5º Curta Santos
Por André Azenha (27/12/2008) // ComenteFotos: Rafael Ponzio e divulgação
Matéria originalmente publicada no site PoppyCorn em 19/09/2007

Entre os dias 17 e 22 de setembro, aconteceu em Santos, litoral paulista, a quinta edição do Festival Santista de Curtas-Metragens, o Curta Santos, evento organizado e idealizado pelo agitador cultural Toninho Dantas. Como de praxe, a abertura contou com artistas conhecidos, incluindo Mama Bruschetta e a atriz Cris Nicolotti – aquela da música “Vai tomar no cú” – que deixaram o ator e curador da noite José Rubens Chachá um pouco bravo, André Abujamra (autor de várias trilhas de filmes) e banda iniciando as festividades, políticos do município (que passaram por várias saias justas), patrocinadores e cinéfilos de todas as partes. A cerimônia foi realizada no bonito Teatro Coliseu, praticamente lotado.
A cerimônia, cujo tema foi “Identidade e Diversidade Cultural”, começou com um pouco de atraso e figuras importantes da sétima arte foram homenageadas – o patrono foi Sérgio Mamberti (que fez discurso emocionante e lembrou seu trabalho com os índios no Ministério da Cultura), e também receberam prêmios os atores Édson Celulari, Julia Lemmertz (premiada com o troféu nomeado Lilian Lemmertz, sua falecida mãe) e o diretor Beto Brant, autor de ótimos filmes como “O Invasor” e “Cão Sem Dono”.
Também não podia ser esquecida toda a produção do filme “Querô”, atualmente em cartaz no circuito nacional. A obra, dirigida por Carlos Cortez e com elenco praticamente formado por crianças carentes de Santos, integrantes das oficinas Querô, obteve menção especial. O cineasta e vários meninos subiram ao palco, enchendo o local de ponta a ponta e causando emoção nos presentes. “O coroamento do trabalho que fizemos aqui, que demorou três anos. Eu acho isso daí muito legal, não só o reconhecimento que a gente está tendo, mas o reconhecimento que os meninos estão tendo. Todo o mundo é unânime em achar que o elenco jovem do filme é o ponto alto e todos eles são daqui da Baixada, todos são meninos muito talentosos e que estavam esquecidos por aí”, diz com alegria o diretor. A atriz Dira Paes foi outra lembrada pela sua atuação no Festival de Belém.
Além da abertura, o evento percorreu universidades, ruas e salas de cinema do município, onde foram assistidos mais de cem curtas-metragens e uma centena de vídeo clipes, mais a projeção dos longas de Beto Brant, “O Invasor” e “Crime Delicado”, de maneira gratuita, no Cinearte Posto 4, ponto de encontro de cinéfilos alheios ao cinema mainstream. O Prefeito da cidade, João Paulo Tavares Papa, diz os benefícios do Curta para a região. “Olha, a área que mais cresce e que mais permeia as comunidades até nas periferias da cidade é a área cultural. Nós começamos assim, uma fase na cultura, com a reinaugurração do Coliseu, e estamos resgatando o teatro Guarani, o mais antigo da cidade. Criamos novos centros culturais. Um na Zona Noroeste, que é o Centro da Juventude, e agora estamos entregando um segundo centro cultural no morro do São Bento. Estamos aproveitando todos os espaços, todos, sem exceção, escolas, igrejas, clubes, todos os espaços disponíveis que podem se transformar em espaços culturais, até praças e ruas”, comenta.
Já a comemoração de encerramento, quando os vencedores foram anunciados, aconteceu na quadra da escola de samba União Imperial e teve show da cantora Luciana Mello.
Abaixo, seguem os ganhadores e entrevistas exclusivas com o diretor Carlos Cortez e os atores Sérgio Mamberti, Édson Celulari, Julia Lemmertz e Dira Paes. E o Curta Santos cada vez mais se fortalece no circuito cultural tupiniquim.
Vencedores
35 mm – PUGILE, de Danilo Solferini
16 mm – BORRALHO, de Arturo Saboia e Paulo Barbosa
Vídeo/Digital – PORCOS NÃO OLHAM PARA O CÉU, de Daniel Marvel
Olhar caiçara – MARIA CAPACETE (destaque na foto acima), de Eduardo Bezerra e Victor Luiz
Vídeoclipe Brasilis – ELA VAI VOLTAR – Charlie Brown Jr. – Ludmilla Rossi / Afonso Poyart
Vídeoclipe Caiçara – SEM DIREÇÃO – KM 79 – Alex Cechetti e Alexandre Volpe
Entrevista – Carlos Cortez (diretor do filme “Querô”)

Após três anos de produção, o filme “Querô”, adaptação de texto de Plínio Marcos, chegou aos cinemas e arrebatou elogios da crítica e prêmios em festivais nacionais. O elenco, formado por jovens da cidade de Santos, foi treinado especialmente para o filme, assim como ocorreu em “Cidade de Deus”. Em papo exclusivo, o diretor do longa Carlos Cortez fala da obra, das comparações com o filme de Fernando Meirelles e da importância do curta-metragem na formação do cineasta.
Como está sendo essa repercussão do filme?
Carlos - O coroamento do trabalho que fizemos aqui, que demorou três anos. Eu acho isso daí muito legal, não só o reconhecimento que a gente está tendo, mas o reconhecimento que os meninos estão tendo. Todo o mundo é unanime em achar que o elenco jovem do filme é o ponto alto do filme e todos eles são daqui da baixada, todos são meninos muito talentosos e que estavam esquecidos por aí.
O fato do elenco jovem ter sido treinado fez gerar comparações com Cidade de Deus até pelo texto forte. Como o senhor recebeu esse tipo de comparação?
Carlos - Olha, o pessoal têm comparado com “Pixote”… Eu acredito o seguinte. “Pixote”, “Lúcio Flávio”, os filmes do Babenco, são filmes que marcaram minha formação, meu jeito de enxergar cinema. No caso do “Cidade de Deus” é um pouquinho mais além. O Fernando Meirelles já tinha feito essa experiência. O Braulio Mantovani, que fez o roteiro do “Cidade de Deus” e que me ajuda no roteiro do “Querô”, já tinha feito essa experiência e eu não queria inventar a roda. Fui lá, conversei bastante com eles como é que foi. Trocamos uma idéia legal e eu acho que o “Querô” tem muito da vontade deles, do apoio deles.
Como foi trazer Plínio Marcos para o cinema? O senhor pesquisou peças, adaptações de textos dele?
Carlos - Sim, pesquisei tudo e fundamentalmente eu já conhecia o Plínio Marcos. Conversei com ele várias vezes sobre o Querô”. Acho que foi um desafio. As pessoas não conheciam o Plínio Marcos delicado, solidário e no filme a gente fez esse corte que foi demonstrar um Plínio Marcos muito diferente do que as pessoas imaginam.
O filme já ganhou prêmios. Quais as expectativas para o futuro do filme? Mais premiações, mostras internacionais?
Carlos - Olha, a gente já participou de três festivais no Brasil, em Brasília, Cuiabá e o Cine Ceará, festival ibero-americano de Fortaleza, e já ganhamos três prêmios nos três festivais. Ganhamos quatro prêmios em Brasília, seis em Cuiabá e três em Fortaleza. Acho que aqui no Brasil já fizemos a carreira que queríamos. Espero lá fora o filme ser aceito em alguma mostra.
Qual o papel do curta-metragem na formação do cineasta. Qual o benefício que um tipo de evento desses traz pra cidade e para o cinéfilo?
Carlos - O curta-metragem é fundamental pra formação de qualquer cineasta. Não como trampolim, nem como cartão de visitas, mas para exercitar a linguagem, saber lidar com ela, saber criar em cima dela. É fundamental. Acho importante o Curta Santos. Estou aqui e já estive aqui várias vezes e acho muito importante, junto com o festival de teatro amador de Santos, são os eventos mais importantes do ponto de vista cultural.
Entrevista – Sérgio Mamberti

Justiça foi feita. Artista de longa data, Sérgio Mamberti pode ser considerado atualmente um exemplo para jovens atores. Escolhido como patrono do evento, o artista falou exclusivamente sobre a homenagem, lembrou momentos no Teatro Coliseu e comentou sua participação em projeto do Ministério da Cultura.
Como é ser homenageado num festival como esse e qual o papal do evento para quem está começando no cinema?
Sérgio - Estou muito feliz, acompanho o Curta Santos desde o início, já estive em mais de uma edição do evento, e acho que o espaço do curta é um espaço de muita criatividade e é o grande exercício do jovem diretor. E hoje o Curta realmente espelha nossa diversidade. Tem uma grande abrangência e ser homenageado num evento como esse, que tem um olhar no passado mas projeta o futuro, fico muito honrado. É praticamente uma revisitação do universo que deu origem ao artista que eu sou, aqui no teatro Coliseu, foi onde eu tive alguns dos momentos mais emocionantes da minha vida. Vi Villa Lobos neste palco, Orquestra Sinfônica Brasileira, Tonia Carrero e Paulo Autran, Otelo, vi a Conferência de Teatro Doutor Alfredo Mesquita da Escola de Arte Dramática que me levou a fazer teatro, vi as grandes comédias populares do cinema brasileiro, Oscarito, Grande Otelo, vi também a decadência e por fim, já no finalzinho, um pouco antes de fechar, ainda fiz um espetáculo aqui, que foi do Chibo Buarque, acho que em 1980, ou comecinho de 81, depois disso, esperamos longamente pela sua recuperação, estive no dia da reinauguração como não poderia deixar de estar. E nesse momento que sou homenageado, duma certa maneira estou revivendo tudo isso, revivendo todas as emoções e muito feliz de estar justamente no âmbito de um evento que fala da diversidade cultural que é meu tema no ministério que fala do meu futuro.
Quais os projetos para o fim do ano?
Sérgio - Está estreando um filme meu que é “O Homem que Desafia o Diabo”. Meus projetos pro resto do ano por enquanto estão todos no plano do ministério da cultura. Nós estamos trabalhando com as culturas indígenas. Estamos lançando agora uma grande campanha de valorização da cultura indígena, uma peça de 30 segundos vai começar a ser exibida, o ministro estará lançando essa campanha amanhã (dia 18) nacionalmente.
Entrevista – Édson Celulari

O ator global dispensa apresentações. Esbanjando vigor e simpatia, não se rogou a tocar bumbo junto com a escola de samba no palco e falou da sua encarnação no teatro para o clássico “Dom Quixote”.
Como é ser homenageado no evento e qual o papel do curta na formação do profissional de cinema?
Édson - Eu acho lindo o evento, eu não sabia que tinha esse porte, esse nível de organização, acho que merece uma visibilidade muito maior do que tem a nível nacional. Acho que a cidade está se preparando pra fazer crescer esse festival ainda mais. E isso é muito saudável pra cidade, pro cinema, praqueles que querem iniciar uma carreira, que pode ser um caminho, o curta é fundamental mesmo praqueles que queiram só fazer curta, é menos oneroso, agora não sei porque estou sendo homenageado, mas eu aceito com o maior carinho.
Quais os projetos pro fim do ano?
Édson - Estou com o “Dom Quixote de Lugar Nenhum”, que é uma adaptação do livro do Servantes, feita pelo Rui Guerra, nós estamos no teatro Frei Caneca, até primeira semana de outubro e é um espetáculo lindo, enfim, que ele instalou a história de um personagem universal, o Quixote, no Nordeste do Brasil. E estou iniciando uma novela a partir de novembro, pela Rede Globo, chamada Beleza Pura, das 19h que estréia no verão de 2008.
Entrevista – Julia Lemmertz

Filha de peixe, peixinho é, e coincidência ou não, a atriz, que ficou sentada ao lado do sogro, Tanah Correa (figurinha carimbada em todas as edições do Curta), pai de Alexandre Borges, ganhou troféu com nome da mãe, Lilian Lemmertz e comentou o papel do curta-metragem na carreira do profissional de cinema, sétima arte no Brasil e projetos.
Qual a importância do curta-metragem para o cineasta?
Julia - O cinema você aprende fazendo como o teatro e tudo na vida, tem que se exercitar pra poder fazer, o curta-metragem existe pra exercitar suas idéias num curto espaço de tempo, fazer coisas bacanas, e o festival incentiva isso também. Acho que é um exercício fundamental pra diversidade e pra continuidade do cinema, aparecerem novas pessoas, novos diretor, equipe, atores, dá espaço pra todo o mundo.
Como você enxerga o atual momento do cinema brasileiro? Quais seus próximos projetos?
Julia - O atual momento do cinema brasileiro eu vejo com muito otimismo, porque eu sou uma pessoa otimista. Acho que as dificuldades existem, de produção, lançamentos de filmes, permanência deles no cinema, a distribuição, são questões ainda muito difíceis pra terem um caminho resolvido e ainda falta um longo caminho pra isso. Mas eu acho que tem coisas maravilhosas sendo feitas, apear de também reconhecer a dificuldade de volta e meia estar fazendo filme. Tem dois filmes que vão ser lançados agora que é o Guilherme de Almeida Prado, o “Onde Anda Dulce Veiga?“, um do Euclides Marinho, que é “Sexo, Verdades e Mentiras”, e tem ainda o “Meu Nome Não é Johnny”, que deve estrear no início do ano que vem.
Entrevista – Dira Paes

Com vinte e seis filmes na bagagem, a atriz Dira Paes atualmente têm marcado presença em grande parte das produções do cinema brazuca. “Meu Tio Matou um Cara”, “Amarelo Manga” são alguns dos exemplos. Atualmente ela também organiza o Festival de Belém. Leia o que ela falou sobre os curtas e seus próximos projetos.
Fale da importância de um evento desses…
Dira - Está sendo nítida a diferença nos lugares onde tem festival de cinema e onde não tem. Acho que isso é uma afirmação de que o cinema brasileiro é querido pelo público e que pode vir a ser uma grande indústria de entretenimento brasileira.
Próximos projetos?
Dira - Lançamento do Festa da Menina Morta, um filme do Matheus Nachtergaele, eu devo fazer é novela das sete, que entra ano que vem, e o festival que organizo em Belém e caminhamos pra quinta edição.

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