ORGULHO E PRECONCEITO (Pride & Prejudice, 2005), comédia romântica acima da média

O amor que esbarra na diferença de classes sociais, comportamento, atitude. Alguém aparentemente inacessível, fechado, que parece não ter sentimentos. Problemas que poderiam render o fim de tantas relações, ou sequer o início delas, mas terminam em juras de amor eterno. São fatores que remetem a tantos filmes. Muitos, comédias românticas. Outros, dramas fortes. Com livros como Razão e Sensibilidade e Orgulho e Preconceito, Jane Austen (1775-1817) deu vida a um estilo que seria imitado para sempre.

Uma das qualidades da escritora é que suas obras não foram prejudicadas pelo tempo. Ainda hoje, as questões abordadas pela britânica seguem atuais. Assim, Orgulho e Preconceito, baseado no romance que ela terminou em 1797 e foi publicado pela primeira vez 16 anos depois, é daqueles cujo sabor é atemporal. Envolve, encanta, faz rir, causa lágrimas. Impossível ficar indiferente.

Keira Knightley, Jena Malone, and Carey Mulligan in Pride & Prejudice (2005)

Adaptado várias vezes para o teatro, a tevê e o cinema, ganharia essa versão cinematográfica em 2005. A responsabilidade do cineasta Joe Wright e da roteirista Deborah Moggach era grande. Os ingleses consideraram, em eleição, o segundo livro mais importante de sua história, atrás somente de O Senhor dos Anéis.

Em 1995, a obra recebeu uma elogiada e premiada versão para a tevê, estrelada por Colin Firth e premiada no Emmy, o Oscar da telinha. O filme precisaria provar seu significado. Wright e Moggach mantiveram a essência do trabalho original de Austen e conceberam uma pérola cinematográfica: revelou ao mundo o talento do diretor – foi o primeiro longa dele – e o talento e o charme de Keira Knightley (coadjuvante em Simplesmente Amor, 2003).

A trama acontece em Londres, século 19. Um baile. Elizabeth Bennet (Knightley), jovem sensível e determinada, conhece Fitzwilliam Darcy (Matthew MacFadyen, de Frost/Nixon), cavalheiro rico, arrogante. Os demais no salão trocam flertes. Os dois entram numa relação de amor e ódio. Aos poucos, a jovem percebe que Darcy não é tão desagradável quanto parece.

Claudie Blakley, Matthew Macfadyen, and Carey Mulligan in Pride & Prejudice (2005)

Inicialmente a sinopse soa simples. Até banal perante o cinismo que assola o século 21. No entanto, é só a história se desenvolver que somos cativados por um trabalho irresistível, que traz a marca de Austen: o choque de castas, e elite retratada de forma caricatural e as pessoas simples responsáveis pelos abastados acordarem para o mundo real.

O elenco é show à parte: o veterano Donald Sutherland, como o pai da heroína; Brenda Blethyn, de London River, na pele da mãe; Rosamund Pike, de Garota Exemplar; a graciosa Jena Malone; Kelly Reilly, de Bonecas Russas, interpretando a irmã chata e preconceituosa do protagonista. E, claro, Keira Knightley e Matthew MacFadyen, que desenvolvem química interessante ao viver o casal central.

Os cenários bucólicos, a linda fotografia, a trilha sonora competente de Dario Marianelli, os figurinos e a direção de arte certeiros, corroboram para um filme praticamente impecável – não cai na comédia romântica comum, nem no drama pesado.

Brenda Blethyn and Keira Knightley in Pride & Prejudice (2005)

Há a crítica à alienação dos ricos e à separação de classes, que ainda existem na Inglaterra. Mas num meio termo gostoso e sensível para o espectador. Já o amor é mostrado em sua essência, até de maneira ingênua para alguns: não traz cenas tórridas. Os sentimentos são mostrados em gestos simples, beijo na mão, olhares, declarações. Tem o pé no cinema clássico.

Tudo orquestrado com maestria por Joe Wright, que intensificaria os temas no poderoso Desejo e Reparação (2007), quando dirigiu novamente Keira Knightley e Brenda Blethyn, e retomou a parceria com o compositor Dario Marianelli, vencedor do Oscar pelo trabalho. Exemplo da competência do cineasta é a sequencia do baile em que Elizabeth e Darcy, enquanto dançam, apagam literalmente os outros casais do ambiente. E não é assim o amor?

Orgulho e Preconceito
Pride & Prejudice
Reino Unido, 2005.
Direção: Joe Wright.
Com Keira Knightley, Matthew MacFadyen, Brenda Blethyn, Donald Sutherland, Tom Hollander, Rosamund Pike, Jena Malone, Judi Dench, Kelly Reilly.
Romance.
127 minutos.

Brenda Blethyn and Keira Knightley in Pride & Prejudice (2005)

Donald Sutherland in Pride & Prejudice (2005)

Keira Knightley in Pride & Prejudice (2005)

Keira Knightley and Matthew Macfadyen in Pride & Prejudice (2005)

Keira Knightley, Jena Malone, Rosamund Pike, Carey Mulligan, and Rupert Friend in Pride & Prejudice (2005)


André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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