Crítica | O Oficial e o Espião (J’accuse, 2019)

Filmes são reflexos de sua época. Não importam o gênero, se a trama ocorre no passado, no futuro, no presente. Se mergulham na fantasia ou não.  A visão de um cineasta sempre vem carregada da experiência pessoal, do contexto do mundo.

O Oficial e o Espião, mais recente trabalho de Roman Polanski, é baseado no famoso caso de linchamento público vivido pelo Capitão Alfred Dreyfus em 1894. De origem judaica, o oficial de artilharia do exército francês foi condenado por alta traição. Injustamente. O veredito baseava-se em documentos falsos. Quando os oficiais de alta patente perceberam o absurdo, tentaram ocultar o erro judicial. Eram tempos de xenofobia e nacionalismo na Europa do final do século XIX. Alguém pensou nos dias atuais?

Tanto no Caso Dreyfus como em vários relatos de fake news do mundo moderno, a pessoa é condenada antes de ter a chance de defender-se. Polanski, responsável pelo roteiro em parceria com Robert Harris, autor do romance An Officer and a Spy, faz um tratado sobre a injustiça. Aborda o antissemitismo, tema recorrente em sua filmografia (inclusive em O Pianista, que lhe rendeu o Oscar). Ele que viveu os horrores do Holocausto.

Por outro lado, parece gritar ao mundo contra as acusações de assédio que enfrentou e enfrenta. O cineasta é condenado nos EUA por estupro de menor e só consegue filmar em países onde não pode ser extraditado. É alvo frequente de protestos. Como na última edição do Cesar, o “Oscar francês”, quando recebeu os prêmios de direção e roteiro adaptado mas não compareceu à cerimônia. Centenas de mulheres compareceram aos arredores da Sala Pleyel, em Paris, indignadas com as doze indicações da obra – cujo currículo incluir, ainda, o Cesar de figurino e quatro prêmios no Festival de Veneza.

Em O Oficial e o Espião, o diretor volta a trabalhar com a esposa, a atriz Emmanuelle Seigner. Louis Garrel (de Os Sonhadores, 2003), filho do diretor Philippe Garrel e da atriz Brigitte Sy. interpreta Dreyfus. Uma de suas melhores atuações na carreira. Jean Dujardin, Oscar de melhor ator pelo já esquecido O Artista (2011), vive o oficial Picquart, que decide investigar o caso após encontrar contradições nele.

A trama começa meio devagar, demora pra entregar, mas a partir da metade deslancha. Polanski mantém o competente nível de sua carreira. Reúne bons atores e levanta temas importantes. A questão, porém, é saber como separar o artista da pessoa?

O Oficial e o Espião
J’accuse
França, Itália. 2019.
Direção: Roman Polanski.
Com Jean Dujardin, Louis Garrel, Emmanuelle Seigner, Grégory Gadebois, Wladimir Yordanoff.
132 minutos.


 

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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