Crítica | Adoráveis Mulheres (Little Women, 2019)

O que torna uma história tantas vezes já contada interessante? Quando ela é boa, atemporal e é mostrada de forma nova por um(a) artista que lhe traz vigor, um novo olhar e a torna contemporânea, mesmo tendo sido escrita há mais de 150 anos (o romance foi escrito em 1868).

Quem consegue realizar essa proeza, com todos esses elementos é a atriz e hoje também cineasta Greta Gerwig com o clássico de Louisa May Alcott (1832-1888), Adoráveis Mulheres (Little Women, EUA, 2019).

Numa trama feminina e auto-biográfica, Alcott (que além de escritora desempenhava, assim como sua mãe, papel de abolicionista), narra a vida da família March, onde uma mãe amorosa precisa sustentar a casa e suas 4 filhas (que tem entre 13 e 16 anos) enquanto o marido/pai está em batalha (na Guerra da Secessão).

O quarteto de irmãs não poderia ser mais diferente uma das outras: Meg, a mais velha, relembra dos tempos em que a família tinha posses e conforto, sonha em casar-se e é a conciliadora do grupo; Jo é a mais moleca, impulsiva, não dá muita bola para os requintes da sociedade e sonha ser reconhecida como escritora; Beth é a mais tímida, introvertida e tem talento para o piano e, finalmente, Amy, a caçula que é vaidosa, além de meio egoísta e precoce.

Além de ajudar a mãe no sustento da casa fazendo costuras, as meninas ajudam vizinhos mais humildes e no tempo livre, elas encenam peças teatrais para a mãe e fundam sociedades secretas.

Emma Watson, Saoirse Ronan, Florence Pugh, and Eliza Scanlen in Little Women (2019)

Uma história simples que poderia ser apenas o retrato de uma família ou de uma época, ganha ares contemporâneos pelas mãos de Greta Gerwig. Sim, ainda é uma história/filme de época com suas expressões, danças, cenários e figurinos típicos, mas a cineasta não se intimida em ter um material já tão conhecido para trabalhar e torna o que seria mais uma versão de uma mesma história, como algo único, novo, para o público atual.

É impressionante como Gerwig com um roteiro que ela mesma adaptou, junto a um ótimo trabalho de edição/montagem, consegue ir e voltar no tempo para contar a história da família March. E o faz de forma muito bem orquestrada: a infância das irmãs tem uma fotografia com cores mais quentes e o tempo presente ela utiliza cores mais frias. Um recurso discreto, mas engenhoso.

Fotografia, direção de arte, figurinos e trilha sonora são muito bonitos e nenhum deles se sobressai ao outro. Na verdade, todos esses elementos se complementam à história.

Quanto ao trabalho do elenco, destaques para Saoirse Ronan vivendo Jo e Florence Pugh como Amy, além de Timothée Chalamet vivendo o “amigo-irmão” das meninas, Laurie. Já os atores veteranos, Chris Cooper como o bondoso sr. Laurence, Meryl Streep como a tia March brilham, mesmo não tendo tanto tempo em cena quanto o elenco jovem.

Mais do que interpretações de destaque, um elemento que dá graça e charme ao filme é a química entre os atores: Saoirse Ronan, Florence Pugh, Emma Watson (da saga “Harry Potter” que aqui interpreta Meg, a irmã mais velha) e Eliza Scanlen (Beth, a irmã tímida e introvertida) vivendo o quarteto de irmãs de forma tão afinada que a gente torce e se emociona com as alegrias e percalços na vida das meninas; Timothée e Ronan também esbanjam química, em especial, na cena em que Jo e Laurie se conhecem.

Se há 26 anos, Adoráveis Mulheres (Little Women, EUA/CAN, 1994), tinha a minha Jo favorita (Winona Ryder, perfeita no papel), o filme era um pouco açucarado demais (até para a época) aqui Gerwig, mesmo tendo base um romance escrito há 152 anos, consegue tornar a história e os personagens atuais.

Um diálogo entre Jo (Ronan) e tia March (Streep) revela todas as vontades, sonhos e desejos que as mulheres tinham que abrir mão para ter uma vida “feliz” com um bom pretendente, um bom casamento. Quando, na verdade, a liberdade de se permitir ser quem é, ficar com quem se ama e de se tornar quem se deseja (no caso, uma escritora) faz de Jo March, o alter-ego da escritora Louisa May Alcott, uma moça/personagem muito à frente de seu tempo. E isso, Greta Gerwig conseguiu captar com todo respeito e grandeza à história e à protagonista dessa bela história feminina, feminista e mais viva e atual do que nunca.

Adoráveis Mulheres
Little Women
EUA, 2019.
Direção: Greta Gerwig.
Com
 Saiose Ronan, Emma Watson, Laura Dern, Chris Cooper, Timothée Chalamet, Louis Garrel, Florence Pugh e Eliza Scanlen.
135 minutos.

Little Women (2019)


 

Marcelo Reis nasceu no finalzinho dos anos 70, É jornalista por formação, assistente administrativo por ocupação e cinéfilo de coração. Apaixonado por cinema desde os 13 anos (quando uma cirurgia o obrigou a ficar 6 meses de cama), tem um carinho todo especial por musicais, dramas, comédias românticas (‘Harry & Sally – Feitos um para o Outro” é sua favorita), romances e filmes do Woody Allen. Quase sempre, se identifica do lado de cá com algum(a) personagem da telona ou da telinha.

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