Crítica | Batman, O Filme (Batman, 1989)

Superman – O Filme (1978) provou que super-heróis vindos dos quadrinhos poderiam dar certo no cinema desde que tivessem suas essências respeitadas. Segundo personagem mais importante da DC Comics durante muitas décadas, Batman alcançou o topo do mundo nos quadrinhos com uma sequência de três clássicos do gênero: as HQs O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, em 1986, Ano Um (1987) de Miller e David Mazzucchelli, e A Piada Mortal (1988) de Alan Moore e Brian Bolland.

O defensor de Gotham completaria 50 anos em 1989 e ganharia uma superprodução cinematográfica. A empreitada coube a um cineasta novato: Tim Burton.

O cineasta, um outsider, com um constante sentimento de não pertencimento e influências góticas, criou um estilo próprio e bastante autoral. Ao terminar o colegial, ganhou uma bolsa da Disney para estudar no Instituto das Artes da Califórnia. Em seguida foi contratado pelos Estúdios Walt Disney como aprendiz de animador. Produziria apenas três curtas-metragens: Vicente (1982),  Maria e João (1983) , Frankenweenie (1984), antes de ser despedido pelo estúdio, que considerou suas produções sombrias demais.

Michael Keaton in Batman (1989)

Três anos depois, seu amor ao horror e o talento para a comédia levaram o diretor a dirigir a obra Os Fantasmas se Divertem (Beetlejuice, 1988) que eternizou o ator Michael Keaton como o fantasma zombeteiro que aparecia após ser chamado por três vezes. Apesar do baixo orçamento, o filme teve uma boa bilheteria e ganhou o prêmio de Melhor Maquiagem no Oscar em 1989. A obra acabou chamando a atenção de Hollywood e o diretor recebeu o convite irrecusável para dirigir Batman, em 1989.

Entre os produtores, estava Jon Peters, que anos depois deteria os direitos de produção do Superman. Bob Kane seria consultor criativo.

Se atualmente seus dois filmes parecem mera diversão perto dos feitos por Christopher Nolan, naquele período soaram darks perante o visual camp de duas décadas antes.

Em Batman, Michael Keaton dá vida a um Bruce Wayne amargurado. Há quem diga que o ator não tinha o porte para ser Bruce Wayne/Batman. Para termos ideia, cerca de 50 mil cartas foram enviadas à Warner reclamando a escolha do ator. O intuito, segundo o cineasta, foi mostrar alguém de aparência comum. O inimigo é o Coringa vivido com energia por Jack Nicholson. Há ainda a repórter Vicky Vale, interpretada por Kim Basinger.

Kim Basinger and Michael Keaton in Batman (1989)

O roteiro faz do Palhaço do Crime o responsável pela morte dos pais de Bruce Wayne. Jack Napier é capanga do mafioso Carl Grissom (Jack Palance) que é vítima de uma armação do patrão, cuja esposa mantém um caso com o subordinado. Batman e a polícia aparecem no local e Napier cai em um tonel com uma misteriosa substância química. Só que ele sobrevive e se torna o Coringa, matando o chefe e levando o caos a Gotham.

Burton, que se tornaria famoso pelo visual dark, quase gótico, de seus filmes, e especialista em abordar figuras que não conseguem se adequar à sociedade, já mostrava esses temas em Batman. Não se trata de um filme de herói convencional.

Não há grandes cenas de ação, de luta. Mas a Gotham City gótica concebida pelo diretor de arte Anton Furst remete diretamente ao Expressionismo Alemão, principalmente Metrópolis (1927), de Fritz Lang. Trabalho que lhe rendeu o Oscar da categoria. As referências a essa fase do cinema alemão ficariam ainda mais nítidas na continuação, Batman, O Retorno (1992).

Jack Nicholson in Batman (1989)

A trilha sonora seria a cereja do bolo. Composta por Danny Elfman, que trabalhou com Burton em As Grandes Aventuras de Pee-Wee (1985) e Os Fantasmas se Divertem, dá um ritmo eletrizante ao filme, mesclando suspense, algo de terror e teatral e virou referência, usada muitos anos depois nas animações da DC em versões Lego. Canções de Prince, então um dos principais nomes da música pop, pontuam algumas cenas.

Se Keaton não foi unanimidade entre os fãs, os produtores decidiram cercá-lo por grandes nomes, tal qual ocorreu com Christopher Reeve em Suprman. Michael Gough (1916-2011) emprestou elegância a Alfred. Kim Basinger, ainda que em figurinos pavorosos, era uma estrela em ascensão, saída do sucesso 9 ½ Semanas de Amor (1986). Ela ocupou o lugar de Sean Young (Blade Runner), escalada para viver Vicki Vale, mas que se acidentou dias antes das filmagens.

Batman (1989)

E, claro, há Jack Nicholson. Um pouco fora de forma para o papel, é verdade, o premiado astro foi a escolha perfeita – nomes como Robin Williams chegaram a ser cogitados – para viver alguém enlouquecido. Afinal, ele esteve em Easy Rider (1969), Um Estranho no Ninho (1975) e O Iluminado (1980). Esperto, decidiu aceitar o papel desde que recebesse uma porcentagem dos lucros do filme. Angariou cerca de US$ 60 milhões, o maior cachê pago para alguém por um único longa. Muito tempo antes de Robert Downey Jr. receber US$ 50 milhões para ser o Homem de Ferro do Marvel Studios. Aparece mais tempo em cena que Michael Keaton e seu nome surge em primeiro lugar nos letreiros. Conseguiu uma indicação ao Globo de Ouro para ator em comédia/musical.

Existe quem questione o fato do Palhaço do Crime ser o assassino dos pais de Bruce Wayne, simplificando a relação entre os dois e, principalmente, Alfred deixar Vicki Vale entrar na Batcaverna sem que ela tivesse uma relação mais duradoura com Bruce Wayne. Por outro lado, não faltam momentos inspirados. O falecido crítico Edmar Pereira, do Jornal da Tarde, em sua crítica publicada em 20 de outubro de 1989, destacava o ataque “kubrickiano” (de Laranja Mecânica) do Coringa e seus comparsas ao museu. Apenas um quadro de Francis Bacon acabou preservado entre outros de Rembrandt, Renoir e Degas pichados e destruídos.

Enquanto adaptação dos quadrinhos, a trama emprestados elementos de The Case of the Chemical Syndicate (1939) e The Man Behind the Red Hood! (1951), quando foi mostrada pela primeira vez a origem do Coringa.

Ao arrecadar mais de US$ 400 milhões mundialmente (para um orçamento de US$ 35 milhões), Batman iniciou a segunda Batmania, mostrou que heróis podiam ser bastante lucrativos no cinema, deu origem à aclamada série animada dos anos 90 e tornou Tim Burton um dos principais nomes de Hollywood. Obviamente uma continuação era natural.

Batman, o Filme 
Batman 
EUA, Reino Unido. 1989. 
Direção: Tim Burton. 
Com Michael Keaton, Jack Nicholson, Kim Bassinger, Jack Palance, Billy Dee Williams, Pat Hingle, Michael Gough. 
126 minutos. 

Batman (1989)

Jack Nicholson, Terence Plummer, Richard Strange, and Tracey Walter in Batman (1989)

Batman (1989)

Kim Basinger and Michael Keaton in Batman (1989)


 

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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