Crítica | MEU PREÇO é breve tratado sobre os excluídos e a hipocrisia da sociedade

“Vou viver de cantar, ser mulher e amar, resistir…”. Os versus da bonita música Memórias, composta por Juliano Barreto e cantada com paixão pela personagem de Valéria Houston resumem os sonhos de milhões de pessoas. Sonhos esses que variam entre desejos de alcançar algum objetivo profissional ou, simplesmente, encarar a vida. Não poderia ser escolha mais apropriada para abrir o premiado curta-metragem Meu Preço, disponibilizado gratuitamente no Youtube.

Trata-se de breve tratado sobre os excluídos pela sociedade e a hipocrisia dos “cidadãos de bem”. Importante alertar: há spoilers a seguir. Assista ao filme antes de continuar o texto.


Em 15 minutos somos apresentados a figuras presentes no cotidiano do povo brasileiro: os ignorados, marginalizados, aqui representados por profissionais do sexo e pessoas trans. E o sujeito “de família”, infeliz no casamento, que insiste em reforçar a heterossexualidade em público.  

São pessoas, cada uma à sua maneira, solitárias, que se escondem do mundo ou são escondidas pelo mundo.

Morena (Fabricio Santiago) é uma travesti de programa que se une às suas amigas transsexuais para mais uma noite de rotina e de luta pela sobrevivência. Partem da boate mostrada no início do filme. Conta sobre seu passado às colegas: quando criança era espancada constantemente pelo irmão transfóbico.

Breve parêntese: neste momento lembrei da minissérie Olhos que Condenam (2019) da cineasta Ava DuVernay, no Netflix, sobre a trajetória verifica de cinco jovens negros condenados injustamente por um crime que não cometeram. Há algo similar: um deles perde a irmã trans expulsa de casa pela própria mãe. A diferença é que os irmãos se amam e o preconceito vem de justamente quem deveria cuidar deles.

Voltando ao curta-metragem: Morena e as amigas deparam-se com uma “concorrente” (interpretada pela funkeira carioca Pepita). Discussão e ameaças de todos os lados se sucedem.

A cena faz um recorte do universo das pessoas excluídas. No caso, as profissionais do sexo: não bastasse serem ignoradas, violentadas, precisam fazer o possível para alcançar o mínimo de dignidade. Típica situação que só beneficia aos opressores: quanto mais os oprimidos se dividem, entram em conflito, mais quem está em melhores condições sociais segue firme em seu status.

Ao se deparar com um cliente novo (o tal “cidadão de bem”, vivido por Luciano Quirino), a protagonista coloca o seu passado à tona de forma violenta e angustiante.

Os dois partem para o motel. No quarto, conversam, fazem sexo. Somos surpreendidos ao descobrir que o tal sujeito de casamento infeliz é o irmão de Morena.

O diretor Hsu Chien (da série televisiva Pé na Cova, natural de Taiwan e que se mudou para o Brasil aos três de idade), a partir do roteiro do próprio Fabricio e Felipe Cabral, nos leva a acompanhar uma história sobre dores, traumas, vingança e incesto. Remete aos melhores trabalhos de Plínio Marcos (o dramaturgo dos excluídos) e do espanhol Pedro Almodóvar e suas reviravoltas desconcertantes. Não à toa acumula 20 prêmios no currículo.

Tem olhar sensível e intenso sobre este universo, admira os corpos, os rostos dos personagens e filma o sexo sem pudor, sem glamour, um sexo viril e triste. É auxiliado pelo diretor de fotografia Arthur Sherman (de Neville D’Almeida – Cronista da beleza e do caos e Cidade de Deus: 10 Anos Depois), cujos enquadramentos e a iluminação traduzem o ambiente sufocante, dolorido.

Igualmente admirável são o talento e a entrega dos atores principais.

Fabrício, roteirista de várias temporadas de Malhação e outros trabalhos merecia mais destaque na atuação. Já Luciano Quirino e seus 30 e poucos anos de carreira, sempre vai bem nos papéis dos mais variados em TV, cinema e teatro. Simplesmente esquecemos que ele é o Ptolomeu, o pai do Bento, em Detetives do Prédio Azul.

Sensível, honesto e contundente, Meu Preço levou os prêmios de Melhor Curta LGBT, Melhor Ator (Fabrício Santiago) e Melhor Direção (Hsu Chien) no 14º NYC Downtown Short Film Festival (EUA, 2018), e Melhor Ator (Fabrício) no Eurasia International Monthly Film Festival (Rússia 2018).

Merece ser descoberto e entra no time das obras audiovisuais indispensáveis sobre as injustiças do mundo, como a citada Olhos que Condenam, Madame Satã (2002), Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016), Sócrates (2018), Preciosa: Uma História de Esperança (2009) e muitas outras.


 

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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