolucionista da criação do ser humano.</p>
<p><img class="alignright size-full wp-image-35658" title="creation-bettany-paul-cp-tiff" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2012/01/creation-bettany-paul-cp-tiff.jpg" alt="" width="345" height="222" />Se por um lado a esposa Emma (interpretada pela linda Jennifer Connelly) atormenta o cientista com sua religiosidade ferrenha, em contrapartida, o biólogo Thomas Huxley e o botânico Joseph Hooke, pressionam Darwin para concluir a obra e “entregá-la ao mundo”.</p>
<p>A verdade é que Darwin, por mais religioso que fosse, já não acreditava mais nas palavras da Bíblia. Mas, como dizer isso a si mesmo e ao mundo, em pleno século 19? Consciente da situação, num diálogo, Darwin diz a Huxley: “vivemos numa sociedade que é mantida coesa pela Igreja”.</p>
<p>Sua razão não deixava mais espaços para o criacionismo. E isso o atormentava.</p>
<p>Enquanto Huxley insistia para que o cientista continuasse seus estudos e reafirma que “nosso comportamento evolui de acordo com nossas necessidades. E então, ao longo do tempo, perdemos aquelas partes que não eram mais necessárias. Como o apêndice, o mamilo do macho e, por fim, a crença redundante num Todo-Poderoso”.</p>
<p>Em meio aos estudos e suas experiências genéticas, o filme enfoca o ser humano Darwin, homem jovem que vive imensos conflitos com a morte de sua filha preferida de 10 anos. Peso que lhe arrebatará até os últimos dias de sua vida.</p>
<p><a href="http://cinezencultural.com.br/site/2012/01/12/criacao-selecao-pela-sobrevivencia/"><em>Clique aqui para assistir o vídeo inserido.</em></a></p>
<p>Para que a vida tenha sentido, caminhamos por um chão invisível, que nos sustenta formado por respostas metafísicas como quem somos, de onde viemos e para onde vamos. Muitos livros, principalmente religiosos, nos dão o cimento para esse chão, mas quando Darwin lançou “A Origem das Espécies”, fez com que esse piso ruísse&#8230;</p>
<p>Em uma cena fabulosa, diante do baú onde estão guardados os manuscritos do livro, num conflito interno entre publicar e abalar as estruturas do mundo e deixá-lo escondido, pela pressão imposta pelos valores religiosos de sua esposa, Darwin fala para a filha: “Suponha que o mundo parasse de acreditar que Deus tenha um plano para nós. Que nada importava. Nem o amor, nem a confiança, nem a fé. E nem a honra. Apenas a sobrevivência bruta. Além de tudo mais partiria o coração de sua mãe”.</p>
<p>Curiosidade: Um dos cartazes de divulgação traz uma foto em que aparece o jovem Darwin tocando o dedo com um chipanzé. Uma referência às pinturas da Capela Sistina (de Michelangelo), em que Deus dá o toque da criação.</p>
<p><strong><img class="alignright size-full wp-image-35656" title="criacaoposter" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2012/01/criacaoposter1.jpg" alt="" width="189" height="266" />CRIAÇÃO</strong><br />
<em>(Creation, Reino Unido, 2009).</em><br />
Direção: Jon Amiel.<br />
Roteiro: John Collee, Randal Keynes.<br />
Elenco: Jennifer Connelly, Paul Bettany, Jeremy Northam, Toby Jones, Jim Carter, Benedict Cumberbatch, Teresa Churcher, Pauline Stone, Martha West, Zak Davies, Harrison Sansostri, Christopher Dunkin.<br />
Drama biográfico.<br />
108 minutos.</p>
<p><em>O filme integra o acervo da <a href="http://www.videoparadiso.com.br">Vídeo Paradiso</a>.</em></p>
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		<title>Homens e Deuses retrata o bem em meio a guerra</title>
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		<pubDate>Wed, 11 Jan 2012 02:57:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adriano Mello Costa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Home Vídeo]]></category>
		<category><![CDATA[Homens e Deuses]]></category>
		<category><![CDATA[Jacques Herlin]]></category>
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		<category><![CDATA[Xavier Beauvois]]></category>

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		<description><![CDATA[Filme recebeu prêmio do júri em Cannes]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-28163" title="homensedeuses1" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2011/05/homensedeuses1.jpg" alt="" width="698" height="374" /></p>
<p>No meio dos anos 90, em um mosteiro incrustado nas montanhas da Argélia, um pequeno grupo de monges franceses vive para ajudar a pobre população que mora nas aldeias em sua volta. Esses missionários que buscam praticar o bem, guiados pela fé, também precisam conviver diariamente no seu mundo completo e encharcado de rotina. Mesmo em uma região predominantemente muçulmana, conseguem ser aceitos e respeitados pelos habitantes.</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-28165" title="homensedeuses2" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2011/05/homensedeuses2-300x222.jpg" alt="" width="300" height="222" />O filme “Homens e Deuses” é o mais recente trabalho do diretor francês Xavier Beavouis (que também se aventura como ator vez ou outra) e baseado em cartas dos monges, reconstrói a obra desses homens nesse período complicado da Argélia. Enquanto praticavam seus atos, os religiosos precisam lidar com uma guerra civil e acabam se colocando na frente da linha de fogo entre os terroristas e o governo que atua de modo não menos violento.</p>
<p>“Homens e Deuses” foi o vencedor do Grande Prêmio do Júri de Cannes em 2010 e, apesar de não ser um filme excelente, cumpre muito bem seus objetivos e traz no corpo atuações consistentes e uma direção sóbria. Em vários momentos o longa poderia caminhar na estrada da comparação entre religiões e levantar a bandeira da paz de modo esplêndido. No entanto, opta por versar sobre a intolerância que se opõe sobre a bondade e a compaixão.</p>
<p><a href="http://cinezencultural.com.br/site/2012/01/11/homens-e-deuses/"><em>Clique aqui para assistir o vídeo inserido.</em></a></p>
<p>No momento em que o clima tenso se instala na película (e resolve não sair mais) e os monges se vêem acossados perante as duas frentes do conflito, a sensação de medo e desconforto consegue chegar com impacto relevante ao telespectador. A questão que se coloca não é a força em si de pessoas se opondo ao que acham injusto, mas a força de acreditar nos seus ideais e não vendê-los, por mais que a situação não seja nem um pouco favorável.</p>
<p>Enquanto uma boa parte do mundo continua no caminho de conflitos religiosos que não levam a nada, a não ser conquistas pessoais para um pequeno grupo de privilegiados, “Homens e Deuses” fala até poeticamente sobre como isso não faz nenhum sentido em qualquer cenário que se apresente. E em passagens como quando uma execução do “Lago Dos Cisnes”, de Tchaïkovsky, toca durante uma refeição, consegue a proeza de emocionar fortemente.</p>
<p><strong><br />
<img class="alignright size-medium wp-image-28162" title="homensedeuses" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2011/05/homensedeuses-204x300.jpg" alt="" width="204" height="300" />HOMENS E DEUSES</strong><br />
<em>(Des hommes et des dieux, França, 2010).</em><br />
Direção e roteiro: Xavier Beauvois.<br />
Elenco: Lambert Wilson, Michael Lonsdale, Olivier Rabourdin, Philippe Laudenbach, Jacques Herlin.<br />
Drama / História.<br />
122 minutos.</p>
<p><strong><span style="color: #800000;">Principais prêmios e indicações:</span><br />
</strong><br />
- Cannes: Prêmio ecumênico do júri.<br />
- Crítica de Londres: Filme em língua estrangeira do ano.<br />
- Indicação ao European Film Awards: Filme, Fotografia.<br />
- Indicação ao Bafta: Filme em língua estrangeira.<br />
- Indicação ao Independent Spirit Awards: Filme estrangeiro.</p>
<p><em>Estreia no Brasil: 15/04/2011.</em></p>
<p><em>Lançamento em DVD e Blu-ray: 12/01/2012.</em></p>
<p>O filme integra o acervo da <a href="http://www.videoparadiso.com.br">Vídeo Paradiso</a>.</p>
<p><em>Leia mais sobre e comente o filme também no <a href="http://www.cinemaki.com.br/Homens-e-Deuses/p/33251">Cinemaki</a>.</em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Anatomia do Medo: Kurosawa reflete sobre as armas de destruição em massa</title>
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		<pubDate>Mon, 09 Jan 2012 02:01:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[50 Anos de Filmes]]></category>
		<category><![CDATA[Clássicos & Cults]]></category>
		<category><![CDATA[Outros destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Akira Kurosawa]]></category>
		<category><![CDATA[Anatomia do Medo]]></category>
		<category><![CDATA[Takashi Shimura]]></category>
		<category><![CDATA[Toshiro Mifune]]></category>

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		<description><![CDATA[Em alguns aspectos, drama é um tanto datado, mas gênio é gênio]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-35568" title="anatomia1" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2012/01/anatomia1.jpg" alt="" width="600" height="450" /></p>
<p>Em “Anatomia do Medo”, de 1955, o grande Akira Kurosawa faz o espectador refletir sobre as armas que a humanidade construiu e que têm o poder de, simplesmente, aniquilá-la.</p>
<p>1955 – dez anos depois que os americanos lançaram as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, sete anos antes da crise dos mísseis soviéticos em Cuba, provavelmente o momento em que se esteve mais próximo de um confronto nuclear que poderia ter extinguido com a vida no planeta.</p>
<p>O perigo de um holocausto nuclear final pode parecer hoje para muita gente uma coisa antiga, distante, improvável – apesar dos Ahmedinejads, do eterno conflito israelenses-árabes, do outro eterno conflito Índia-Paquistão, do desconhecimento geral sobre o que exatamente aconteceu com as ogivas nucleares após o desmantelamento do império soviético (o tema dos belíssimos e apavorantes “O Senhor das Armas” e “PU-234”).</p>
<p>E, em alguns aspectos, “Anatomia do Medo” é um filme um tanto datado, envelhecido. Mas gênio é gênio. As obras dos gênios são sempre atuais. Ao revê-lo agora, fiquei pensando que, se trocarmos o pavor do protagonista com a iminente destruição do planeta pelas armas atômicas pela destruição do planeta que estamos promovendo celeremente com os ataques ao ambiente, temos que o filme de Kurosawa é de uma atualidade impressionante.</p>
<p><strong>O protagonista está decidido a emigrar para o distante Brasil</strong></p>
<p><img class="alignright size-medium wp-image-35571" title="anatomia2" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2012/01/anatomia2-300x218.jpg" alt="" width="300" height="218" />O senhor Nakajima (interpretado por Toshiro Mifune, sempre ele, o maior ator japonês do século XX) está apavorado com a possibilidade de novas explosões atômicas. Apavorado, petrificado, paralisado de medo. Obcecado – talvez doentiamente obcecado. Andou lendo, pesquisando; chegou à conclusão de que o lugar mais inseguro para se viver, diante da ameaça de novas bombas atômicas, é o Japão, e, ao contrário, o lugar que menos sofreria, o lugar mais imune ao perigo atômico, é a América do Sul, mais especificamente um país chamado Brasil, mais especificamente ainda um pedaço do Brasil chamado São Paulo, para onde já haviam nas décadas anteriores emigrado (por outros motivos, é claro) hordas de japoneses.</p>
<p>Está decidido a emigrar para o Brasil.</p>
<p>Nakajima é um empresário, com algum, ou bastante, dinheiro. É o dono de uma grande fundição que leva seu nome, e emprega muitas dezenas de pessoas.</p>
<p>Homem de posses numa sociedade tradicionalista, machista, ele é o patriarca inconteste de sua família – uma mulher submissa, três filhos homens, uma filha mulher. Mas não apenas isso. Como ele mesmo dirá:</p>
<p>- “Pois é, além deles, eu sustento outras cinco pessoas: duas concubinas, seus dois filhos e o filho de uma outra que já morreu.”</p>
<p>Nakajima está disposto a levar todos eles – a mulher, os filhos, o marido da filha, as concubinas, os filhos bastardos – para o Brasil, para fugir da ameaça nuclear.</p>
<p><strong>Um Japão que se modernizava, pessoas com roupas ocidentais, carros, bondes</strong></p>
<p>Kurosawa abre sua narrativa não com Nakajima, mas com o dr. Harada (Takashi Shimura). Na verdade, as primeiras imagens que vemos, ao longo dos créditos iniciais, não são de personagens, mas do Japão urbano daquela época, 1955, dez anos após as bombas de Nagasaki e Hiroshima, após a capitulação do Império Japonês em agosto de 1945, que pôs fim à Segunda Guerra Mundial. Enquanto rolam os créditos iniciais, vemos tomadas de ruas de Tóquio – superpovoadas de gente em trajes ocidentais, homens de paletó e gravata, mulheres de saias e vestidos como os ocidentais, muitos carros, muitos bondes, enquanto ouvimos uma trilha sonora que é um jazz bastante semelhante ao que era comum nos Estados Unidos no início dos anos 50.</p>
<p>Assim que terminam os créditos iniciais, vemos o dr. Harada, um dentista, que divide seu consultório com o filho. O dr. Harada havia se oferecido para trabalhar como juiz em um dos muitos tribunais de pequenas causas familiares – litígios sobre patrimônio, herança, separação. Naquele início de narrativa, recebe uma convocação para comparecer ao tribunal, para cuidar de uma disputa familiar.</p>
<p>Os filhos de Nakajima haviam forçado a mãe a entrar, ao lado deles, com uma petição no tribunal para considerar o patriarca inabilitado. Estaria ele velho, insano, incapaz de tomar decisões sobre seus bens.</p>
<p>Ao tribunal comparecem também as outras mulheres e filhos de Nakajima. Querem ter seus direitos assegurados.</p>
<p>O tribunal é composto por três juízes. O dr. Harada é um deles.</p>
<p><strong>Uma forma de interpretar que é completamente diferente da ocidental</strong></p>
<p><img class="alignright size-medium wp-image-35573" title="anatomia3" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2012/01/anatomia3-300x218.jpg" alt="" width="300" height="218" />Uma palavrinha sobre Toshiro Mifune.</p>
<p>Se a gente cedesse à tentação de fazer uma comparação, Toshiro Mifune estaria assim para Akira Kurosawa como John Wayne esteve para John Ford. Ou talvez Jean-Pierre Léaud para François Truffaut.</p>
<p>Não sei compreender a interpetação de atores japoneses – e ousaria dizer que qualquer ocidental que disser que entende a forma com que atuam os atores japoneses está mentindo. É um jeito diferente – não tem nada a ver com o que entendemos como interpretação.</p>
<p>Todos, absolutamente todos os códigos são diferentes.</p>
<p>Toshiro Mifune bufa feito um cavalo, uma mula, ao longo de todo o filme.</p>
<p>Se fôssemos comparar com um ator ocidental, Toshiro Mifune seria algo parecido com o pior Jim Carrey, na sua atuação mais careteira. Acontece que aquilo é outro mundo, outro planeta, outra realidade, outra forma de interpretar.</p>
<p>Toshiro Mifune tinha apenas 35 anos quando interpretou o velho senhor Nakajima. E a verdade é que ele, ajudado por excelente trabalho de maquiagem, parece ser um velho, alquebrado, curvado sob o peso dos anos e do medo da bomba. Parece, não: é um velho.</p>
<p><strong>Questões familiares complexas, numa sociedade que não entendemos</strong></p>
<p>Não é nada fácil, para nós, ocidentais, compreendermos o funcionamento, a dinâmica, os valores da sociedade japonesa – seja hoje, na Idade Média, ou em 1955.</p>
<p>As questões familiares daquele patriarca que tem uma família constituída formalmente mais três outras informais são complexas, de difícil compreensão. O filme do mestre Kurosawa, no entanto, foi feito de tal maneira que não dificulta muito o entendimento do que acontece. No mínimo, não a torna ainda mais difícil do que naturalmente já seria.</p>
<p>Mesmo assim, não é uma tarefa muito simples acompanhar as questões daquela família múltipla, em muito diferente da realidade à qual estamos acostumados. E o esforço necessário para tentar compreender as relações familiares acaba diluindo o principal: a questão básica do medo, do pavor daquele homem diante da ameaça à vida no seu país.</p>
<p><strong>O cineasta mais universal, mais shakespeariano de todos os grandes mestres</strong></p>
<p>O personagem do dr. Harada ajuda, e muito, a tornar a narrativa mais facilmente compreensível. É um personagem que está muito acima das diferenças culturais. É universal, o dentista que se ofereceu para trabalhar como juiz de família – um homem bom, honesto, que procura desesperadamente ser justo, compreender as diferentes questões, as diferentes visões de Nakajima e de seus familiares.</p>
<p>Os questionamentos que o dr. Harada faz são absolutamente universais, de fato muito acima das diferenças entre uma civilização e outra. São os questionamentos básicos, fundamentais – presentes na tragédia grega, na tragédia (e na comédia) shakespeariana.</p>
<p><img class="alignright size-medium wp-image-35575" title="anatomia4" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2012/01/anatomia4-300x218.jpg" alt="" width="300" height="218" />É para o dr. Harada que o médico dirá a frase que define a moral do filme:</p>
<p>- “Sempre que vejo este paciente fico muito abatido. É a primeira vez que isso acontece comigo. Sempre que o vejo, de alguma forma sinto-me estranhamente inquieto, embora eu é que supostamente deveria estar são. Ele é louco? Ou loucos seremos nós, que conseguimos ficar impassíveis diante deste mundo insano?”</p>
<p>A sensação que tive ao rever “Anatomia do Medo”, poucos dias depois de rever “Rashomon”, é de que, de fato, Akira Kurosawa é o mais universal, o mais shakespeariano dos grandes realizadores das primeiras sete, oito décadas do cinema. É o artista que aborda em suas obras todos os sentimentos, todas as emoções humanas.</p>
<p>Outro dia li um trecho de um texto de Roger Ebert em que ele fala dos maiores cineastas da história: “Bergman obtém sua grandeza através do pensamento e do exame das almas. Hitchcock criava com meticulosa ourivesaria, e Buñuel usava seus fetiches e fantasias para construir piadas a respeito da humanidade. Mas Fellini… bem, fazer cinema para ele parece algo quase sem esforço, como respirar, e ele pode orquestrar as cenas mais complicadas com pureza e facilidade.”</p>
<p>Para mim, qualquer lista dos maiores artistas que se expressaram através do cinema – os grandes mesmos, os básicos, os fundamentais – teria que incluir Bergman, é claro, o cineasta das questões filosóficas, metafísicas; Satyajit Ray, o cineasta da responsabilidade social de cada pessoa, da necessidade de combater sempre, a cada dia, todas as formas d corrupção; e Akira Kurosawa, o cineasta que trata de todas as emoções humanas.</p>
<p><strong><img class="alignright size-full wp-image-35565" title="anatomiadomedo" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2012/01/anatomiadomedo.jpeg" alt="" width="191" height="270" />ANATOMIA DO MEDO</strong><br />
<em>(</em><em>Ikimono No Kiroku, Japão, 1955).</em><br />
Direção:<strong> </strong>Akira Kurosawa.<br />
Roteiro: Shinobu Hashimoto, Fumio Hayasaka, Akira Kurosawa.<br />
Elenco: Toshiro Mifune (Kiichi Nakajima), Takashi Shimura (Dr. Harada), Minoru Chiaki (Jiro Nakajima), Eiko Miyoshi (Toyo Nakajima), Kyôko Aoyama (Sue Nakajima), Haruko Tôgô (Yoki Nakajima), Noriko Sengoku (Kimie Nakajima).<br />
Drama.<br />
103 minutos.</p>
<p>- Concorreu à Palma de Ouro em Cannes.<em><br />
</em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Super 8: Divertida homenagem às aventuras juvenis dos anos 80 e Spielberg</title>
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		<pubDate>Wed, 04 Jan 2012 09:08:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jean Garnier</dc:creator>
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		<description><![CDATA[J.J. Abrams mistura <em>Os Goonies</em>, <em>Conta Comigo</em> e <em>Contatos Imediatos</em>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-32784" title="" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2011/08/super8.1.jpg" alt="" width="696" height="467" /><br />
Juntar uma cidade interiorana norte-americana que tem a rotina ameaçada pela presença de um extraterrestre, com um grupo de garotos liderados por um protagonista que sofre a perda de um parente, e adultos com lanternas que demoram a perceber coisas estranhas acontecendo em uma produção de Steven Spielberg pode parecer um tanto familiar. Sim, “Super 8” mistura mais uma vez tudo isso e carrega uma forte nostalgia rodeada por um inocente espírito juvenil.</p>
<p><img class="size-medium wp-image-32789 alignleft" title="super8.2" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2011/08/super8.2-300x193.png" alt="" width="300" height="193" />A história se passa no ano de 1979, em uma cidade fictícia de Ohio, nos Estados Unidos: Joe Lamb (Joel Courtney), 13 anos, perdeu a mãe num acidente. O seu pai,  xerife Jackson Lamb (Kyle Chandler), culpa indiretamente Louis Dainard (Ron Eldard) por estar ausente durante o turno fatídico.</p>
<p>Quatro meses após, Joe e seus amigos, Charles Kaznyk (Riley Griffiths), Alice Dainard (Elle Fanning), Preston (Zach Mills), Martin (Gabriel Basso) e Gary (Ryan Lee) estão envolvidos na produção de um típico filme B sobre zumbis. Durante as filmagens em uma antiga estação de trem, uma pick-up descontrolada se enfia nos trilhos provocando um enorme descarrilamento e os vagões começam a desabar como se fossem peças de dominó.</p>
<p>Nos rescaldos dos destroços, os jovens encontram diversos cubos que ao mesmo tempo são misteriosos e inofensivos.  Ao avistarem o veículo que provocou a catástrofe, vêem o professor de biologia deles, Dr. Woodward (Glynn Turman), ao volante. Em tom ameaçador, Woodward  aponta um revolver pedindo para que ninguém fale nada sobre o que aconteceu. As crianças, que estavam ali apenas pela paixão de eternizar algumas cenas, acabam caindo por acidente em uma experiência cientifica desconhecida.</p>
<p><a href="http://cinezencultural.com.br/site/2012/01/04/super-8-divertida-homenagem-as-aventuras-juvenis-dos-anos-80-e-spielberg/"><em>Clique aqui para assistir o vídeo inserido.</em></a></p>
<p>Nos próximos dias,  ao mesmo tempo em que a cidade começa a conviver com notícias desencontradas sobre o trem, alguns fenômenos começam a acontecer:  Cães fogem, fios elétricos e pessoas somem. Em tom misterioso, o exército passa por cima do poder de Jackson e se diz tomar conta da situação.</p>
<p>Não há nada de revolucionário ou inesquecível.  J.J. Abrams (“Lost”) escreveu e dirigiu “Super  8” com um ritmo rápido e ágil, transformando todas as referências &#8211; que incluem, além de “E.T.”, pitadas de “Os Goonies” e “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” &#8211; em uma divertida e interessante homenagem a Spielberg.</p>
<p><strong><img class="alignright size-full wp-image-35461" title="Super-8" src="http://cinezencultural.com.br/site/wp-content/uploads/2011/08/Super-8.jpg" alt="" width="200" height="248" />SUPER 8</strong><br />
<em>(Idem, EUA, 2011).</em><br />
Direção e roteiro: J.J. Abrams.<br />
Elenco: Joel Courtney, Elle Fanning, Kyle Chandler, Riley Griffiths, Ryan Lee, Joel McKinnon Miller, Noah Emmerich, Glynn Turman, David Gallagher, Ron Eldard.<br />
Ação /Ficção científica.<br />
112 minutos.</p>
<p><em>Estreia no Brasil: 12/08/2011.</p>
<p>Lançamento em DVD e Blu-ray: 05/01/2012.</p>
<p>O filme integra o acervo da <a href="http://www.videoparadiso.com.br">Vídeo Paradiso</a>. </em></p>
<p><em>Leia mais sobre e comente o filme também no <a href="http://www.cinemaki.com.br/Super-8/p/22200">Cinemaki</a>.</em></p>
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