10 filmes que fariam Crivella ter ataque de pelanca

Quem lacra, lucra sim. Após o Prefeito do Rio de Janeiro, Marcello Crivella (PRB), determinar que o livro Vingadores A Cruzada das Crianças fosse recolhido da Bienal, a obra gerou uma onda de postagens indignadas nas redes sociais defendendo a democracia, a liberdade de expressão e combatendo a homofobia.

Resultado? A obra esgotou. O ato (ilegal) de tentativa de censura do político surtiu efeito contrário. Serviu de marketing gratuito para a publicação. Mas precisamos ter cuidado, estarmos vigilantes. Quando um governante se acha no direito do que deve ou não ser comercializado, publicado, veiculado, divulgado, ferindo a Constituição, sem pensar no bem comum e agindo em prol apenas do que acha certo, algo está muito errado.

O sujeito justificou que o conteúdo é impróprio para menores. “Não é correto que eles tenham acesso precoce a esses assuntos”, disse. No caso, fica escancarado o perigo da mistura Estado-religião.

Diariamente somos bombardeados com cenas de beijos, pegação, sexo heterossexual em horário nobre. Pessoas sacaneando umas às outras. Violência de todos os tipos. Física, psicológica. Que estão à distância de um clique de qualquer um, inclusive crianças. E não vemos o mesmo tipo de reação por parte do prefeito, cuja crença religiosa é sabida (e tende não permitir gays ou quem possa ferir “a família, a tradição e os bons costumes”). O quadrinho em questão nada mais é que um beijo puro e simples. Nem língua aparece. E se aparecesse?

A fé ou não de cada um merece nosso respeito, desde que fique guardada à vida pessoal. Não deve influenciar decisões de um administrador municipal. Misturar política e religião deveria ser crime.

“O único tipo de intolerância aceitável é a intolerância à intolerância”, disse certa vez o filósofo Marcio Sérgio Cortella.

Abaixo indicamos dez filmes que retratam relações, beijos, de pessoas do mesmo sexo ou de quem não se encaixa em rótulos. “Consideramos justa toda forma de amor”. Lulu Santos está certíssimo.

Será que o prefeito Crivella pediria a não exibição desses filmes em um festival no Rio de Janeiro? Surtaria? E olha que nem listamos Azul é a Cor Mais Quente (2013), O Segredo de Brokeback Mountain (2005), Rocketman (2019), Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016), Milk: A Voz da Igualdade (2008), Má Educação (2003), Filadélfia (1993), Meninos Não Choram (1999), ou outros que poderiam fazê-lo enfartar.

A Garota Dinamarquesa (The Danish Girl, 2015), de Tom Hooper

Eddie Redmayne in The Danish Girl (2015)

Copenhague, Dinamarca, 1926. Einar Wegener (interpretado por Eddie Redmayne) e sua esposa Gerda (Alicia Vikander) são um casal feliz. Ambos são artistas, Einar prefere paisagens e ela retrata. Um dia, Einar posa para um retrato de Gerda enquanto usava um vestido. Isso é feito inicialmente como uma brincadeira, assim como a participação posterior em uma festa vestida de mulher. No entanto, Einar logo descobre que ela é de fato uma mulher e, com o tempo, prefere ser Lili. No começo, ela e Gerda tentam “curar” sua situação, mas isso não leva a lugar algum (exceto para muitos médicos que tentam prender Lili como pervertida e / ou lunática). Sua viagem de autodescoberta acabará por levá-la à primeira operação de mudança de sexo.

Amor Por Direito ((Freeheld, 2015), de Peter Sollett

Julianne Moore and Ellen Page in Freeheld (2015)

Laurel (Juliane Moore) e Stacie (Ellen Page) construíram uma vida juntas e são felizes. Quando Laurel descobre que ter câncer terminal, pede para que sua esposa receba os benefícios da pensão da polícia, por onde trabalhou por 23 anos. O problema é que as autoridades recusam o pedido, fazendo com que as duas iniciem uma batalha para ter seus direitos reconhecidos no judiciário como qualquer outro casal. O filme é baseado em uma história real, já retratada no documentário Freeheld, vencedor do Oscar em 2008.

Com Amor, Simon (Love, Simon, 2018), de Greg Berlanti

Nick Robinson in Love, Simon (2018)

 

Todo mundo merece uma grande história de amor. Mas para Simon Spier, de dezessete anos, é um pouco mais complicado: ele ainda não contou para a sua família ou amigos que é gay, e não faz ideia de qual seja a identidade do seu colega anônimo que divide o mesmo segredo. Resolver as duas questões se mostra divertido, aterrorizante e uma mudança de vida definitiva. Baseado no best-seller juvenil Simon vs. a Agenda Homo Sapiens, de Beck Albertali, o filme trata de uma história de amizades, descobertas e aceitação.

Carol (Carol, 2015), de Todd Haynes

Cate Blanchett and Rooney Mara in Carol (2015)

Acompanha a relação da jovem vendedora Therese Belivet (Rooney Mara, de Os Homens que Não Amavam as Mulheres) e a elegante Carol Aird (Cate Blanchett), que está se divorciando de Harge (Kyle Chandler). À medida que se apaixonam, precisam enfrentar o preconceito e a incompreensão. Dirigido pelo interessante Todd Haynes, com quem Blanchet trabalhou em Não Estou Lá (quando interpretou Bob Dylan), o longa alia sensibilidade e beleza desde os pequenos gestos, olhares, abraços, aos esplêndidos figurinos e direção de arte. Mas são as duas atrizes que fazem tudo valer a pena: Cate é um monstro em cena, uma presença poderosíssima. Rooney Mara consegue criar o contraste necessário com seu jeito inseguro e igualmente hipnotizante. É o tipo de filme que seria prejudicado se uma das atrizes destoasse da outra em intensidade. Assim como Audrey Hepburn e Shirley MacLaine em Infâmia (1961) e Ingrid Bergman e Liv Ullmann em Sonata de Outono (1978), temos duas grandes intérpretes dividindo a tela.

Desobediência (Disobedience, 2017), de Sebastián Lelio

Rachel Weisz and Rachel McAdams in Disobedience (2017)

Baseada no livro homônimo escrito pela autora britânica Naomi Alderman e publicado originalmente no Reino Unido em março de 2006, a trama acompanha Ronit (Weisz) voltando para sua cidade natal após a morte de seu pai, um rabino. Lá, ela reencontra Esti (McAdams) e revive com ela um amor de infância. No entanto, Esti agora é casada com o primo de Ronit, Dovid (Alessandro Nivola), condição esta que desencadeará um enorme desconforto no local e acarretará desdobramentos dramáticos ao romance proibido.

Hoje eu Quero Voltar Sozinho (2014), de Daniel Ribeiro

Fabio Audi and Ghilherme Lobo in Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014)

Já é cult este filme brasileiro que surgiu a partir do igualmente celebrado e premiado curta “Eu Não Quero Voltar Sozinho”. Repleta de momentos singelos, a história do adolescente que sofre preconceito por ser cego e que fica atraído por um novo aluno da escola é sobre relações amorosas, os sabores da vida, aqueles conhecidos e os novos que aparecem. É sobre não ficarmos parados e não perdermos o medo de sentir. Sobre nos permitirmos ser quem desejamos. Premiado em Berlim, é sucesso merecido de crítica e público.

Me Chame Pelo Seu Nome (Call Me By Your Name, 2018), de Luca Guadagnino

O sensível e único filho da família americana com ascendência italiana e francesa Perlman, Elio (Timothée Chalamet), está enfrentando outro verão preguiçoso na casa de seus pais na bela e lânguida paisagem italiana. Mas tudo muda quando Oliver (Armie Hammer), um acadêmico que veio ajudar a pesquisa de seu pai, chega.

Minhas Mães e Meu Pai (The Kids Are All Right, 2010), de Lisa Cholodenko

Julianne Moore and Annette Bening in The Kids Are All Right (2010)

Dois irmãos adolescentes, Joni (Mia Wasikowaska) e Laser (Josh Hutcherson), são filhos do casal Jules (Julianne Moore) e Nic (Annette Bening), concebidos através da inseminação artificial de um doador anônimo. Contudo, ao completar a maioridade, Joni encoraja o irmão a embarcar numa aventura para encontrar o pai biológico sem que as mães saibam. Quando Paul (Mark Ruffalo) aparece tudo muda, já que logo ela passa a fazer parte do cotidiano da família.

Quando a Noite Cai (When Night Is Falling, 1995), de Patricia Rozema

Rachael Crawford and Pascale Bussières in When Night Is Falling (1995)

Camille é professora em uma faculdade cristã e conservadora em Toronto. Quando seu cachorrinho morre repentinamente, Camille é consolada por Petra, artista de circo moderno que está passando pela cidade. A partir deste encontro com Petra sua vida começa a mudar. Com um roteiro cheio de simbolismos, Quando a Noite Cai é uma dos mais importantes filmes da cinematografia sáfica. Um filme sobre a transformação, sobre o novo e sobre as mudanças que o amor pode provocar em todas nós.

Vitor ou Vitória? (Victor Victoria, 1982), de Blake Edwards

Julie Andrews in Victor Victoria (1982)

(por Waldemar Lopes)

Depois de Mulher Nota 10, é o maior sucesso da dupla Julie Andrews-Blake Edwards Uma sofisticada comédia musical que teve sete indicações ao Oscar, a terceira para Julie, e a primeira para Blake, pelo primoroso roteiro, com diálogos brilhantes e hilários. Na charmosa atmosfera da Paris nos anos 30, Vitória,  cantora de ópera sem dinheiro é transformada no conde Vitor e se torna o sucesso da noite parisiense – até o gângster James Garner se apaixonar. Novo apogeu de Andrews e números musicais incríveis.


 

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

5 thoughts on “10 filmes que fariam Crivella ter ataque de pelanca

  1. Tatuagem e o segredo de Brokeback Mountain : seria um colapso para o governador ! Adorei a lista

    1. Ótimas sugestões Marcelo! Em breve faremos um post com 100 filmes de temática LGBTQ. Mande mais sugestões. Abraços, André

  2. Lindo texto. Qtas lembranças boas esses filmes me trazem e alguns eu não conhecia como esse Qdo a noite cai. O cinema como resistência. Sempre ! Parabéns!

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