Crítica | Superman (1941-1943)

Não. Não foi nem Christopher Reeve, no clássico de 1978, e nem George Reeves, no filme produzido para divulgar a série dos anos 50 ou Kirk Alyn nas matinês cinematográficas dos anos 40. Na verdade, não foi nem um ator de verdade que encarnou pela primeira vez, nos cinemas, o maior herói do universo.

Criado por Joe Shuster e Jerry Siegel e publicado originalmente em 1938, na revista Action Comics #1, Superman teve um programa de rádio de bastante sucesso dois anos depois. O próximo passo natural seria levar o herói às telonas. E foram dois irmãos judeus de origem alemã, Max e Dave Fleischer – criadores da rotoscopia, técnica de animação baseada em pessoas de verdade que revolucionou o gênero ao apresentar movimentos próximos da realidade – que ficaram incumbidos da missão. No currículo, tinham a criação da Betty Boopy e a produção dos desenhos animados do Popeye.

Procurados pela Paramount, inicialmente recusaram a ideia. Acharam que o estúdio desistiria quando pediram uma quantia alta. Que nada. Os produtores não só decidiram apostar na dupla como investiram um preço recorde para a época: US$ 50 mil apenas para o episódio piloto, quatro vezes mais do que se costumava pagar. Para termos uma ideia, as animações eram atrações menores nas matinês dos cinemas norte-americanos de então. A programação costumava contar com programas jornalísticos e longas-metragens. Superman recebeu tratamento diferenciado e até trailer teve para divulgar sua chegada às telonas.

A série de curtas-metragens animados para as matinês cinematográficas seria lançada em 1941. Foram 17 episódios ao todo – nove deles produzidos por Max e Dave. Os demais foram realizados pela Famous Studios, divisão de animação da Paramount, após a aquisição do Fleischer Studios naquele mesmo ano.

Superman (1941)

E quem vê o Superman atual, tanto dos gibis, como do cinema ou do desenho animado, não imagina que o personagem no início de sua existência não voava, e não economizava tempo em partir para a briga com os vilões.

Nas histórias, o homem de aço tem muito das tramas dos quadrinhos da era Siegel & Shuster, onde ele é kryptoniano, mas não foi adotado por um casal de bons velhinhos e nem criado em Smallville/Pequenópolis. Logo que chega ao planeta Terra, é recolhido por um taxista que o leva a um orfanato, onde passa sua infância. Além disso, seus primeiros voos ocorreram nesses desenhos – até então ele era “capaz de pular um prédio com um único salto”, como dizia a locução.

Foi também na animação que surgiram as frases “Mais rápido que uma bala. Mais forte que uma locomotiva. Capaz de saltar um prédio com um só pulo”. As tradicionais “É um pássaro? É um avião?” vieram do rádio, onde Clark Kent e Lois Lane eram dublados respectivamente por Bud Collyer e Joan Alexander. A dupla seria escalada para dublar os personagens também neste seriado.

Influenciado pelos filmes de gângster, com bastante sombra e contrastes, antecipando os filmes noir dos anos 40, com cores saturadas vindas das capas de revistas pulp e personagens como O Sombra e The Spider, o programa traz vilões excêntricos e a repórter (Lois Lane) atrás de uma grande reportagem e sempre envolvida no meio da ação, precisando ser salva pelo herói – O Homem de Aço (2013) investe nesse sentido.

Superman (1941)

Hoje em dia, os roteiros escritos por Seymour Kneitel e Izyy Sparber soam ingênuos, sem maior profundidade. Mas o tempo de duração de cada episódio não permitia maiores detalhamentos. Porém, a animação foi revolucionária: era muito bem desenhada, continha boas cenas de ação, retratava com certa fidelidade a Nova York da época e seus arranha-céus, e, diferente de tudo o que era feito na área naqueles anos, apostava em planos grandiosos, com multidões em cena.

O primeiro capítulo, simplesmente chamado de Superman (e depois denominado O Cientista Maluco) foi indicado ao Oscar de Curta-Metragem de Animação no ano seguinte. Sobre o segundo episódio, Superman Contra os Monstros Mecânicos, há quem diga que a história teria influenciado o genial cineasta japonês Hayao Miyazaki  (A Viagem de Chihiro) em uma cena de Laputa: Castle in the Sky (1986) e que Capitão Sky e o Mundo do Amanhã (2004) faz referência à animação. Não faltam histórias cujos vilões são sujeitos inescrupulosos, resquício da Grande Depressão dos EUA pós Quebra da Bolsa de Nova York em 1929, e japoneses, os inimigos do país na Segunda Guerra Mundial.

Inicialmente, parte da coleção chegou ao Brasil no DVD Superman em a Humanidade em Perigo, da NBO Editora, dentro da série de lançamentos Kids Collection.  Depois, a obra foi lançada completa num DVD duplo da Classicline. E está disponível no YouTube.

Sua influência é imensurável e foi a cartilha para as celebradas animações da Warner nos anos 90, começando por Batman: A Série Animada e depois Superman: A Série Animada e, finalmente, a Liga da Justiça. O próprio Bruce Timm reconhece isto em um documentário que integra os extras da lata com a coleção em DVDs do personagem. Uma obra-prima muito à frente de sua época.

Superman
Superman. 
EUA. 1941 a 1943. 
Direção: Dave Fleischer. 
Com vozes de Bud Collyer, Joan Alexander. 
144 minutos, divididos em episódios de 10 minutos cada. 

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André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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