O Expressionismo no Batman de Tim Burton

Tim Burton, um outsider, com um constante sentimento de não pertencimento e influências góticas, criou um estilo próprio e bastante autoral (WOODS, 2016). A influência Expressionista permeia sua obra, desde os curtas até os longas de maior sucesso. Este artigo busca evidenciar as características do Expressionismo Alemão especialmente em Batman (1989) e Batman, o Retorno (1992), filmes que alavancaram a carreira do diretor.

Ao terminar o colegial, o cineasta ganhou uma bolsa da Disney para estudar no Instituto das Artes da Califórnia. Em seguida foi contratado pelos Estúdios Walt Disney como aprendiz de animador. Produziria apenas três curtas-metragens: Vicente (1982), Maria e João (1983), Frankenweenie (1984) antes de ser despedido: o estúdio atribuiu que suas produções tinham características sombrias demais.

Vincent (1982), Maria e João (1983) e Frankenweenie (1984).

Três anos depois, seu amor ao horror e o talento para a comédia levaram o diretor a dirigir a obra Os Fantasmas se Divertem (Beetlejuice, 1988) que eternizou o ator Michael Keaton como o fantasma zombeteiro que aparecia após ser chamado por três vezes. Apesar do baixo orçamento, o filme teve uma boa bilheteria e ganhou o prêmio de Melhor Maquiagem no Oscar em 1989. A obra acabou chamando a atenção de Hollywood e o diretor recebeu o convite irrecusável para dirigir Batman, em 1989.

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Os Fantasmas se Divertem (1988)

Entre altos e baixos a carreira de Tim Burton continuou, mas a constante em suas obras são as influências góticas e expressionistas. Aqui nos atemos a analisar aqueles pontos que se referem ao Expressionismo Alemão por ser tema principal do estudo. Esclarece-se que é apenas uma escolha temática e não por considerar menos relevante outras influências claramente apresentadas pelo diretor.

O Expressionismo buscava a distorção de imagens e de cenários, por meio da maquiagem e da fotografia para mostrar a forma como seus realizadores expressavam o mundo. Tais técnicas buscavam expressar as características ideológicas do movimento cinematográfico que negava o mundo burguês, o racionalismo moderno, o trabalho mecânico, combatia a razão com a fantasia.

O diretor Tim Burton expressou em várias ocasiões uma afinidade pelos trabalhos de artistas expressionistas. Sua influência é claramente visível em muitos dos filmes de Burton, incluindo seus dois empreendimentos de quadrinhos, Batman (1989) e Batman Returns (1992).

Em Batman, de 1989,  a cidade de Gotham City  funciona como um personagem relevante da trama, conduzindo personagens entre uma arquitetura urbana típica de um clássico como Metrópolis  com arranha-céus, com fortes diferenças sócias e superpopulação. A maioria das cenas são rodadas com fortes sombras ou em ambientes escuros.

 

Metrópolis (1927) e a Gotham City de Tim Burton. 

O filme é sobre o herói combatendo o crime da grande cidade e tudo acontece durante a noite, pois é quando o mal (escuro em contraposição ao bom/claro) está à solta. As maquiagens dos vilões e do protagonista em Batman são carregadas, trazendo aspectos pessoais através de seu figurino. A construção do antagonista, Coringa, remete ao personagem do filme expressionista O Homem que Ri, de Paul Leni. Sua maquiagem é carregada e seu sorriso macabro determinam os principais aspectos do personagem. A ausência de uma causa pela qual este comete seus crimes elabora um personagem complexo, cheio de manias caricatas que serão utilizadas por Jack Nicholson no filme.

O Homem que Ri (1928) e o Coringa em Batman (1989). 

Como dito anteriormente, o sucesso do filme Batman possibilitou um mundo ampliado e rentável para o personagem, garantindo uma continuação, em 1992, Batman, o Retorno, cuja caracterização do vilão Pinguim remete diretamente ao filme expressionista O Gabinete do Dr. Caligari.

O Gabinete do Dr. Caligari (1920) e o Pinguim em Batman, O Retorno (1989).

[…] Nós assistimos a uma radicalização da própria lógica das nossas sociedades democráticas, que não deixa de ter relação com o sentimento de angústia que invade os nossos contemporâneos […] (SÉBASTIEN, 2009, p. 26).

Tim Burton, em dois filmes sobre o Batman, também utiliza Gotham City como uma cidade opressora, capaz de desumanizar os cidadãos. Os vilões de Batman (1989), e Batman, o Retorno (1992) são vítimas de situações parecidas. O Coringa interpretado por Jack Nicholson no primeiro longa-metragem tem sua origem um pouco modificada. Ao invés de comediante, é Jack Napier, capanga do mafioso Carl Grissom (Jack Palance). É, também, amante da namorada do chefe. Este, com ciúmes, coloca o subordinado em apuros ao enviá-lo para um assalto e deixá-lo à mercê da polícia.

Em Batman, o Retorno o protagonista tem três algozes. Michelle Pfeiffer é Selina Kyle, secretária desajeitada e ambiciosa do empresário inescrupuloso e vaidoso Max Shreck (Christopher Walken). Ela é arremessada da janela de um alto prédio pelo chefe após esquecer de entregar a ele o discurso de um evento. Nesta situação a personagem é atingida pela intolerância e pelo machismo do empresário, que a considera alguém inferior e parte para a violência. Após a queda, Selina é “ressuscitada” como um gato e passa a ter sete vidas e decide vingar-se dos homens que a abandonaram e maltrataram, tornando-se a Mulher-Gato.

Enquanto isso, o Pinguim vivido por Danny De Vito é abandonado ainda bebê pelos pais ricos, por ser diferente. Cresce no esgoto de Gotham, criado por pinguins e quer vingança contra a elite da cidade. Acaba manipulado por Max Shreck (interpretado por Christopher Walken – o nome do personagem é uma homenagem ao ator do cinema-mudo Max Shreck, famoso pelo seu papel de Conde Orlock no filme Nosferatu) que o lança candidato à Prefeito de Gotham e depois o abandona.

Os espelhos são elementos visuais utilizados frequentemente por Tim Burton em seus filmes do Batman. A aversão do vilão por sua própria reflexão enfatiza sua incapacidade de enfrentar a natureza desigual e sua psique. Em vez de enfrentar seus problemas de frente, eles lhes dão as costas e permitem que seus lados sombrios reinem supremos.

Esse dispositivo visual que representa a dualidade interna é frequente no Expressionismo. Foi usado em Nosferatu (1921), de Murnau, para sugerir o aspecto bilateral da psique dos protagonistas, e diversos outras obras posteriores desta corrente cinematográfico.

Em O Estudante de Praga (1926) de Henrik Galeen, o personagem Balduin (Conrad Veidt) vende seu reflexo ao mágico Scapinelli (Werner Krauss), levando a reflexão a sair do espelho e ganhar vida própria. O doppelganger continua a assombrar Balduin até que este destrua o espelho de onde se originou; libertando-se do seu lado sombrio, mas inadvertidamente se destruindo no processo.

Esse ato de destruir / liberar um aspecto secundário da personalidade de alguém através de um espelho também é visto em Fausto, de Murnau (1926), onde Mephisto (Emil Jannings) concede juventude a Fausto (Gösta Ekman) capturando seu semblante envelhecido em um pequeno espelho. No final do filme, Mephisto esmaga o espelho e Fausto é mais uma vez privado de sua juventude. O espelho se torna, então, objeto de transição que liga o velho Fausto ao jovem Fausto. Ao destruir o espelho, as duas identidades são permanentemente separadas.

Fausto (1926) e Batman (1989).

Nos Batman dirigidos por Burton o espelho tem função semelhante. A cena introdutória de Jack Napier mostra-o em frente a um espelho, admirando seu próprio reflexo. Mais tarde, ao ver seu rosto mutilado pela primeira vez, ele imediatamente destrói outro espelho. É interessante notar que, como em A Piada Mortal, de Alan Moore, o ponto em que o Coringa fica louco não é quando ele sai do tanque de produtos químicos, mas quando se vê no espelho.

Assim, percebemos de inúmeras maneiras, estéticas e temáticas, a influência expressionista nos dois filmes do Cavaleiro das Trevas dirigidos por Burton.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

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André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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