Crônica on the road

 

Para minha amiga, Tatiana Silva: bióloga, aventureira, mochileira, que está sempre busca cachoeiras escondidas e é uma heroína da vida real, defendendo os animais, a natureza e colaborando com a saúde pública. Que a sua vida seja sempre repleta de alegrias, aventuras e muitas descobertas.

 

Tomando café numa Starbucks em São Paulo com uma amiga também cinéfila (a quem essa crônica é dedicada) percebo que, mesmo eu sendo uma pessoa completamente urbana, três dos meus filmes favoritos são road movies, de personagens desbravando a natureza, o continente ou a fronteira em busca de algo, seja para si ou para o mundo. São eles: Na Estrada (On the Road), Na Natureza Selvagem (Into the Wild) e Livre (Wild).

Um trio (na verdade, um quinteto, se contarmos os amigos de Kerouac, Neal Cassady e LuAnne Henderson) de personagens que, à princípio, nada teriam em comum, me veem à mente como se tivessem interligados cada um dentro de um objetivo próprio. São eles: Jack Kerouac (ao lado de seus companheiros de viagem citados acima), Christopher McCandless e Cheryl Strayed.

Kerouac no clássico da geração beatnik, On the Road descrevem suas viagens de carro entre os EUA e o México numa técnica livre, mais parecendo um diário, para dar ao leitor a ideia de que ele é, também, um companheiro de viagens do grupo de amigos. No romance/diário Kerouac é Sal Paradise, Cassady é Dean Moriarty e LuAnne Henderson é Marylou. Movidos a drogas, álcool, sexo, mas também liberdade. Eles representavam aquilo que os jovens da época sonhavam: ter liberdade e independência que tanto almejavam.

A jornada do jovem Christopher McCandless foi retratada no livro Into the Wild (numa tradução ao pé da letra “na selva”), de Jon Krakauer. McCandless é um universitário que se forma com notas altas na Universidade Emory e resolve doar seu fundo universitário para uma ONG a fim de fazer uma viagem (no início, de carro) até o Alasca. Em seus diários, o rapaz se “batiza” Alexander Supertramp e busca uma vida sem a hipocrisia familiar e sem bens materiais. Uma frase de Chris resume bem o seu pensamento: “não preciso de dinheiro. Eles deixam as pessoas cautelosas”.

Já Cheryl Strayed, retrata em seu livro autobiográfico Wild: From Lost to Found on the Pacific Crest Trail, seus problemas: a autodestruição com heroína, seu divórcio e sua relação complicada com a mãe (que acaba morrendo). Decide, então, partir para caminhada de mais de mil milhas ao longo da Pacific Crest Trail (percurso pedestre e equestre que se estende da fronteia dos Estados Unidos com o México) desde o deserto de Mojave através da Califórnia e o Oregon até o estado de Washington. Uma longa e exaustiva caminhada em busca de redenção.

Jack Kerouack, Christopher McCandless e Cheryl Strayed podem ser criaturas completamente diferentes – seja com costumes, classe social, religiosa, entre outras características das mais diversas –, mas esse que vos escreve encontra um elo entre esses três personagens da vida real: independente das motivações de cada um, é na natureza selvagem que eles encontram o seu por quê; o seu propósito. Seja para fazer um retrato on the road de sua jornada; seja para se libertar de convenções e ter uma vida muito mais plena e real (deixando de lado a parte materialista e o consumismo) ou, simplesmente, para buscar perdão. Não de alguém, mas dentro si mesmo. São três motivações completamente diferentes, mas que tornam cada uma dessas histórias, dessas jornadas, dessas buscas como algo singular, real, doloroso e difícil.

Se algum deles encontra, enfim, o que buscava desde o início de sua caminhada, eu prefiro imaginá-los respondendo como as sábias palavras da escritora californiana Ursula K. Le Guin (1929-2018): “É bom ter um objetivo para a jornada à frente, mas no fim, o que importa é a jornada”. E isso, tenho certeza, cada um deles realizou com proeza.


 

Marcelo Reis nasceu no finalzinho dos anos 70, É jornalista por formação, assistente administrativo por ocupação e cinéfilo de coração. Apaixonado por cinema desde os 13 anos (quando uma cirurgia o obrigou a ficar 6 meses de cama), tem um carinho todo especial por musicais, dramas, comédias românticas (‘Harry & Sally – Feitos um para o Outro” é sua favorita), romances e filmes do Woody Allen. Quase sempre, se identifica do lado de cá com algum(a) personagem da telona ou da telinha.

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