PONYO: UMA AMIZADE QUE VEIO DO MAR e a genialidade de Hayao Miyazaki

Perdi a conta das vezes que vi Ponyo: Uma Amizade que Veio do Mar (Gake no ue no Ponyo, 2008). A grande maioria foi em sessões dos projetos de formação de público que realizava e realizo em escolas, ONGs, creches, associações de bairro. Sempre fez sucesso, principalmente entre as crianças.

Elas estão acostumadas à Disney, à Pixar, super-heróis. Independentemente do local onde moram, conferem os grandes sucessos: pela televisão ou outros meios. Não cabe julgar. Todo mundo merece acesso à cultura.  Para fugir do óbvio, procuro optar por produções acessíveis e, ao mesmo tempo, capazes de transcender, inspirar, tirar o espectador do lugar comum.

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Não cabem filmes “cabeças” demais (ainda que deteste essa expressão). Aliás, optar por filmes assim chega a ser cruel e, de certa maneira, elitista pela parte de quem programa projetos de cinema em comunidades.

Gake no ue no Ponyo (2008)

O público é bombardeado diariamente por informações dos blockbusters, dos principais lançamentos do circuito. Ficam com vontade de conferi-los. Deveriam poder assisti-los. Empurrar, logo de cara, produções independentes, curtas-metragens que ninguém viu direito, acaba impactando o público de maneira contrária: ao invés de “formar”, acaba espantando a plateia.

“Catequização” arrogante, pretenciosa, como se o curador estivesse numa bolha e não entendesse que cada projeto possui necessidades diferentes. Ver filmes é um costume desenvolvido pelo prazer. É preciso envolver as pessoas, fazer das sessões algo agradável, especialmente para quem pouco tem chance ou simplesmente não consegue ir ao cinema.  Essa relação entre quem escolhe e apresenta os filmes e o público, alunos, etc, é estreitada aos poucos, desenvolvida na prática, é uma troca de aprendizado.

Gake no ue no Ponyo (2008)

Das mais de cem exibições que participei, duas animações são certeiras ao desenvolver o prazer nas crianças sem cair nas obviedades do cinemão: são Ponyo: Uma Amizade que veio do Mar, do japonês Hayao Miyazaki, e Kiriku e a Feiticeira (Kirikou et la sorcière, 1998) do francês Michel Ocelot. Ambos são aventuras estreladas por crianças, abordam relações familiares, possuem humor e trazem mensagens ambientais. Mistura perfeita para os pequeninos ainda na pré-escola ou nos primeiros anos do ensino fundamental.

A Viagem de Chihiro (Sen to Chihiro no kamikakushi, 2001), por exemplo, do mesmo cineasta fundador do famoso Estúdio Ghibli, não agrada tanto apesar de ser obra-prima vencedora do Oscar. Tem personagens que tendem a assustar e é uma história, digamos, mais complicada.

Ponyo não é o filme mais incensado do diretor e desenhista responsável por animações seminais que influenciaram realizadores da Disney, da Pixar e do mundo inteiro. Recebeu 12 prêmios e 19 indicações ante 57 prêmios e 30 indicações do citado A Viagem de Chihiro. Princesa Mononoke (Mononoke-hime, 1997) e Meu Amigo Totoro (Tonari no Totoro, 1988) e não alcançaram tanto prestígio em premiações, mas são mais lembrados nos guias de cinema. Estes três são os mais citados por críticos e historiadores do cinema. Totoro, aliás, virou o símbolo do Ghibli. Aparece no início de todas as obras da empresa tal qual a luminária do curta-metragem Luxo Jr. (1986) surge nas produções da Pixar.

Gake no ue no Ponyo (2008)

Hayao Miyazaki é artista na acepção da palavra, de imaginação ímpar, mágico, poeta visual, sensorial. Seus filmes são como se estivéssemos presenciando sonhos transportados para a tela. Mais ou menos como Lars Von Trier costuma conseguir fazer em seus longas-metragens. Ok, muitos dos filmes do dinamarquês soam mais como pesadelos.

O diretor japonês, conforme podemos ver durante os quatro episódios do documentário 10 Anos com Hayao Miyazaki, manteve-se trabalhando à moda antiga. Desenha e pinta à mão. As histórias são concebidas a partir do desenho e da pintura, de pequenos esboços para só depois terem os roteiros desenvolvidos.

Suas tramas não abrem mão de apresentar costumes japoneses, a cultura, a história do país (a Segunda Guerra – vale lembrar que o Japão é a única nação do mundo atacada com bombas atômicas), e a relação da população com a natureza e os tsunamis, terremotos.

Gake no ue no Ponyo (2008)

Ao mesmo tempo são universais: podem ser sentidas, amadas, debatidas e entendidas em qualquer parte do planeta.

Tecnicamente são maravilhosas: repletas de cores bem escolhidas, sofisticadas em movimentos e ângulos de câmera, fluídas e orgânicas em primeiro plano e ao fundo, reunindo, por vezes, dezenas de personagens na mesma cena. Um passo além da pioneira série do Superman dos irmãos Fleischer exibidas nas matinês cinematográficas entre 1941 e 1943. Cenas essas que duram segundos e chegam a levar meses para serem produzidas. Trabalho hercúleo, digno, admirável, artesão.

Suas animações geralmente trazem garotinhas ou jovens mulheres e sempre a figura da mãe. Sua mãe precisou ser acamada jovem. Durante seu crescimento Miyazaki queria a presença materna em diversas atividades. Sentiu falta obviamente. Considera-se culpado por não ter estado mais próximo ao filho, Goro, quando pequeno.

Gake no ue no Ponyo (2008)

Ponyo reúne tudo isso. O produtor e um dos sócios do estúdio Ghibli, Toshio Suzuki, não gostou do longa. Argumentou que a animação repetia temas e situações de produções da empresa. Não está errado. Mas o Ghibli, e especialmente Miayazaki, estão naquela turma que produz bastante e quase nunca erra a mão. Que mesmo em trabalhos menos inspirados, estão acima da média. Entram na lista a Pixar, Woody Allen. É clichê, mas é verdade.

À época do lançamento, cheguei a ler resenhas de colegas criticando negativamente o filme. Eu amei. Fui chegar a opinião do maior de todos os críticos, aquele que jamais deixou de amar ver filmes (enquanto alguns são meros “caçadores de erros”): Roger Ebert. “Há uma palavra para descrever Ponyo, e essa palavra é mágica. Este trabalho poético, visualmente de tirar o fôlego, do maior de todos os animadores, tem um encanto tão profundo que adultos e crianças serão tocados”, afirmou o poeta da crítica cinematográfica sobre o poeta das animações.

Gake no ue no Ponyo (2008)

Conhecemos a protagonista-título (Yuria Nara): um peixinho-dourado de rosto humano. Parece ser a mais velha de dezenas e dezenas de irmãs. Quer libertar-se da vigia do pai Fujimoto (George Tokoro), humano que decidiu viver no oceano e trabalha para cuidar do equilíbrio da natureza. Ponyo escapa e vai parar à margem do mar e conhece o garotinho de cinco anos de idade, Sôsuke (Hiroki Doi). Do encontro surge a amizade. Ponyo quer transformar-se em humana. Sua ausência no mar, no entanto, gera um desequilíbrio na natureza e a cidade costeira acaba sendo inundada. Com o tempo ela vai retornando à forma original. E só o amor verdadeiro do menino poderá deixa-la viver em terra.

Ponyo pode ser considerada antecessora de Moana: de existência intrinsicamente ligada ao mar, à natureza, é independente, tem atitude, quer desbravar o mundo e abdica de ser princesa. Empoderada, é ela quem toma a dianteira e declara amor a Sôsuke. A mãe da peixinho é ninguém menos que a Mãe Natureza, Rainha do Mar, conhecida como Iemanjá pelas pessoas do candomblé e da umbanda. Por outro lado, é herdeira das famosas princesas dos contos de fada e da Disney: só o amor verdadeiro resolverá a situação igual vimos em tantos contos, livros, filmes.

O relacionamento entre Ponyo e Sôsuke é puro, nasce da amizade, da afinidade, tipo Vada (Anna Chlumsky) e Thomas (Macaulay Culkin) em Meu Primeiro Amor (My Girl, 1991).

Gake no ue no Ponyo (2008)

Acompanhamos situações corriqueiras como Risa (Tomoko Yamaguchi), e mãe de Sôsuke, convencendo as crianças a se alimentarem. A refeição é o lámen, típico prato japonês. Risa cuida da casa sozinha, é forte, corajosa (como Miyazaki enxergava a mãe), enquanto o marido está distante, trabalhando em navio. Está aí o pai ausente, reflexo da culpa sentida por Hayao em relação ao filho.

Na cidade costeira vemos uma população preparada para desastres naturais, algo recorrente na história japonesa. Quando a água invade, todos se ajudam. Há até cena de ação: aquela em que Risa e Sôsuke aceleram o carro para tentar voltar para casa, localizada no alto da colina, enquanto as ondas do mar furiosamente seguem em direção à costa. Em Aquaman (2018) há uma sequência igual.

Gake no ue no Ponyo (2008)

Compreender a Terra como um organismo unificado, onde tudo está interligado vem de diversas crenças e veríamos algo assim em Avatar (2009). Ponyo pode ser considerada também uma mensageira, um anjo, pois detém o poder de curar as pessoas, consertar itens variados conforme o toque e o desejo. Lembram da criatura de A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) ou tantos personagens existentes na cultura pop? Um dos fatores que admiro na arte das animações japonesas é justamente esse intercâmbio: influencia a cultura ocidental e é influenciada, aprofundando e melhorando ideias, características.

A linda trilha sonora de Joe Hisaishi nos leva junto à cada situação, momento, sentimento, sensação.

Gake no ue no Ponyo (2008)

Tantas qualidades renderam tratamento de gala na concepção da versão em inglês. Os produtores para o lançamento nos Estados Unidos foram John Lasseter (o cara da Pixar que realizou este trabalho por amor e não por dinheiro), Kathleen Kennedy (da Lucas Film e saga Star Wars) e Frank Marshall (franquia Jurassic World, Jason Bom, etc). Entre os dubladores, estrelas do quilate de Liam Neeson (Fujimoto), Cate Blanchett (Mãe Natureza), Matt Damon (Kôichi), Tina Fey (Lisa) e famosos para atrair público como Frankie Jonas (Sôsuke), dos Jornas Brothers, e Noah Cyrus (Ponyo), a irmã mais nova de Miley Cyrus.

Custou cerca de US$ 34 milhões e rendeu mais de US$ 200 milhões, segundo o IMDB. Recebeu dois prêmios e concorreu ao Leão de Ouro no Festival de Veneza.

Pode não ser o ápice do Ghibli ou de Miyazaki. Entretanto, nunca deixa de nos encantar e elevar nossas vidas.

Ponyo. Uma Amizade que Veio do Mar
Gake no ue no Ponyo
Japão. 2008.
Direção: Hayao Miyazaki.
Com dublagem original de Yuria Nara, Hiroki Doi, George Tokoro, Yûki Amami, Tomoko Yamaguchi, Kazushige Nagashima.
101 minutos.


 

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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