Tempo que Resta, O
Por André Azenha (24/03/2009) // ComentePor: Flávio Amoreira Viegas
O Tempo que Resta (Le Temps qui Reste, França, 2005). Direção e roteiro: François Ozon. Roteiro: Elenco: Melvil Poupaud, Jeanne Moreau, Valeria Bruni Tedeschi, Daniel Duval. Drama. 85 min. (Cor).Â
Um filme ou livro que nos redime do desencanto são chaves que carregamos sempre para confrontação com as sombras: lembro ter assistido ‘’O Tempo que resta’’ de François Ozon por 4 vezes e em DVD ele se torna fita de cabeceira. Admiro a civilização francesa que trata do tema fundamental que o capitalismo e a futilidade tentam driblar: a Morte. Uma trama simples, enredo conciso: fotógrafo no auge da beleza (franceses conseguem ser concomitantemente belos e profundos), ligado ao mundo ‘fashion’ e gay ‘cult’ descobre ter 2 meses de vida: o mundo não desaba, ele se liga ao essencial que passava despercebido e se integra ao mais divino elemento natural: o Oceano, o mar tão uterino sÃmbolo reflexo do infinito. Transponho o drama Ãntimo do personagem para o mundo que vivemos: explosão demográfica em paÃses miseráveis, a ausência descarada de medidas que evitem o apocalipse ambiental que bate à porta e a glamourização da estupidez com ares de pretensa sofisticação.
Enquanto o planeta pede socorro, a China se americaniza implodindo milenar sabedoria com os excessos do luxo, a América está mais preocupada com torrar petróleo que com efeito estufa, enquanto no Brasil a burguesia emergente revive tardiamente hábitos caretÃssimos: já que não lê ou pensa, diverte-se entre festas de debutantes ou degustação de vinho como escape substitutivo do seu vazio e decadência intelectual. Nunca me passou pela cabeça que jovens urbanos fossem se ligar em música sertaneja. A vida inteligente se fecha em guetos, a solidão cultural e espiritual serão fardo kármico para aqueles que ainda pensam, interagem cosmicamente e não seguem o rebanho em direção à manada do mercado e da artificialidade.Â

Diante do inevitável desaparecimento pessoal ou coletivo, mais que nunca devemos agir, encantar o momento, vivenciar paraÃsos terrenos e fazer do cotidiano a utopicamente real poetização da existência. Uma das cenas mais fortes em ‘’O tempo que resta’’ é a despedida entre protagonista e a avó espiritualmente sofisticada: Jeanne Moreau encarna todo ceticismo e resignação com uma sociedade tão desumanizada e convencional.
InesquecÃvel a célebre entrevista que essa admirável Jeanne Moreau fez com a já então centenária diva do cinema mudo Lilian Gish: perguntando à atriz americana qual melhor legado que deixaria para um filho ou à qualquer jovem querido, essa deu resposta antológica: ‘’ a melhor herança é curiosidade, interesse profundo’’. Desanima ver que a leitura dos jornais tornou-se hábito para adultos, profissionais liberais sem nenhum conteúdo além de suas especialidades e uma geração que cresce despolitizada, sem compaixão social e inebriada pela ascensão material.
Cultura é a libido da Alma: enquanto fixados na superfÃcie do besteirol, os alienados ou reacionários travestidos de ‘descolados’ tornam-se impotentes diante das verdades eternas: viver como aprendizado ao desenlace, o desapego, a elevação através da Arte como religião laica, a observação do espetáculo que o horizonte no crepúsculo apresenta como metáfora do adeus… Para um libertário confesso, desprovido de preconceitos, já que todo preconceito é burro, só ela mesma a burrice ornada de falso brilhante ainda incomoda. Assistir à ‘’O tempo que resta’’ me comove como ler Dostoievski fechando o belÃssimo conto ‘’Noites Brancas’’: ‘’Um minuto inteiro de felicidade! Mas não é bastante para toda uma vida de um homem’’?
Persisto retendo o instante, questionando o fugaz. Apesar da descrença na redenção, existe reposição de estoque: ainda surgem anjos que iluminam o tempo que resta… esses que nos movem fazendo amanhecer por dentro.Â


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