Crítica | O Escândalo (Bombshell, 2020)

Fortalecido em outubro de 2017, o movimento #MeToo se iniciou quando a ativista Tarana Burke usou a hashtag para expressar apoio à vítimas de abuso sexual. Impactadas pelas denúncias feitas contra o monstruoso produtor Harvey Weinstein, não demorou muito para que influentes personalidades de Hollywood se juntassem à urgente causa.

Dessa forma, ampliou-se uma importante corrente, força que derrubaria perigosos homens até então protegidos pelo silêncio. Um ano antes dessa fundamental manifestação eclodir, entretanto, um dos predadores engravatados já atravessava sua merecida queda: Roger Ailes (interpretado por um odioso John Lithgow), ex-presidente da Fox News cuja derrocada é o tema do impactante O Escândalo.

Embora um pouco operante, a direção de Jay Loach é eficiente na condução de suas temáticas, explorando com profundidade os bastidores do sujo universo jornalístico. Para isso, o diretor aposta em um primeiro ato bastante sarcástico, reservando ao trio principal a tarefa de explicar, através de ácidas narrações, a podre burocracia do microcosmo em tela (escolha que, embora não seja inédita, adquire um tratamento interessante).

Nicole Kidman, Margot Robbie, and D'Arcy Carden in Bombshell (2019)

Nesse sentido, merece destaque a sequência inicial, cômica introdução conduzida por Megyn Kelly e ambientada durante os debates políticos pré “Era Trump”, período no qual críticas ao atual presidente norte-americano tornaram a comentarista bastante famosa. Engrandecendo tal abordagem, Roach ainda faz uso de eficientes montagens de caráter mais documental, beneficiando-se da mescla entre dramatizações e arquivos de vídeo tão bem administrada pela edição.

Com direito a momentos arrebatadores, a assinatura do roteirista Randolph acaba produzindo grandes acertos. Em primeiro lugar, temos um importante discurso acerca da banalização da violência (física e psicológica) diariamente realizadas contra as mulheres, mostrando como a impunidade daqueles cujas ações são normalizadas prejudicam movimentos femininos tais como o da Fox News.

Somado a isso, o espectador também encontra um poderoso argumento acerca do contagioso silêncio (alimentado pelo medo e por sensações de impotência) que se reproduz em ambientes tóxicos, demostrando através do fortalecimento dos laços do trio principal como a união é o melhor remédio – clara resposta àqueles que desmerecerem iniciativas como as do #MeToo ao acharem “suspeito” o surgimento de várias acusações simultâneas e tempos após o ataque denunciado.

Em relação ao elenco, seria injusto ignorar que este não fica atrás das habilidades de escrita, haja visto o desempenho de Charlize Theron (irreconhecível em função do extraordinário trabalho de maquiagem) e Margot Robbie em especial. Dona do maior tempo em tela, a primeira consegue transmitir magistralmente a ousadia e o cansaço perante as repetidas buscas por melhora, convencendo como uma mulher cujo poder, quase esgotado, precisa de um urgente empurrão.

É a segunda, no entanto, quem mais impressiona, carregando uma ingenuidade que contrasta com a feroz comentarista e protagonista das cenas mais angustiantes e repulsivas. Apesar desses destaques, é uma pena que o mesmo não possa ser dito da performance de Nicole Kidman, atriz que se vê sabotada por um roteiro (sendo essa a única falha de Randolph) incapaz de aproveitar todo o potencial de sua Gretchen Carlson. Sendo a primeira a se manifestar contra Ailes, a âncora é dona de uma inegável coragem, mas merecia um maior desenvolvimento.

O Escãndalo
Bombhell.
EUA, Canadá. 2020.

Direção: Jay Roach. 
Com Charlie Theron, Nicole Kidman, Margot Robbie, John Lithgow, Allison Janney, Malcolm McDowell. 
109 minutos. 

Charlize Theron and John Lithgow in Bombshell (2019)


Rodrigo Rema nasceu em Santos, é amante de cinema, assistidor de séries e filmes, estes há 25 anos, sendo frequentador assíduo das salas de exibição semanalmente, leitor de livros e internet, praticante de tênis de mesa. Admirador desde a saga Star Wars até os heróis e vilões presentes em Os Vingadores, passando pelos clássicos de terror, como O Cemitério Maldito, O Iluminado e It: A Coisa, adaptados das obras de Stephen King.

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