OS AVENTUREIROS DO BAIRRO PROIBIDO (Big Trouble in Little China, 1985) e a magia chinesa

Magia, misticismo, humor, ação, atores carismáticos. Os Aventureiros do Bairro Proibido (Big Trouble in Little China, 1986) faz parte da memória afetiva de toda uma geração: crianças ou adolescentes entre os anos 1980 e 1990. Cultuado, influenciou a criação de personagens dos games, foi citado em animações e reprisado à exaustão. Só que o filme enfrentou vários imbróglios durante sua produção e passou longe do sucesso comercial ao estrear. Obteve reconhecimento tardio: graças à cópia em VHS e reprises na TV aberta arrebatou corações e mentes mundo afora. Revisto décadas depois, mantém seu frescor.

John Carpenter penou para fazê-lo a seu modo. Havia dirigido Kurt Russel em Elvis (1979), Fuga de Nova York (1981) e O Enigma de Outro Mundo (1982). Fariam juntos ainda Fuga de Los Angeles, em 1996. O ator era a única opção do diretor para viver Jack Burton, um dos protagonistas. A Fox, no entanto, sugeriu Jeff Bridges e sondou Jack Nicholson e Clint Eastwood. Só após a recusa de todos o cineasta conseguiu manter seu desejo inicial. Russell, aliás, negou estrelar outro cult oitentista, Highlander, justamente para estar neste filme.

A versão original do roteiro ambientava a história como faroeste. O estúdio preferiu transportar a trama para o ponto de vista contemporâneo. Ao invés de Burton montar um cavalo, passaria a dirigir um caminhão. Os executivos pressionaram Carpenter para antecipar a produção e as filmagens visando escapar da competição com outro filme de temática similar: O Rapto do Menino Dourado (The Golden Child, de Michael Ritchie). A aventura capitaneada por Eddie Murphy estraria cinco meses e 10 dias depois, repetiria alguns atores e iria bem melhor nas bilheterias.

Carpenter desejava fazer jus aos chineses, geralmente (ao lado de demais países asiáticos) retratados de maneira caricata em Hollywood, relegados a personagens coadjuvantes, desajeitados, que servem de escada para o protagonista branco.

Nós, ocidentais, não raras vezes olhamos para chineses, japoneses, sul-coreanos, vietnamitas, etc, como se fossem uma coisa só. A mesma visão preconceituosa que coloca no mesmo espectro nigerianos, angolanos, sul-africanos, etíopes, etc. Visão essa que, pelo prisma de alguns produtores hollywoodianos, também não distingue mexicanos, cubanos, brasileiros, equatorianos, venezuelanos, etc.

De certa forma, Carpenter conseguiu. Ao menos equilibrou os papéis. Russell é o americano durão, másculo, sedutor, mas também é desajeitado, na hora da brigar erra feio, pula fora, chega atrasado, enquanto os sino-americanos são corajosos, sensatos, competentes, respeitosos. Só não alcançou totalmente o objetivo por que a Fox insistiu em incluir a cena inicial: com Egg Shen (Victor Wong) no escritório do advogado exaltando os feitos de Jack Burton. Segundo os engravatados, o momento adicional deixou Burton “mais heroico” e, se não estivesse no filme, Jack viraria um sidekick de Wang Chi (Dennis Dun).

Um pouco de história

Michelle Krusiec vive Anna May Wong na minissérie Hollywood. 

Vale relembrar: por décadas existiu a yellow face, artifício – tal qual a black face para personagens negros – usado pelos produtores para retratar pessoas de origem asiática, porém interpretados por gente branca.

Anna May Wong, das grandes estrelas da Era de Ouro do cinema, sofreu com essa situação. Vivia somente mulheres vingativas, sensualizadas, estigmatizadas e coadjuvantes. Grande frustração aconteceu quando a Metro-Goldwyn-Mayer não lhe deu o papel principal em The Good Earth (1937), entregue a uma Luise Rainer usando maquiagem e ainda vencendo o Oscar pelo trabalho. A minissérie Hollywood, do Netflix, homenageia Anna e refaz a trajetória da atriz.

Este é apenas um exemplo. Xenofobia não é rara no cinema dos Estados Unidos. A animação Superman das matinês cinematográficas entre 1941 e 1943 trazia vilões nipônicos extremamente exagerados. J. Carrol Naish e Mickey Rooney usaram yellow face e tiveram atuações caricatas respectivamente ao viverem Dr. Daka (no seriado O Morcego, primeira aparição do Batman no cinema, em 1943), e Mr Yunioshi, no cult Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany’s, 1961).

Michey Rooney em Bonequinha de Luxo. 

Bruce Lee levantaria a bandeira, nos anos 70, que asiáticos recebessem o devido respeito da indústria hollywoodiana. Ele, inclusive, perdeu o protagonismo na clássica série Kung Fu (1972-1975), de ideia sua e que acabou estrelada por David Carradine. Nem chegou a ser escalado, lembrado.

Graças aos filmes de artes marciais, ou de kung fu como eram popularmente chamados, os atores e atrizes de origem asiática passaram a receber oportunidades melhores.

Os Aventureiros do Bairro Proibido é herdeiro desse período. Traz elementos do gênero wuxia do cinema de Hong Kong (mescla de fantasia e artes marciais), bastante conhecido pela obra dos irmãos Shaw, com a costumeira ação dos anos 1980.

Acaba sendo muito mais uma fantasia do que sobre artes marciais. Outras produções pops produzidas do lado de cá do Atlântico são assim: Mandarim, o inimigo do Homem de Ferro da Marvel, e até o desenho animado As Aventuras de Jackie Chan apresentam conteúdo parecido, do mistério que esconde magia, sobrenatural, crenças bem antigas.

O filme

Jack Burton (Russell) chega a São Francisco e reencontra Wang (Dun). Os dois e mais alguns sujeitos passam a noite jogando e apostando. Quando perde uma aposta, Wang diz que, antes de pegar o dinheiro no restaurante do tio quitar a dívida com o amigo, precisa ir ao aeroporto buscar o amor de sua vida, Miao Yin (Suzee Pai). Durante cinco anos ele ralou, trabalhou muito para conseguir trazê-la da China.

A moça é sequestrada por uma gangue do Chinatown para ser vendida a Lo Pan (James Hong), antigo guerreiro de 2 mil anos (!!), vítima séculos atrás de maldição perpetrada pelo imperador soberano Qin Shihuang.

Big Trouble in Little China (1986)

Lo Pan é um ser incorpóreo e, embora vez ou outra possa habitar um corpo decrépito, deve ser casar com uma mulher de olhos verdes e, finalmente, voltar a ter um corpo de carne e osso. Mantém empresa de fachada envolvida no submundo do crime.

Na tentativa de salvar a moça, Jack e Wang recebem a ajuda da advogada Grace Law (Kim Kattrall) e do guia turístico Egg Shen (Victor Wong), especializado em magia e conhecedor da história do místico vilão.

Aventureiros do Bairro Proibido parece filme B décadas depois. Mas tinha bom orçamento para o meio dos anos 80 e uso de efeitos visuais razoáveis. O roteiro de Gary Goldman, David Z. Weinstein e W.D. Richter dá escorregadas aqui e ali e algumas situações são completamente nonsenses.

Sequestrada, Miao Yin sequer esboça algum tipo de reação. Mais tarde, pouco antes do casamento de Lo Pan, ela e Grace Law estão em estado catatônico, meio hipnotizadas. Por que apenas a segunda consegue abrir os olhos? Questões que levei comigo.

Por outro lado, sempre me encantaram os corredores repletos de estátuas de Buda, as portas falsas, os subterrâneos misteriosos, os ornamentos e figurinos coloridos.

Certos filmes nos impactam. Trazem momentos e imagens que carregamos por toda a vida, principalmente se foram vistos quando somos crianças.

Tal qual Melancolia (2011, de Lars Von Trier) me faria olhar sempre para o céu, a lua, tanto o prédio da empresa de Lo Pan e o edifício onde a Yakuza mantém sede em Justiceiro (The Punisher, 1989), até hoje me fazem questionar certos arranha-céus corporativos. Em Santos mesmo, cidade onde vivo, há o Praiamar Corporate: e vivo me perguntando se por trás de tantos corredores vazios, andares aparentemente inutilizados, há algo escondido, sinistro.

O que deveria ser o esgoto de São Francisco é um universo à parte, com monstros, fumaça, caminhos tortuosos. Carpenter consegue criar uma fábula, nos transportar para um mundo muito particular com suas regras, lendas e criaturas magníficas.

E reuniu elenco interessante. Russel pensou em não aceitar o convite. Vinha de fracassos. O diretor bateu o pé. Queria o astro, que emprega energia a Burton, metido a garanhão, fanfarrão.

Kim Cattrall faz de Grace alguém segura, atrevida, que não se deixar inicialmente levar pelos galanteios do herói. Há tensão sexual entre eles, a química existe. Brilhava dois anos após em Loucademia de Polícia (Police Academy) e muito antes de seduzir marmanjos na série Sex and The City.

Dennis Dun – escalado após Jackie Chan não ser contratado – cria um Wang durão mas que se derrete pela amada e extremamente confiante e habilidoso nas artes marciais.

Big Trouble in Little China (1986)

E os veteranos James Hong e Victor Wong se divertem muito em seus respectivos personagens. O primeiro tem carreira maravilhosa e repleta de trabalhos dos mais variados: começou nos anos 1950, ainda na Era Dourada do cinemão, e marcou presença em Blade Runner (1982), The Big Bang Theory e dublou em Mulan e Kung Fu Panda, entre outros. Assume o tom galhofa de Lo Pan, típico vilão excêntrico e tarado. Victor estaria também em Sete Anos no Tibet e O Último Imperador e não deixa nada a dever ao algoz em tom galhofeiro. A cena em que Egg Shen e Lo Pan duelam ao estilo videogame é pura tiração de sarro. James e Victor retornariam em O Rapto do Menino Dourado, junto de Peter Kwong, a chuva dos Três Temporais.

Somente a americana Suzee Pai, figura central da trama, praticamente entra muda e sal calada. Posou para a Penthouse em 1981, atuou em algumas produções e estaria em Rambo (First Blood, 1982), entretanto sua cena acabou cortada. Teve carreira curta. O último trabalho creditado é de 1993.


Os três temporais, ou três tempestades, espécies de seguranças e guardas de Lo Pan são inspirados nos irmãos Hidari de Lobo Solitário – O Andarilho do Rio Sanzu (Kozure Ôkami: Sanzu no kawa no ubaguruma, 1972, de Kenji Misumi).

Do mesmo jeito que Carpenter busca referências cults, seu filme acabou influenciando produtos variados da cultura pop.

Relâmpago, um dos três grandalhões, inspirou a criação do visual de Raiden, e Lo Pan seria Shang Tsung, do jogo Mortal Kombat.

O filme ganharia paródia no episódio A Chinatown Ghost Story, das Tartarugas Ninjas, na animação de 2014.

Orçado em US$ 25 milhões, estreou somente no 12º lugar, atrás do péssimo Psicose II/ (oitavo colocado) e do líder Karate Kid II: A Hora da Verdade Continua, em sua terceira semana nos cinemas. Faturou pouco além de US$ 11 milhões. Carpenter culpava a Fox por ter priorizado Aliens, O Resgate (de James Cameron), lançado no mesmo mês.

Responsável pela trilha sonora típica da época, cheia de sons de teclados e sintetizadores e que dá bom ritmo à ação, Carpenter desistiu de servir seu talento aos grandes estúdios e voltaria ao cenário independente.

Os Aventureiros do Bairro Proibido é o tipo de filme-retrato de sua época que encontrou o público certo com o passar do tempo. Continua uma experiência divertida e prazerosa.

Os Aventureiros do Bairro Proibido
Big Trouble in Little China.
Estados Unidos, 1986.
Direção: John Carpenter.
Com Kurt Russell, Dennis Dun, Kim Cattrall, James Hong, Victor Wong, Kate Burton, Donald li, Carter Wong, Peter Kwong, James Pax, Suzee Pai.
99 minutos.

Kim Cattrall and Suzee Pai in Big Trouble in Little China (1986)

Kim Cattrall and Suzee Pai in Big Trouble in Little China (1986)

Kurt Russell in Big Trouble in Little China (1986)

Dennis Dun and Suzee Pai in Big Trouble in Little China (1986)

James Hong in Big Trouble in Little China (1986)

Victor Wong in Big Trouble in Little China (1986)

Big Trouble in Little China (1986)

 


 

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

2 thoughts on “OS AVENTUREIROS DO BAIRRO PROIBIDO (Big Trouble in Little China, 1985) e a magia chinesa

  1. Ótima reflexão nesses nossos tempos de tantos preconceitos. Deu vontade de assistir o filme.

    1. Certamente Ondina. A arte sempre propiciando reflexões importantes, ainda mais nesses tempos sombrios. Obrigado pela presença.

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