Crítica | O Morcego (Batman, 1943) e A Volta do Homem-Morcego (Batman and Robin, 1949)

Olhando em perspectiva, há quem ache (obviamente não os fãs) o Batman dos anos 60 engraçado. Nesse sentido, Adam West seria, na verdade, um sucessor de Lewis Wilson (1920-2000), que duas décadas antes vestiu o uniforme no cinema. O primeiro de vários atores que encarnariam o herói. Em junho de 1943, O Morcego chegou às matinês cinematográficas dos EUA em 15 episódios com cerca de vinte minutos cada, quatro anos após o personagem ganhar as páginas das HQs.

Produzida pela Columbia Pictures, responsável pela primeira versão live action do Superman, em 1948, a série teve direção de Lambert Hillyer (1889-1969): entre 1917 e 1949 o cineasta dirigiu mais de 160 filmes!

Douglas Croft and Lewis Wilson in Batman (1943)

A abertura provoca risos. Batman, melancólico, está em sua escrivaninha, na Batcaverna. Morceguinhos de papel voam para lá e para cá até um serelepe Robin dar as caras. A dupla sai de cena abraçada, dando vazão àqueles comentários maliciosos tidos como brincadeira por muitas pessoas – mas que foram sugeridos de forma séria pelo alemão Fredric Wertham (do livro Seduction of The Innocent).

O uniforme é nitidamente mais folgado que o corpo nada convincente do ator. Os chifres do capuz ficam caídos. A máscara de Robin lembra a do Zorro, com elástico prendendo-a ao redor da cabeça.

William Austin, Douglas Croft, Shirley Patterson, and Lewis Wilson in Batman (1943)

Durante a trama, Batman deixa a capa cair (e ela volta intacta na cena seguinte), cigarros (!) voam do cinto de utilidades (há vídeos no YouTube com a cena), o protagonista ressurge inteirinho depois de quedas mortais e, ainda por cima, o carro utilizado pelo Cruzado de Capa é a mesma limusine de Bruce Wayne. Se contar a história em si. Batman e Robin não atuam na clandestinidade. São agentes do FBI. E combatem uma figura excêntrica: Dr. Tito Daka.

Douglas Croft, J. Carrol Naish, and Lewis Wilson in Batman (1943)

O intrépido vilão, vivido por J. Carrol Naish, é líder de um grupo de traidores decididos a estabelecer o controle japonês sobre a América. Eram tempos de Segunda Guerra Mundial e tanto os quadrinhos como o cinema levavam ao público vilões do Eixo. É interessante notar que para viver um japonês foi escalado um ator norte-americano, à maneira do Mr. Yunioshi de Mickey Rooney em Bonequinha de Luxo (1961). Esse tipo de situação ocorreu durante muitos anos em Hollywood, revelando a luta que foi para que minorias conseguissem espaço na disputada indústria do entretenimento: vale lembrar que o clássico O Nascimento de Uma Nação (1915), de D. W. Griffith, tinha atores brancos interpretando personagens negros.

Nada disso obviamente impediu o sucesso da produção, que, inclusive, influenciou os gibis: pela primeira vez na mitologia do personagem a Batcaverna foi mostrada e, Alfred (William Austin), retratado como alguém magro e de bigode fino.

A Volta do Homem-Morcego

Johnny Duncan and Robert Lowery in Batman and Robin (1949)

A Volta do Homem-Morcego, de 1949, repetiria o sucesso e as esquisitices do seriado anterior. Apresenta um total de 15 episódios e foi distribuído pela Columbia Pictures, sendo lançado nos Estados Unidos em 16 de maio de 1949.

Nesta série, Batman e Robin foram interpretados respectivamente por Robert Lowery (1913-1971), que atuou em mais de 180 produções, entre séries e longas, e Johnny Duncan (1923-2016).

Lee Roberts in Batman and Robin (1949)

Na trama, o antissocial Professor Hammil (William Fawcett) cria um aparelho remoto capaz de controlar todos os veículos da cidade. Um misterioso sujeito conhecido como Mago rouba o equipamento. A dupla dinâmica atua ao lado do comissário Gordon (Lyle Talbot) buscando a captura do inimigo. E, claro, salvam a repórter Vicki Vale (Jane Adams) em diversas situações.

Em 1965, o seriado O Morcego seria relançado no formato maratona com o título An Evening with Batman and Robin e faria tanto sucesso. Não por que os espectadores o acharam bom. Mas davam gargalhadas ao assisti-lo. A Fox decidiu produzir uma nova versão do homem-morcego, dessa vez nas telinhas.

O Morcego
Batman.
EUA. 1943.
Direção: Lambert Hillyer.
Com Lewis Wilson, Douglas Croft, J. Carrol Naish, Shirley Patterson.
260 minutos divididos em 15 episódios.

A Volta do Homem-Morcego
Batman and Robin.
EUA. 1949.
Direção: Spencer Gordon Bennet.
Com Robert Lowery, Johnny Duncan, Jane Adams, Lyle Talbot, William Fawcett.
263 minutos divididos em 15 episódios.


 

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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