Rubens Ewald Filho | Vida de Cinema (entrevista biográfica)

Breve introdução, por André Azenha

A importância de Rubens Ewald Filho (7 de março de 1945 – 19 de junho de 2019) para o cinema brasileiro é gigante, imensa, intensa, praticamente imensurável. Rubens nos deixou recentemente após trágico acidente. Mas seu legado fica. Este post é a forma que encontrei de reverenciá-lo. Trata-se do livreto biográfico já esgotado que publicamos e distribuímos gratuitamente pelo 3º Santos Film Fest – Festival Internacional de Filmes de Santos, quando ele foi o grande homenageado do evento. Na ocasião, Rubens recebeu o Troféu Luciano Quirino por sua contribuição ao audiovisual nacional. Antes, viu na telona do Cine Roxy um vídeo de quase 30 minutos que tentava resumir sua vasta trajetória profissional e com mais de 20 depoimentos de amigos.Também realizamos uma exposição com seu acervo pessoal: quadros, prêmios, fotos, textos, revistas, etc (alguns deles ilustram o texto abaixo). Também participou de um bate-papo sobre sua carreira e exibimos um filme que produziu, “Odinei Ribeiro: O Narrador de Emoções”.

A melhor forma de celebrarmos sua vida e sua carreira é disponibilizando o texto do livreto a todos. A partir de agora o que você lerá é a reprodução do livreto, conforme foi publicado, em agosto de 2018. Trata-se de um “entrevistão”. Mandava as perguntas e Rubens as respondia, em diversos e-mails. O material foi publicado em primeira pessoa, como homenagem à Coleção Aplauso, que ele idealizou e dirigiu. Nesta obra também estão sua primeira crítica profissional e um texto sobre seu filme preferido.  As fotos aqui divulgadas são do acervo do Santos Film Fest. As que mostram Rubens com a camiseta do festival ou usando vermelho, mais as que têm apenas seu acervo, foram feitas por Paula Azenha. Já as da exposição e do lançamento do livreto são de Thainara Macedo. 

APRESENTAÇÃO

Rubens Ewald Filho, filho de Elza Ferreira Ewald e Rubens Azevedo Ewald. Rubinho para os mais chegados, o Homem do Oscar para milhares de pessoas, é santista, pisciano, nasceu em 7 de março de 1945. Seu pai era presidente do Clube Saldanha da Gama na Ponta da Praia, diante do Canal da Barra. Rubinho acordava bem cedo todos os dias para ir treinar natação, fizesse sol ou chuva (não havia aquecimento de piscina na época). Nadou no oceano, pulou do trampolim velho (hoje demolido), atravessou o canal a nado – por vezes fugindo dos navios que passavam.

Pegava a baleeira para ir até as praias da Pouca Farinha, do Góes, ou o fechadíssimo Clube de Pesca. E também participava de travessias muitas vezes nadando com os botos ou se desviando das águas vivas. Encontraria, no cinema, um amigo, um confidente, um parceiro, uma janela para o mundo. Leitor das revistas Filmelândia (Screen Stories) e Cinelândia (Modern Screen), anotava tudo o que achava necessário sobre os filmes em seus cadernos. Faria quatro faculdades simultaneamente: Jornalismo, Geografia, História e Direito.

Pioneiro de várias maneiras, tornou popular a profissão Crítico de Cinema no Brasil. Foi o primeiro a escrever sobre filmes na TV, sobre vídeo, depois sobre DVD. Foi o primeiro crítico a trabalhar numa televisão por assinatura, a Showtime da TVA. Depois virou diretor de programação e produção da HBO Brasil, esteve uma temporada no Telecine, passaria a apresentar programas na TV Cultura e na TNT. Também fez cinema como ator e roteirista. Escreveu telenovelas: a mais premiada foi “Éramos Seis”, em parceria com Silvio de Abreu, em duas versões na Tupi e no SBT. E tornou-se diretor teatral em sucessos como “Querido Mundo”, “Hamlet Gashô”, “O Amante de Lady Chatterley”, “Doce Veneno – Bruna Surfistinha”.

É conhecido como o homem do Oscar – alcunha dada pela revista Veja São Paulo – já comentou a premiação 35 vezes (atualmente para a TNT, onde comenta também as festas do Globo de Ouro e SAG). Um recorde. Aliás, falando em recorde, seu amor pelo cinema é observado nos 53 mil filmes que assistiu, sem levar em consideração as reprises e séries. Um recorde mundial, digno do Guinness Book. Trabalhou nos principais órgãos de imprensa do Brasil (de Veja a O Estado de São Paulo), nas emissoras de televisão (Começou na TV Cultura, ficou 12 anos na Rede Globo, depois Record e Bandeirantes). Seus guias de vídeo e, posteriormente, DVD, ajudaram a formar gerações de cinéfilos no Brasil. Faz comentários no rádio que são distribuídos por todo o Brasil e para a Rádio Jovem Pan em São Paulo. Lançou em 2007 o livro “O Cinema vai à Mesa”, pela Editora Melhoramentos (premiado na Inglaterra) e a seguir, em 2008, “Bebendo Estrelas”, sobre vinhos e coquetéis.

Foi coordenador da Coleção Aplauso da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, que lançou mais de 170 títulos de resgate e preservação da memória cultural do Brasil. Considera seu trabalho mais importante o Dicionário de Cineastas, editado pela primeira vez em 1977.

Criou o polo cinematográfica de Paulínia e é curador do principal festival de cinema do país, em Gramado. Atualmente atua também na produção de filmes através de sua produtora GPS Entertaiment, em sociedade com o ator e diretor Germano Pereira. Lançou, em 2016, o longa-metragem “Somos Todos Estrangeiros”, sobre refugiados.

Batiza a sala de cinema do Cine Arte Posto 4, na orla da praia de Santos. Em 2013 abriu o 2º CulturalMente Santista – Fórum Cultural de Santos, para auditório lotado e, no mesmo ano, recebeu a Estrela na Calçada da Fama, do Cine Roxy. No ano seguinte, foi homenageado como Super Crítico pelo 1º Nerd Cine Fest Santos.

Agora, chega a vez do Santos Film Fest prestar a devida reverência a este santista, “zero treze”, que leva o nome de nossa cidade ao mundo, que propaga o cinema com amor, garra e muito conhecimento. Seja bem-vindo Rubens Ewald Filho! E muito obrigado! Os amantes do cinema agradecem suas existência e persistência!  No texto a seguir, Rubens, em primeira pessoa, nos moldes da célebre Coleção Aplauso, a qual foi idealizador e coordenador, relembra sua infância, Santos, o início de sua amizade com o cinema e diversos fatos que marcaram sua vida pessoal e sua trajetória profissional. Registrar de forma impressa, a vida do maior crítico de cinema do Brasil, é uma forma do Santos Film Fest cumprir seu papel de resgaste histórico e valorização do nosso cinema. Não há a intenção desta ser a biografia definitiva de Rubens.

Afinal, grandes pessoas merecem várias biografias, despertam diferentes visões e devem ser reverenciadas sempre. Porém este livreto traz um apanhado interessante e profundo do “homem do Oscar” ao mesmo tempo em que é realizada, no festival, uma exposição homônima com o acervo pessoal do crítico. Leia, releia, empreste aos amigos, familiares.

A vida de Rubens Ewald Filho é uma verdadeira Vida de Cinema!

ENTREVISTA BIOGRÁFICA

INFÂNCIA E LEMBRANÇAS DE SANTOS

Não sei se já falei nisso, mas nunca tive um amiguinho, ou ainda, um colega. Passei toda a infância em casa com os pais e também um tio (Gilberto) e os avós. O “avodastro”, como chamava, era emigrante português que endinheirou e na verdade sempre foi uma boa pessoa, distante, mas correto sempre. A avó já nem tanto. Vicentina brigou com o resto todo da família que era de São Vicente, o pai dela foi um dos pioneiros a se mudar para a cidade e ainda cedo se aposentou, comprou muitas terras e tinha 11 filhos – mais mulheres que homens – alguns morreram. O esperto bisavô foi vendendo pedaço a pedaço das suas terras e, quando morreu, tinha sobrado muito pouca coisa. Mesmo assim os filhos e genros foram brigando entre si, de tal forma que quase todos não se deram pelo resto da vida. Uma confusão que não sei bem. Sempre fugiram de contar a história real.

A família italiana da qual eu sou descendente era os Lapetinas, que veio de uma região pobre – a avó tinha vergonha disso e só me contou no fim da vida). Mesmo assim éramos parentes do Padre Paulo Horrneaux de Moura, que foi quem estava no Colégio Santista quando estudava lá – tenho que dizer que ele era honesto e divertido, nunca soube de ter se aproveitado de ninguém. Nem tentou me transformar em padre como sucedeu com vários professores /irmãos maristas, que tinham essa ilusão.

Então, eu sozinho e com minhas falhas de nascimento, tinha problemas para ter amigos que não tinha. O cinema que era meu amigo, que me instigava a imaginação. Eu tinha três primos diretos, do irmão mais velho de meu pai, Tio Otto Ewald, o Luiz Carlos de Britto Ewald, Susana e Otto Fernando (Susana infelizmente morreu cedo demais embora já adulta). E eles todos viviam no Rio de Janeiro e apenas vinham para alguns natais na casa e depois apartamento dos velhos. Quero ressaltar que Luiz Carlos – que depois trabalhou na TV Globo como consultor de economia e aparecia no Fantástico, era professor de economia e, apesar de ser mais velho do que eu (nada de bullying), sempre foi gente boa. Na verdade, foi ele quem me estimulou a escrever os cadernos com os filmes que fui assistindo e que mantenho até hoje. Aliás, mantenho até hoje laços de amizade com o Otto e o Luiz, que têm vários filhos (e um deles inclusive, Luiz Carlinhos, cantor de reggae).

É interessante dizer que a família era classe média, mas teve problemas com a Guerra Nazista (Segunda Guerra Mundial) porque o sobrenome era alemão, Ewald, então aderiu o Azevedo, inclusive, para ter uma fazenda de bananas, na região de Mongaguá e Itanhaém, e também um negócio de cabotagem/ navios pequenos.

O nome Ewald é alemão mas eles não puderam usar por causa da Guerra. Daí tudo virou Azevedo que era o nome do avô, pai de minha avó mas felizmente não teve muita ou nenhuma influência alemã. Meu pai foi diretor da Organização dos Bananicultores. Tinha cabeça boa e nunca aceitou Hitler (tinha muitos amigos judeus). Eu é que aceitei bem pior os alemães, quando fui visitar o Festival de Berlim a serviço passei muito mal e tive que voltar para o Brasil. Engraçado que eu estudei e aprendi várias línguas mas com o alemão eu tentei três vezes e não consegui. Era bloqueio mesmo.

Meu pai era campeão de basquete no Saldanha da Gama onde tornou-se presidente do clube durante anos. Diziam que ele era o homem mais bonito de Santos, não sei disso. Com o passar do tempo, vi que tinha defeitos mas era um homem bom, sério, honesto, que muitas vezes não me entendia mas fazia um esforço enorme para ajudar a evoluir. Não era um alemão típico. Em relação aos navios, essas embarcações não tiveram sorte. Um foi abalroado e afundado por um navio estrangeiro que fugiu – cheguei a levar o caso a um advogado em Boston mas não serviu para nada. Outro que explodiu, um escritório que pegou fogo! Fazenda Barigui era o nome, eventualmente foi vítima de enchentes e da crise na Argentina, com a volta do Peron e sua nova mulher Isabelita, o que criou uma baixa inflacionária por lá terrível. Algumas vezes eu viajei para Buenos Aires levando dinheiro daqui para tentar impedir o fechamento total dos negócios. O que não adiantou nada. Foi o desastre e a fazenda foi perdida – os pais chegaram a me perguntar se eu aceitaria cuidar dela embora já estivesse em São Paulo no Jornal da Tarde. Disse que sim porque tinha certeza que eu daria um jeito, enquanto meu pai não encontrou saída para resolver a situação, nem nunca comentou comigo diretamente os problemas, certamente com vergonha. Quando tinha apenas 60 anos, sentou-se em um sofá e morreu aos 80, sem ter feito nada mais importante ou especial.

Ia de vez em quando na praia, no Saldanha, nem quis viajar para a Europa como eu propus – acabei levando minha mãe para visitar Estados Unidos e parte da Europa, até porque tinha paixão pela França, que de certa forma eu herdei também. Mas ele nunca se perdoou de não ser mais o homem bem de vida e respeitado. Conto isso tudo porque reflete muito diretamente em mim, já que eu sustentei os pais desde então, o apartamento que pusemos nos nomes dos dois filhos. A família era conturbada por eventos negativos. Meu pai tinha dois irmãos que faziam parte da Sociedade, o Gilberto que passou grande parte da vida dele no Clube Tênis de Santos, onde era chamado de Barão! Um bom vivant. Boa gente também. Ficou solteirão. O outro era Otto Ewald, que viveu muito tempo em Buenos Aires (para onde exportávamos bananas) que teve três filhos. É até hoje uma ótima pessoa, e mal sabe ele que foi quem me influenciou com o cinema, inclusive me estimulando a começar a escrever os cadernos marcando todos os filmes.         Acho importante situar tudo isso porque a infância foi extremamente caótica. O nascimento foi complicado e eu e minha mãe Elza fomos dados como mortos no parto que durou mais de dois dias.   Éramos dados como perdidos quando miraculosamente houve uma virada e nos resgataram com as devidas feridas. A mãe muito machucada e eu não apenas tive marcas no rosto e nas costas como até hoje não tenho sensibilidade cutânea em certos pontos do corpo. Enfim, já era esquisito desde pequeno e conseguir sair dessa e criar um Rubinho lúcido e quase normal não foi nada fácil.

O cinema foi a válvula de escape, foi o professor, o inspirador, sempre mais por intuição que até hoje ainda me controla e domina, do que o próprio raciocínio. Entende

Era um garoto extremamente solitário, sem irmãos – e o único irmão eu teria depois, teve a infelicidade de ser ladrão e fugir com dinheiro que roubou de mim, de tal forma que foi para os EUA. Hoje me arrependo de não ter denunciado para o banco e até mesmo as autoridades. Não, não consegui superar o baque, era irmão único e sempre fiz tudo para ajudar. Na verdade, certas coisas a gente não perdoa, só tenta esquecer. Então vamos deixar de lado personagem tão infeliz!

Foi a forma (o cinema) de enfrentar a solidão, a avó mandona e antipática, que no fundo me desprezava a timidez total. Santos era uma ótima cidade para a gente “sair” porque é boa de morar, de fazer esporte, de ir ao cinema, e de fazer vida cultural. Não é à toa que tanta gente boa saiu de Santos. Essas pessoas, sempre que puderam, retornaram. Eu sempre gostei de Santos e sabia que um dia ia ter que sair dela para completar estudo ou ir em busca de sonhos ou mesmo trabalho.

 

O INTERESSE PELO CINEMA

        

O que me ajudou foi meu pai ter me colocado no esporte (já que eu era desengonçado) mas só me virei bem na natação que é um esporte não coletivo e sim pessoal. Acho que isso me ajudou inclusive no exemplo: até hoje não fumo, não bebo, gosto de dormir cedo, e tenho saúde por causa do esporte – fui nadador até os 17 anos, e participei de provas no interior, na cidade, na travessia de Santos que na época ainda era possível. Nadar foi uma benção e uma lição de saúde. Recomendo a quem puder e tem filhos!

O esporte nada tinha a ver com o filme, também não atrapalhava. Eu lia duas revistas que me ajudaram muito que foram a Filmelândia (Screen Stories) e Cinelândia (Modern Screen),: funcionaram de 1952 a 1964. Pareciam ser uma versão do original americano, mas na verdade tinham jornalistas locais, que falavam de cinema brasileiro, da importância dos diretores de qualidade, do cinema europeu e assim por diante. Me ajudaram e ensinaram muito mais ainda a Filmelândia porque trazia o resumo integral dos filmes do mês, transformando em novelas ou contos longos. E quando a gente não tinha idade para ir ao cinema, lendo a revista já ficava sabendo de tudo. As duas foram minhas professoras e tenho a coleção comigo completa! Graças a elas que fui despertado para o mundo de Hollywood, embora tenha recebido influência da Dulce Damasceno de Brito, que escrevia para o jornal Diário de Santos como correspondente em Hollywood – anos depois me tornaria amigo muito próximo de Dulce que veio morar no Brasil e que me contou grandes histórias a respeito dos ídolos! Não foi influência no sentido artístico mas grande amiga e a única nossa que realmente teve uma presença enorme. Era amiga íntima de Carmen Miranda que nunca traiu, além de Marilyn Monroe, de Kim Novak, vizinha de Marlon Brando, o que mais se pode perdoar. E embora escondesse teria tido um romance com Fredric March, na época ator importante. Bom eu tracei outro caminho.

Lembrando de minhas falhas, timidez e dificuldades de me expor e entender. Nunca houve problema de bullying porque cresci logo grande e meio gordo, e ninguém ousava mexer comigo. Nem no Jardim da Infância, como se falava na época, nem no Colégio Santista, onde passei todo o ginásio e científico. No Santista, os professores “meio padres”, tentavam me transformar em um deles mas nunca abusaram de mim de forma alguma. Até gostei muito do curso lá e curiosamente chegaram a ouvir com respeito uma lição onde eu falava de cinema em detalhes. Bons tempos.             Santos sempre foi muito legal comigo, na escola, no grupo de teatro que trabalhei com gente de primeira linha vindos do Teatro Teffi (Teatro Experimental da Faculdade de Filosofia) da ainda não chamada de Universidade Católica. Onde eu fiz a turma de amigos que prezo até hoje, que me ensinaram muito. Cito nomes como Neyde Veneziano, Jandira Martini, Eliana Rocha, Ney Latorraca (ainda hoje é como se fosse um irmão!), Perito Sampaio – para terem ideia de como tínhamos em Santos gente de primeiro linha, Betty Mendes era de outro grupo de teatro, Nuno Leal Maia amigo meu da praia. E devo estar esquecendo de alguns. Todos fizeram carreira artística. Eu menos porque no fundo nunca quis ser ator, estreei em uma peça mas não queria fazer carreira. Como a família não queria que eu fosse do ramo, usei um pseudônimo inventado na hora (D. Azevedo). E fiz o papel do enforcado. Nada demais.    Depois o grupo encenou outras peças e eu continuei com eles mas em geral controlando bilheteria ou ajudando no que fosse possível.        Meu interesse maior era o cinema mesmo mas teatro sempre fez parte da minha alma. Uma figura muito importante no Teffi foi o Carlos Alberto Soffredini, o dramaturgo do grupo e que, por acaso, morava na mesma rua que eu: Barão de Paranapiacaba! Faltou dar o nome da peça a única que realmente fiz como ator, “O Auto da Barca do Inferno”, de Gil Vicente. Resumindo, a infância foi ruim, difícil, apanhei muito porque era assim que se educava na época – era costume mas confirmo que os pais eram gente boa. As minhas falhas de nascimento até hoje deixam sua marca. Mas superava-as da maneira que era possível e o cinema era minha muleta.

Então não se pode esquecer as salas de cinema, que na época eram muitas e você fazia tudo a pé, inclusive nos cinemas de bairro. Alguns deles passavam os famosos e lendários filmes japoneses para a colônia oriental dos quais consegui ver alguns no Cine São José. O meu favorito era o Atlântico na Praça da Independência porque foi lá que vi o primeiro filme oficial, “Tarzan e as Sereias” (1948), com Johnny Weissmuller. Não sei bem a data, mas devia ter uns três ou quatro anos. Curiosamente Johnny era o maior nadador da história até então e sabe lá se isso influenciou. Era uma sessão às dez da manhã e até hoje ainda tenho lembranças e pesadelos com o cinema – hoje lá tem um prédio de poucos andares. Ali é que começou a minha missa, onde como numa igreja nós idolatrávamos nossos ídolos e nossas emoções.

 

GRANDE AMOR

 

Não foi um amor que morreu como parece ao falar assim. Foi um amor que perdi porque era bobo. Talvez, muito pretensioso por ser intelectual e metido em várias faculdades, custei a perceber que havia uma moça que tinha me ajudado muito a ser gente e mais adulto. Ela era minha melhor amiga, que melhor me entendia e o pior vice-versa, mas nenhum dos dois soube perceber ou explicar coisas da época também. Como precisávamos um do outro, continuamos grandes amigos. Até que ela começou a namorar outro (eu claro que não aprovava e achava que não daria certo pois eram diferentes demais). Por sinal me dava lindamente com a família dela e a minha não interferia, não era esse o problema.

Só fui entender quando ela se casou e me chamou para ser padrinho e eu aceitei – ele não gostou muito. No dia do casamento, quando a abracei, ela disse “Rubinho meu amigo”. E eu comecei a chorar e chorei dois dias inteiros até quando caiu a ficha e percebi que era como naquela canção (“Esmeralda”, de Carlos José) famosa antigamente “quem devia se casar com ela era eu” e perdi a chance. O mais curioso e triste é que a mesma coisa acontecia simultaneamente com ela, mas havia um problema de saúde com ela e a família, o que era algo que não podia ser evitado ou cancelado. Passei anos namorando outras e sofrendo porque gostava era dela por muito tempo, mais de vinte anos. Fiquei noivo duas vezes aqui em Santos e eram garotas ótimas, em todos os sentidos. O mais triste é que o marido morreu e conseguimos namorar. Foi bom enquanto durou, mas infelizmente tanto tempo depois não éramos mais as mesmas pessoas. Cada um cresceu para um lado, e agora não nos entendíamos como deveria ser. A ideia de um amor perfeito fica na amizade que ainda temos, mas tudo é verdadeiro e um pouco mais triste do que eu fiz.

Não se perde a chance de um amor, por isso que fomos, eu fui em especial um tolo, perdi minha chance. Hoje vivo sozinho e há muitos anos é assim. Fui tolo sem dúvida. Que os que me leem não façam o mesmo.

 

QUATRO FACULDADES AO MESMO TEMPO

 

Não disse que Santos era boa para ir ao cinema? Pois é, ir nas faculdades também era muito bom, porque você podia fazer as provas em horários alternativos (principalmente Direito) e também não eram muito rigorosos nas colas, preferiam aprovar os alunos. No caso, Direito era das 8h às 10h30 da manhã. Dava tempo de eu ir andando da faculdade até o Gonzaga, onde morava. As outras eram quase na continuação da minha rua. Me emprestavam o carro, mas era possível também ir a pé e ainda dar aula em escola particular, já que fazia faculdade de História e Geografia. Olha, acho que me repriso que foi a melhor coisa que já fiz, Direito é um exercício para muita coisa e alternativas, até hoje tenho a carteirinha e sou advogado formado e pagante (risos) embora tenha advogado muito pouco.   Claro que foi Jornalismo o curso que mais gostei, porque era o mais perto do meu universo, que finalmente ia se abrindo.

Fui muito rejeitado por garotas que me interessavam e quando entrei em Direito, uma colega veio falar comigo e me pediu para namorar. Coisa inédita para mim, em geral era eu que fazia isso e recebia um sonoro “não”. Sabem o que eu fiz? Disse para ela que “eu iria pensar no assunto”. E nunca mais toquei no assunto com a colega, que era até bonitinha, acho que a usei como vingança. Minha timidez era tão forte, que cada passo era uma aventura e uma dificuldade.            Meu pai não queria que eu frequentasse como de direito os clubes mais ricos da cidade porque ele era do esporte e “não gostava de gente metida”.

Nunca explicou direito, sendo que o irmão dele Gilberto era fixo no Tênis Clube, talvez o clube mais chique. Isso era esquisito quando você é jovem, estuda em um colégio de classe média alta (como o Santista) e frequentava outro nível, mas vejo agora que foi uma coisa boa porque o pessoal do esporte era mais direto, mais sincero e simples de comportamento. Fiz amigos e gostava deles, embora nem todos chegassem a ser íntimos ou próximos, mais por culpa minha. Na verdade, devo muito ao esporte, à natação, porque nos outros eu era um desastre, falta total de controle, sempre jogava a bola para fora, fazia as coisas erradas no basquete, acho que herança da infância.

Foi ela que me fez não fumar (proibido na natação), praticamente não beber álcool, ter saúde até hoje por causa disso.

 

SAUDADES DA TERRA NATAL

 

Santos era uma cidade tranquila, bonita, com o parque Balneário ainda em pleno esplendor. Uma tristeza o terem demolido e pior ainda, nunca mais terem liberado o jogo, que eu como era do show business sempre sonhei em fazer shows musicais por lá e por Santos inteira.

Quando a gente sai da cidade natal nunca vai esquecer. Santista é bairrista com toda razão e sempre me apoiaram porque desde que fui para a televisão e fiquei conhecido nunca houve entrevista em que eu não começasse dizendo “Eu sou de Santos” e também do Santos Futebol Clube, obra de meu pai que me levou para ver o time mesmo antes de Pelé estourar – anos depois ele me chamou para ver o piloto, o copião do filme documentário dele e todas as imagens desfilaram diante de mim. Meu Deus, vi tudo aquilo e pequeno ainda, não cheguei a dar o valor a ele e seus parceiros, porque aquilo que era time e era futebol. Hoje dá tristeza até comparar. A mim marcou demais, nunca vi nada melhor do que o Santos e o time maravilhoso que existiu e acabou.

Um detalhe curioso que vocês não sabem, trouxe para Santos a equipe da TV Tupi que filmava “Éramos Seis”, versão dos anos 70, e gravamos na Praia, no Orquidário, e vejam que legal, o bonde velho era justamente diante do estádio do Santos, o lugar onde melhor encontrei ainda trilhos em boas condições. Até o final trouxe para minha primeira novela para minha cidade!     Hoje ela é considerada um clássico, uma das melhores novelas de TV de todos os tempos.     Então quando me perguntam de saudade já sabem, tudo me traz saudade e não volta mais. Não queria nem devia ter vendido o apartamento em que morava na Galeão Carvalhal, mas é outro fruto do roubo do meu irmão. Não dá para perdoar alguém que some com seus LP’s de musicais e trilha antigas de cinema, né? Isso seria caso de cadeia mesmo (risos).

Faltou dizer que fiquei em Santos, porque fiz teste de profissão, coisa então rara e me disseram que eu deveria fazer Diplomacia – o que não estava errado, tenho um lado muito diplomático sim. Mas quando formei o colegial estava com 17 anos e você só podia se inscrever no concurso de Diplomacia com 21.  Então resolvi aproveitar tudo que Santos tinha para oferecer. Fiz vestibular para Direito na Católica de Santos e fiquei em sexto lugar, o curso era de manhã e eu achava que sobrava tempo (nessa altura já tinha ganhado o teste de Michigan, que era o que se usava na época, portanto já era formado em inglês, estudava Francês na Aliança e tinha aulas de italiano. As três línguas ainda sou proficiente mas o espanhol que veio do Colegial). Resolvi então fazer o concurso para o curso de Jornalismo que naturalmente me cativou e me fez encontrar o caminho das pedras. Fiquei em terceiro lugar no vestibular. No ano seguinte, resolvi me inscrever noutra da mesma escola, Geografia e História – ainda arranjei tempo para concorrer à presidência do Grêmio do Jornalismo, sendo que perdi por um único voto. O curioso é que perdi a votação por um voto, quem fez isso curiosamente foi uma amiga minha que preferiu a oposição. Nem na época isso me aborreceu e achei que era um boa lição de vida. Leva-se porradas dos amigos também.

Foi até melhor porque logo depois veio a proibição do governo federal de se ter organizações acadêmicas. Aliás, outra história que ninguém sabe, quando teve a dita revolução ou golpe, eu já estava no Jornalismo, que era dirigido por padres. Ouvíamos no rádio o que viria acontecer.     Eu que nunca gostei de política e tenho horror por políticos até hoje, fui chamado para falar numa aula de Discurso ou coisa que o valha, coisa típica da época. Mal sabiam eles que subi e comecei a xingar a tal “Revolução”, que não iria nada dar certo, que iria durar anos para acabarem com esse tipo de jogada. Enfim, o professor (que não era padre), quando ouviu o que eu dizia, não sabia o que fazer, não queria interromper. Mas fui até o fim, onde lamentava o horror de um golpe de estado fadado a piorar ainda mais as coisas. Foi coragem minha, sei lá, acho que foi um arroubo de loucura mesmo, que podia ter me custado caro. Se bem que tudo que disse depois virou verdade. Foi o começo de anos e anos de ditadura e abusos. Acho que falo tudo isso porque o que eu mais sinto saudade é justamente a Faculdade de Jornalismo. Tinha algo de sonhador, de heroico, enquanto comparando com hoje em dia tudo parece patético, meio ridículo. Então era possível sonhar.

 

FACULDADE DE JORNALISMO

 

Durava apenas três anos, mas nosso professor era o mais atual e moderno. Imaginem que no primeiro ano logo ele ensinou sobre a obra de Aldous Huxley (conhecia apenas “Contraponto” e “Admirável Mundo Novo”) que, naquele momento, falava de ácido lisérgico e trips (viagens) – isso ainda no começo do movimento de drogas nos EUA! Era o topo do modernismo (a escola era católica). Na verdade, era uma figura excêntrica, mas dá para sentir que viria com tudo de novo e interessante mas sem dúvida era curioso ficar na sala com o diretor monsenhor da escola ouvindo pelo rádio a chegada dos tanques a Rio de Janeiro.

Sem entender muito, porque a vida da gente era distante do Porto da cidade e de toda a perseguição que a cidade de Santos iria sofrer nos anos seguintes, com estranhos e militares sendo nomeados prefeitos sem a menor noção do município. Acho que foi a época mas feliz da minha vida, quando encontrei grande número de gente querida e que eu seguiria para o resto da vida – completei as duas escolas, mas não as outras duas, que eram em horário da tarde alternativo, infelizmente. Apesar disso, a paixão pela História nunca me deixou e me serviu muito para analisar, seguir filmes e detalhes de acontecimentos. Pena porque tive que largar.

 

ASSISTIR DOIS FILMES AO MESMO TEMPO

 

Houve um momento da febre do vídeo onde eu era o papa do gênero por causa da Videonews, a revista que me contratou e onde fiquei anos. Não pagavam muito mas eram gente boa e foi legal a relação. Eu levava tudo muito a sério. Via todos os filmes que saiam e mandava o material para a revista.

Era uma festa em lançamentos de vídeos e feiras, assinava autógrafos e tudo mais. O problema era que não havia tempo de ver tudo. Os principais filmes eu via no cinema ou em viagens, mas já tinha em casa na sala duas televisões grandes. Em uma delas eu assistia os filmes normais, na outra usava mais para rever filmes antigos que não assistia há muito tempo, ou então desenhos animados ou coisa que o valha… E, ao mesmo tempo, porque era o único jeito de rolar o serviço. Na verdade, fazia quase tudo porque não gostava de dividir. O resultado era muito pessoal. Eu ficava, digamos, com ciúmes (risos) e gostava de ver tudo. Bom, o jeito que dava mais certo era o filme principal ser na língua original (como falo várias não era difícil) e, na outra, legendada. Assim ficava mais fácil: um entrava por um ouvido e outro pelo aspecto visual e auditivo. Teve gente que veio em casa e começou a espalhar essa história. Criaram a lenda de que eu via quatro filmes ao mesmo tempo, nem tanto mas se vocês verem alguns canais estrangeiros de nosso tempo atual ou na sala de gravação de emissoras, isso é muito comum. É só treino e atenção. Hoje em dia não faço mais isso porque infelizmente não temos mais filmes e vídeos, sinto uma falta e o blue-ray acabou no Brasil cedo demais, outra tristeza. Hoje fica tudo difícil de fazer arquivo ou manter filmes em casa.

 

CRÍTICO DE CINEMA = ARQUEÓLOGO

 

Sim, não apenas jornalistas, mas alunos de cinema. Tem a história real de um amigo que no primeiro dia de aula na faculdade viu um aluno levantar e dizer para todos: “o professor não vai vir com os filmes daquele chato do Hitchcock”. Se Hitch é chato, imagina então os outros (risos). Mas é um retrato muito claro da geração atual, que não se interessa por nada que exista antes do século passado. A burrice é que se você não aprender do passado jamais vai ter um futuro, vai cometer todos os erros, aprender tudo de novo. Em vez de ganhar tempo.

É verdade que a tecnologia mudou, facilita um pouco as coisas. Depois as pessoas também não leem mais quanto deveriam. Resultado: vemos filmes muito fracos, mal dirigidos, mal escritos, principalmente dentre os brasileiros, uma falha terrível da nossa cultura. Por isso que falei em arqueólogo, porque vivo atrás dos filmes antigos. Não me conformo em ter perdido alguma coisa e continuo assim, curioso sempre e sempre aprendo alguma coisa dessa forma.

 

SOBREVIVÊNCIA DO CINEMA

 

Não somos apenas nós, é o mundo inteiro que está assim: baixando, copiando sempre o filme mais novo, mais curioso. Não baixam só o que quer e interessa. Vale o super espetáculo, o blockbuster e muito raramente os filmes mais de arte, com a exceção àqueles do Oscar, mas que no entanto perdem bastante na tela pequena, sem o devido som e a tradução correta. Não vejo como isso vai mudar, ao contrário, temo que as salas irão aos poucos ser da Imax. Aliás, acho o máximo esse sistema há muitos anos e gosto muito de ver os filmes, se possível, sempre duas vezes porque descobri que só assim entendo e compreendo melhor. Sim, infelizmente a sala de projeção de que gostamos tanto iremos perder em um futuro próximo, não quero nem pensar. É preciso que assistamos os filmes em grupo, com companhia, quase como futebol.Hoje em dia não se namora quase nunca no cinema, o que já é uma tristeza e era uma das coisas mais interessantes da vida do jovem ou do casal, morreu isso e o antigo cinema que gostamos vai indo junto.

 

DIRETOR TEATRAL

 

Não se esqueçam que minha origem é justamente o palco e meu grupo de amigos era todo de teatro. Convivi o tempo todo com eles, nem que fosse ajudando na bilheteria e afins. Li, frequentei, assisti tudo que era peça importante, ainda mais porque viajei muito para o exterior vendo shows e textos, foi um enorme aprendizado. Me deu muito prazer e muitas lições.

O convite para dirigir foi meio sem querer porque dois amigos me chamaram para ser uma espécie de critico mesmo de uma peça que eles iriam montar (só de dois atores), texto do Miguel Falabella. Vieram em casa me convidar e eu aceitei, pegamos o texto e, na primeira reunião, eu fui apontando tudo que estava errado e podia ser melhorado.

No fim da reunião, eles e eu brincamos “mas o que eu fiz não é dirigir?” Rimos e concordamos que sim, que eu sem querer assumia a direção porque tínhamos muito pouco tempo para preparar, menos que duas semanas. Mas eles eram experientes e talentosos, Fallabella e Maria Carmen Barbosa. Acho que ele nunca liberou a montagem porque havia sido o primeiro texto dele e não havia sido sucesso originalmente. Os atores eram Maximiliana Reis e ele Jarbas Homem de Mello, marido de Claudia Raia, minha amiga hoje em dia. Pois fizemos a peça, foi muito bem e ficou três anos em cartaz girando o Brasil. Nada mal, né…

Depois disso eu me aproximei de um grupo teatral de São Paulo muito bom, “Os Satyros”, e fui ficando amigo. Encenei duas peças que gostaria de experimentar, um Hamlet só que budista e com a Monja Coen nos orientando e foi muito bem recebido pela crítica, muito bem sucedido. Depois fizemos o texto ousado de “O Amante de Lady Chatterley”, novamente sucesso de crítica e admirado pelo público. Até “Os Satyros” me elogiou muito. Ano passado (2017) fiz um musical com canções da Broadway chamado “Broadwish”, uma única apresentação para a comunidade judaica e foi muito legal. Não fiz mais porque não me chamaram e não tive oportunidade, mas gosto muito sim de teatro.

Esqueci de mencionar uma coisa interessante. Meu pai era formado em Economia e a madrinha de formatura dele foi a então jovem Cacilda Becker. Tínhamos uma foto deles dançando no baile, mas parece que sumiram com ela, talvez minha mãe. Enfim, algo não deu certo, ela era uma moça pobre mas muito livre e esperta, (no melhor sentido). O fato é que ele não aceitou muito essa separação, acredito que era meio apaixonado por ela. Não falava mal dela mas tinha uma birra contra o teatro, adorava teatro de revista e acabei até sabendo depois que chegou a sair com vedetes mas não queria me ver envolvido com teatro. Uma de suas raras restrições. Uma vez me proibiu de sair para ver a peça que ela estava levando no Coliseu.           Foi sempre uma barreira, eu só fui vê-la depois no Teatro Cacilda Becker em São Paulo, subindo a serra com o grupo do teatro ao menos em duas vezes, com Virginia Woolf e uma peça de Tennessee Wiilliams, “A Noite do Iguana”. Cheguei também a cruzar com ela numa festa de premiação mas era gente demais e não houve chance de conversarmos.

Logo depois, teve o derrame e morreu. Cedo demais. Cheguei a falar sobre isso com a irmã mais nova, Cleyde Yáconis, magnífica atriz, mas era bem mais nova que Cacilda e não soube dizer nada. Sempre brinquei que ela podia vir a ser minha mãe. Acabei ficando muito amigo do neto dela e do único filho, que queria que eu fizesse com ele uma montagem da peça (como ator) de “Esperando Godot”, justamente aquela em que Cacilda morreu em cena. Não aceitei, era coisa demais para um ator amador como eu. Cheguei a gravar uma entrevista com ele, que ainda tenho e continua inédita.

 

OS PRIMEIROS FILMES QUE VIU

 

Os primeiros filmes foram sem dúvida os da Disney. O musical, gênero que sempre gostei (até hoje). Mas os críticos de então chamavam Judy Garland de baleia e quase todos os filmes musicais passaram com cortes de várias canções – o filme “Essa Loura Vale Um Milhão”, de 1960, com Judy Holliday, passou aqui com apenas duas canções! Mais de uma dúzia foi inteiramente cortada. Até a “Noviça Rebelde” teve a canção mais famosa cortada em certas salas, “Climb Every Mountain”. “West Side Story” foi vaiado no Brasil em quase todas sessões, ou seja, o nosso público não era nenhuma maravilha. Ao menos preferia ver as chanchadas da Atlântida que eram bem divertidas por sinal. Mas nós, fãs de musicais, ficávamos loucos com esse desprezo e burrice, que custou muito a mudar por sinal… Até hoje ainda há relutantes!

CARREIRA

Começa então a fase mais difícil de minha vida, já que tinha que controlar o meu ego, era a primeira vez que era despedido de alguma coisa e, no fundo, não conseguia aceitar isso, não achava que isso podia suceder comigo. Mas aconteceu e o que sobrou do salário era muito pouco. Por sorte fiz o contato com a Faculdade de Santos, que ainda não era chamada de Católica e consegui passar a dar aulas lá, uma vez por semana de iniciação ao cinema (olha que chique) e outra mais genérica mas era uma época onde os alunos já eram rebeldes e desinteressados e ainda por cima ligavam nada ao que se podia ensinar. Não havia vídeo ainda para a gente passar e teve horas que confesso que fiquei irritado demais. Até que resolvi inventar um truque, obriguei todos a lerem a revista Veja e eu escolhia a principal matéria dela, ou a mais curiosa e fazia uma prova que valia para a nota. E sabe que deu certo? Mas era triste ver naquela época, imagine hoje então. Professor deve sofrer demais. Desde então, embora tenha dado aula na FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado) algumas vezes (história do cinema e depois pós-graduação) preferi sempre me poupar.

Por outro lado, eu lutava para abrir portas. Comecei a escrever um roteiro para um filme, baseado em peça de Mario Prata, “O Cordão Umbilical”. Fizemos várias experiências e chegamos a ter um elenco de primeira, com a Marília Pêra, que ainda não era uma super estrela, Ney Latorraca, Marco Nanini (os dois não haviam feito dupla ainda) e Débora Duarte. O roteiro era bem divertido e mostrei a um distribuidor que prometeu produzi-lo. Mas não deu certo, porque houve um problema na empresa e na família e teve que cancelar logo depois. Nesse meio tempo o Prata resolveu passar o projeto para um amigo dele e o filme nunca veio a acontecer. Pedi desculpas aos atores, que na verdade ficaram amigos para sempre e infelizmente o filme morreu antes de nascer direito. Foi outro golpe no ego… Há algum tempo Daniel Filho me pediu para ler o roteiro e eu disse que não, que era melhor deixá-lo assim…

Felizmente eu tinha amigos fieis, a Ana Maria Cerqueira Leite me levou na TV Cultura para conhecer o compositor-diretor Petraglia, mas a mais eficiente foi Irene Ravache, que tinha se casado com um jornalista santista amigo, o Edison Paes de Melo Filho. Irene me levou à TV Tupi, onde era contratada. Mas antes disso eu lancei o livro “Filmes de Hoje na TV”, com certa repercussão – aliás até hoje. E no lançamento numa boate ela me apresentou um antigo amigo dela, que havia sido ator e depois virou diretor de cinema, escritor de roteiros e a Irene achava que tinha muito a ver comigo, adorava cinema, era bem humorado e estava começando como escritor. Foi assim que apareceu o Silvio de Abreu e eu escrevi uma dedicatória, um dia a gente ainda vai escrever juntos. Ele acreditou e pouco tempo depois me chamou, e realmente ficamos amigos. E começamos a escrever juntos. Claro que sabia mais do que eu sobre a técnica de um roteiro, mas em compensação eu sabia mais sobre os filmes e histórias que podiam nos informar. Mas o fato é que ele era muito divertido e inteligente, o que deixou claro futuramente nas telenovelas que escreveu.

A nossa parceria foi curiosa porque primeiro escrevemos uma história-roteiro sobre a cidade de São Paulo, nada chanchada mas até de crítica social e mostramos ao futuro produtor, Anibal Massaini, que a detestou. Então quando nos encontramos irritados, eu disse, “é isso que ele quer, chanchada! E então vamos dar isso para ele”. E foi o que fizemos. Tinha ouvido uma história sobre festas onde se colocavam nos copos um tipo de droga para gado e aquele que tomasse iria ficar excitado e aprontar loucuras. Assim nasceu a base do script que o Silvio foi desenvolvendo e conseguiu aprovação. Uma pornochanchada claro, como se usava na época, mas com algumas diferenças. Tinha um elenco melhor (Claudio Correa e Castro, Sonia Mamede, Antonio Fagundes, meu amigo de Santos, Nuno Leal Maia, e a última aparição no cinema do lendário Adoniran Barbosa. Quem era coprodutor mas não queria assinar era o Carlos Manga, grande amigo do Silvio. E o filme ficou com um nome esquisito de duplo sentido: “Elas São do Baralho”… Claro que foi um sucesso de bilheteria e o curioso é que mais tarde foi escolhida pelos estudantes da USP como a melhor pornochanchada de todas. Eu mesmo escrevi brincando para um jornal semanal o artigo “eu sou um pornógrafo”.

Logo depois, o Silvio teve outro convite e fez outra pornochanchada mais discreta, filmada no interior também com bom elenco. Chamada “A Árvore dos Sexos”. E na filmagem nasceu o romance do casal Nádia Lippi e Ney Santanna (filho de Nelson Pereira dos Santos). Era baseada em livro de um português chamado Santos Fernando. Eu fiz uma participação pequena a pedido do Silvio e gravada no estúdio da Tupi como um apresentador de TV assustado mas era mais curioso do que bem sucedido. Até porque nós já estávamos de olho noutro projeto enquanto Silvio termina a edição do filme, Irene servia de anjo da guarda da gente para algo ainda mais ousado.

Depois de um ano na Tribuna, o Chico me indicou no Jornal da Tarde, para onde eu fui – imagina que curioso, no dia em que o homem chegou na lua e tudo passava muito precário pela televisão. Também me lembro de ver logo ao abrir a porta uma moça que era a mais bela e sedutora que eu já tinha visto. Admirada por toda a redação e repórter. Ficaria alguns anos no jornal até viajar pelo mundo e se tornar a Monja Coen, líder hoje do budismo em São Paulo. Claro que continuamos amigos desde então, embora Rita Lee no seu livro fale mal dela.

O Jornal da Tarde era o mais criativo e mais original jornal de sua época. Lamento muito que ninguém tenha escrito sua história que começou comigo também praticamente no momento em que a ditadura anunciava sua repressão maior e passava a fazer a censura dos jornais. O mais curioso foi o dia em que os censores chegaram a bordo da redação, já que naquela época não havia horário para fechar a edição, que sai só no dia seguinte, ou seja, o nome jornal da tarde era para valer…

E combinamos todos que quando chegassem os censores nós sairíamos da sala, um a um e iríamos para um bar em frente ao jornal em protesto. Dito e feito. Fomos um a um saindo quase em fila e achamos que a gente estava brincando de heróis! Claro que não deu certo, porque censor nunca havia estado em um jornal e achou que aquilo era normal! Nosso plano deu errado.

Felizmente, minha área chamava Variedades e tratava de assunto mais leves, dando ênfase ao cinema, claro. Por exemplo, escrevi sobre o fim da Metro, a morte do Boris Karloff e assim por diante. Na época o Jornal da Tarde tinha uma página às terças-feiras, na qual publicava as críticas de cinema, variando o tamanho delas conforme sua importância. Éramos de quatro a cinco críticos, sendo que vários não entendiam nada de cinema, mas era a forma deles ganharem um pouco mais, um bico, para aumentar seu salário. Pouco antes de mim havia saído dois cineastas do Jornal da Tarde, Rogério Sganzerla e Maurice Capovilla. E procurava-se novos profissionais. Um deles se chamava Marco Antônio de Menezes que era mineiro e muito exuberante, teve um final trágico sendo assassinado. Mas a verdade é que toda a equipe era de gente muito talentosa como aliás, o Inácio Araújo, depois bastante conhecido como crítico da Folha de São Paulo e de quem fiquei amigo e, segundo ele mesmo diz, influenciei para virar montador e até diretor de cinema. Sempre foi gente boa.

Também na época tínhamos a possibilidade de escrever matérias de página inteira, com o assunto que escolhêssemos e fosse aprovado. Foi assim que falei pela primeira vez com Joana Fomm na TV e fiz a matéria sobre ela, também Bibi Vogel e mesmo Sonia Braga, quando fizemos uma matéria de duas páginas sobre as futuras estrelas do cinema. Todas elas viraram grande amigas.

Voltando à crítica, era curioso porque íamos ao cinema pagando os ingressos, teoricamente seriamos reembolsados e cada um escolhia o que interessava. Como era novato peguei muito filme fraco, mas me ajudava também para alimentar A Tribuna com minhas matérias. A história mais engraçada é do Marco Antonio que foi chamado para escrever sobre “2001: Uma Odissaia no Espaço”. Na sua estreia ninguém tinha ideia do que fosse, menos ainda que viria a se tornar um dos maiores filmes da história do cinema. E no dia de entregar a matéria ele tinha bebido demais, estava de ressaca e inventou uma crítica aleatória onde falava o som alto da sala majestic, e dava cotação mínima para o que viria ser a obra prima. Foi um escândalo na cidade, mas ninguém queria dar o braço a torcer, deixaram a cotação durante o tempo que ficou em cartaz. O diretor do jornal chamava-se Murilo Felisberto e seu sub era o hoje conhecido Mauricio Kubrusly que, na verdade, era meu chefe. Um dia, Murilo soube que ia estrear um novo filme de Fellini, que era “O Esquisito Satyricon” (1969) e ele teve a ideia de fazer todos os críticos em ação escreverem sobre o filme e diretor. Mal sabia ele que Fellini era minha especialidade e naturalmente fui escolhido o melhor, mas isso não era bom, às vezes seria melhor ficar calado.

Na verdade, Murilo já tinha me mandado para o Rio de Janeiro para cobrir o Festival de Cinema Internacional, o segundo que eles faziam e me parece que o último porque durante anos não teriam tantas estrelas e gente famosa. Foi a maior festa que eu participei, onde mais eu podia falar com mestres como Fritz Lang (antipático alemão), o descobridor de Marlene Dietrich, Josef Von Sternberg, muito mal humorado e até grosseiro, mas era curioso você encontrá-lo na piscina do Copacabana Palace.

Estrelas da época como Yvette Mimieux, a cantora negra da série “Julia”, Diahann Carroll – foi engraçado porque fiquei amigo do namorado dela que me pediu para apresentar as garotas dali escondido dela!

Outro irritantemente difícil era Roman Polanski, que iria encontrar outras vezes. E tinha coisas divertidas como uma entrevista com Barbara Bouchet, na época belíssima e eu tive que inventar que ia ser mandado embora caso ela não me atendesse. Outro momento, fui no apartamento de um casal para entrevistar, no caso o ator de “2001: Uma Odisseia no Espaço”, Gary Lockwood, e sua mulher e futura estrela Stefanie Powers. Eles tinham acabado de acordar e não sabe o susto que tive com eles sem maquiagem.

Keir Dullea também de “2001”, entrevistei na piscina – aliás onde também falei com o casal Jacques Demy e Agnès Varda, muito agradáveis… E assim por diante.

No ano seguinte me mandaram para o Rio para cobrir o Festival de Música e, num lance de ousadia, fui o único a entrevistar os astros de Hollywood que estavam por lá, James Coburn e Carol Lynley, que antes parecia uma mulher belíssima, mas como tantas decepcionava ao vivo! Para mim foi uma festa e até fiquei amigo de uma atriz que havia pirado, Diane Varsi, do filme “A Cadeira do Diabo” (e morreria cedo, aparentemente drogada e excêntrica). Ela gostou de mim e me escreveu poemas e eu hoje penso o que teria acontecido se a tivesse namorado. Pois é, na vida a gente perde ou ganha certas coisas.

No Jornal da Tarde tive a ideia de ser o primeiro a fazer cobertura dos filmes de longa-metragem que começavam a passar nas televisões, mas eles não tinham qualquer divulgação, em parte alguma. E as pessoas na época eram loucas para ver filmes. Foi assim que o Mauricio Kubrusly batizou a coluna dos Filmes de Hoje na Tevê, que depois eu transformaria no meu primeiro livro. A coluna foi enorme êxito e chegaria a ter duas páginas inteiras dedicadas ao cinema.

E duro 32 anos até quando chegou a nova era da TV e tudo mudou, ela passou a ser desnecessária! Deve ter sido algum tipo de recorde e foi copiada por outros jornais, inclusive A Tribuna. Claro que eu que nunca tinha dinheiro, tirei férias e resolvi ir até a Europa, ver filmes e encontrar uma amiga, a Bete Bello que, no final das contas, estava viajando. Foi uma lição de vida notável e fiquei louco por Londres e Paris, que até hoje adoro. Imagine eu, caipira, vendo atores famosos fazendo peças ótimas. Era o máximo. E também aprendi uma lição: nunca tire férias porque as pessoas aproveitam para te mandar embora, talvez por intriga ou algo assim; O fato é que quando cheguei, Murilo me chamou dizendo que estava me despedindo e só continuaria fazendo a coluna de filmes na TV. Foi um terrível golpe para mim, em todos os sentidos, talvez porque eu tivesse virado um pouco pretensioso. Ou porque precisava do salário. Anos depois quando já estava na televisão e indo bem de carreira, encontro Murilo num coquetel e ele vem falar comigo, dizendo que havia se enganado, que foi um erro me mandar embora, porque eu era o único critico profissional e que fazia um bom trabalho.

E me pediu desculpas. O que eu podia fazer agora tão tarde? Nada, agradeci e pronto. Algum tempo depois ele morreria ainda relativamente cedo. Já viram como a vida é engraçada?

 

A PRIMEIRA CRÍTICA PROFISSIONAL

 
O plano era fazer o vestibular, ou coisa que o valha, para seguir Diplomacia. Afinal, foi isso o que ficou claro no teste vocacional que eu fiz, primeiro Diplomacia, depois Direito, talvez Medicina. Na época não se falava em Cultura ou Arte. Isso poderia assustar as famílias. Foi assim que entrei na Faculdade de Direito, que durava cinco anos, e como estava com 17 anos tinha que deixar passar o tempo até chegar aos 21 e tentar a prova no Rio de Janeiro. Não se exigia um curso de faculdade, nem se falava em línguas estrangeiras. Por via das dúvidas, eu já tinha o diploma norte-americano oficial de Michigan, havia estudado na Aliança Francesa (ou seja, falava e lia o francês), e aprendido o espanhol no colégio e o italiano, imaginem só, assistindo aos filmes italianos muito populares na época.

Achei que outra saída para ganhar tempo era fazer a Faculdade de Jornalismo, que durava apenas três anos (todos eles eram da Faculdade que depois seria chamada de Católica de Santos).

O curso era a noite e foi a melhor coisa que eu fiz. Fiz amigos, aprendi muito sobre a vida com altos e baixos. Um de nossos professores lá era o Juarez Bahia, que tinha livro de Introdução ao Jornalismo e que era amigo de meu pai. Os dois eram parceiros do José Gomes, que foi prefeito de Santos e como tantos, também foi cassado! Na Faculdade, a pedido dos colegas eu comecei a dar cursos de cinema para eles, aos sábados à tarde. E foram bem sucedidos, tanto que outras escolas da cidade também pediram as palestras, obviamente sem pagar nada! Mas a notícia das aulas saiu no jornal A Tribuna e mais uma vez fiz amigos. Quando chegou a hora da formatura eu fui escolhido para ser o responsável pela festa e tudo o mais. Assim também me aproximei do Bahia que seria nosso homenageado.

Deixa eu contar outro detalhe importante. Naquela época estavam para criar em Santos, um novo jornal chamado Cidade de Santos, que pertencia ao grupo Folha – um dos donos era da cidade e isso explica porque queria fazer concorrência à Tribuna de Santos, que era o jornal mais tradicional e bem sucedido.

Eles fizeram uma prova com os estudantes e eu participei. Para minha surpresa, não fui escolhido, nem eu nem os colegas mais próximos e mais dotados. Tinha feito a prova por brincadeira, mas aquilo pela primeira vez na vida me irritou e me deixou aborrecido.

Por um destino da vida, um dia o Bahia me pediu uma carona (eu usava o Renault Dauphine pobrezinho de minha mãe) e, perto da casa dele, me diz que a Tribuna ia passar por uma reforma geral e que ele iria ser o editor do jornal. Que estava me acompanhando e queria me levar para o jornal, o primeiro a ele chamar, primeiro para criar o Departamento de Pesquisas – um modismo da época lançado pelo jornal carioca Jornal do Brasil que Bahia admirava muito. Depois para fazer críticas de cinema, já que o jornal tinha apenas uma colaboradora que noticiava filmes que iam estrear, mas sem dar opinião. Eu naturalmente exultei porque antes de tudo era minha vingança contra o que eu achava que era o erro da Folha. Tanto que sempre fiz questão de não ter muito contato com esse jornal até hoje e a única vez que escrevi para lá, foi a pedido de um editor que gostava de mim e como estava também no Estadão tive que usar um pseudônimo! Ninguém soube, e o amigo Silvio de Abreu veio me dizer que, na Folha da Tarde, tinha alguém me imitando! E tinha mesmo, era eu…

Na Tribuna fiquei um ano muito feliz, a ponto de voltar para participar da cobertura de Carnaval para ajudar os amigos. E aprendi muito. Mas não tive como não aceitar ir para o Jornal da Tarde, que na época era o mais original e interessante de todos os inovadores da imprensa. Fui levado, é preciso agradecer, pelo Chico Santa Rita, que havia deixado a Tribuna e eventualmente se tornou importante figura de orientação de políticos. Pioneiro na profissão.

No JT fiquei no departamento de Variedades e Artes e, naturalmente, cinema. Mas essas são outras histórias. O fato é que eu nunca deixei A Tribuna e ano passado envergonhado eu escondi que já tinha 50 anos de carreira no jornal. A quem por sinal eu devo muito. Fui muito perseguido por distribuidores, donos de salas de cinema, mas A Tribuna sempre foi de uma coragem e honradez que eu quero aqui agradecer publicamente. Sem ela eu não teria dado certo.

Eis a seguir a primeira crítica que eu escrevi para a Tribuna justamente, olha que ousadia, sobre um filme de Godard, “Pierrot Le Fou” ou “O Demônio das Onze Horas”. A matéria vinha ainda companhada (outra mania minha) de textos biográficos (curtos) dizendo quem era Godard, Belmondo e Anna Karina – já que eles não eram conhecidos na cidade, onde seus filmes nem sempre passavam.

Hoje vejo com certo pudor o comentário sobre o filme, que vocês precisam desculpar. Quando a gente é jovem (ainda não tinha 22 anos) sempre é atrevido e pretensioso. Assinei como Rubens Ewald Filho porque meu pai era conhecido em Santos, como esportista e diretor de Cooperativa dos Bananicultores. Curioso porque assim eu divulguei o nome dele (tinha gente que brincava, quem é o Pai do Ewald Filho?). E ele também era muito boa gente. Também acho que o nome deu sorte e uma moça uma vez disse que eu teria o nome numa praça. E estava certa com a sala de Cinema que levou meu nome – O Cine Arte Posto 4. Enfim, só peço que sejam gentis com a pretensão do garoto metido a entender de cinema. Fui começar logo com o diretor mais complexo e difícil de nossa época. Talvez por isso sou grande admirador dele até hoje. Um revolucionário, um renovador. Um atrevido.

 

Godard para principiantes – Primeira Crítica publicada na A Tribuna de Santos, em 8 de outubro de 1967.

 

O Demônio das Onze Horas, no Praia Palace (Pierrot Le Fou, de Jean-Luc Godard).

 

Falar em Godard é como falar em Arte Moderna, pode-se achar genial, mas daí a entender-se…

Pela primeira vez em Santos é exibido em circuito normal um filme de Godard (os outros ou passaram aqui em sessões especiais ou ficaram inéditos!). Um público totalmente novo pode tomar contato com uma das coisas mais importantes que se faz em cinema hoje em dia. E esse público reage! Assobia, xinga, mas fica até o fim da sessão. Godard agride, insulta, mas sempre fascina.

Para se entender este Pierrot, a melhor maneira é deixar de se preocupar e se divertir com o filme. Não se importe com o título nacional. Não há demônio nenhum muito menos às onze horas. É a história de um homem Ferdinand (Jean Paul Belmondo) destruído pelo amor de uma mulher Madeleine (Anna Karina) Na verdade, o que o filme mostra são pontos de vista, a filosofia de Godard. A mulher insiste em chamá-lo de Pierrot embora ele passe o filme todo a negá-lo. Daí, o título “Pierrot, o louco”.

O que se consegue descobrir do enredo é uma confusa história de gangsteres e perseguições à moda de Bogart entremeada por canções dançadas à la Gene Kelly. Além de referências aos amigos dele (Samuel Fuller, o filme “Johnny Guitar”) e até a ele mesmo (cena de “Acossado”). O filme não teria razão de ser não fossem os intérpretes. Belmondo e Karina estão fazendo tudo o que sabem e tudo o que querem improvisando livremente, esbanjando vitalidades.

Naturalmente Godard permanece fiel a Godard?        Todos os cacoetes típicos de seus filmes estão presentes neste: a aparente falta de técnica, longos poemas são lidos (Velasquez e Robert Browning) e citações literárias repetidas. O filme é dividido em capítulos e letreiros, pinturas, anúncios, numa palavra a “pop-art” faz a ligação entre as cenas. Antes de tudo, Godard é um inovador. Seus filmes criaram uma nova maneira de contar uma história, são verdadeiros jornais falados onde os personagens não podem ser alienados do seu tempo, de sua circunstância. Não é de admirar, portanto, a preocupação política de seus filmes, o constante tema da guerra do Vietnã, da morte, da miséria que a guerra traz. A preocupação com a verdade faz com que ele utilize a técnica de entrevista, com tipos extraordinários como uma rainha destronada ou com os próprios personagens. Os diálogos são retóricos, as cenas minuciosas e detalhadas – como a própria vida, diz ele – mas “Pierrot” é antes de tudo um filme de aventuras. Uma aventura picaresca, segundo Karina, uma viagem a Lua segundo Godard.

O que Jean-Luc Godard quis dizer fica mais a cargo do subjetivismo de cada um. Pode-se achar a mensagem brilhante e se meditar sobre o dualismo do personagem.

Sobre a sociedade que gera os monstros, sobre a destruição final de Pierrot (e de nossa própria sociedade!).

Pode-se também ficar com a dúvida que na realidade ele está se divertindo com aquilo tudo que, na verdade, não é que estamos sendo vítimas de uma gozação? Gênio ou Impostor? Fenômeno do século seus irredutíveis inimigos não conseguirão diminuir a importância de Godard. É obrigatório o programa do Praia!

 

O FILME PREFERIDO

Oito e Meio (8½, 1963), de Federico Fellini

 

Sinopse: Um famoso cineasta entra em crise criativa justamente quando está iniciando a filmagem de uma nova produção. Incapaz de se comunicar com os outros, se refugia em lembranças do passado ou delírios de sua imaginação.

Crítica: Já perdi a conta das vezes que assisti o filme. Tive a sorte de ainda pegar a estreia dele no Cine Roxy de Santos (foi em grande circuito, nada de pequeno circuito de arte), distribuído pela Columbia – na época o cinema italiano era grande bilheteria no Brasil e o filme provocou polêmica, mas foi muito bem recebido. Depois passou com frequência na televisão, onde por sinal perde muito ainda mais dublado por causa daquela famosa técnica do diretor, de dublar todo mundo. Ele adora mostrar rostos e tipos diferentes e como geralmente essas figuras eram amadoras, eles não decoravam textos, diziam apenas números (1,2,3,4 etc) num determinado ritmo e depois Fellini colocava o texto dito por profissionais. A dublagem em português iguala tudo, frases banais que não têm importância com outras que explicam o filme e o que está sucedendo.

“Fellini Oito e Meio” não é um filme fácil. Mas para mim o impressionante é que, a cada revisão, eu descubro alguma coisa nova. Por exemplo, o rapaz que faz o admirador de Anouk Aimée é o mesmo Mark Herron (1928-96), que embora fosse gay assumido chegou a se casar com Judy Garland entre 1965 e 69! Seu parceiro de vida foi o coadjuvante Henry Brandon (1912-90), que fez mais de 170 trabalhos no cinema e tevê (entre eles “Rastros de Ódio”). A moça que faz a dançarina francesa Jacqueline Bonbon (Yvonne Casadei) que está sendo expulsa do harém depois seria a empregada de Giulietta Massina em “Julieta do Espíritos”. E a francesa Madeleine Lebeau, que faz a atriz vestida de rede, inquieta com seu papel foi casada com o ator Marcel Dalio e faz papel de refugiada no lendário “Casablanca” (estava exilada na época nos EUA e mais tarde faria filmes na França).

Tenho especial paixão por Barbara Steele, a atriz inglesa que faz Gloria, amante de homem mais velho amigo de Mastroianni. Ela tem uma figura notável e marcante, havia feito filmes importantes (“O Jovem Toerless”), mas logo se tornaria imortal graças aos filmes de terror que faria na Europa, principalmente a “Máscara do Demônio”, de Mario Bava! E naturalmente Claudia Cardinale, deslumbrante como o símbolo da pureza e redenção pela primeira vez no cinema italiano falando com sua própria voz (que era rouca e, por isso, diferente mas que ele assenta muito bem).   Mas quem rouba o filme é Sandra Milo, que deu informações como onde revela segredos (que foi por 17 anos amante de Fellini, que queria que ela fizesse Gradisca de “Amarcord”). E faz charme escondendo outros. O curioso é que se trata de uma performance completa, carismática e eletrizante. Tudo é autobiográfico em todos os sentidos e apenas Mastroianni pôde ler o roteiro completo – ele compôs seus personagens usando chapéu, capa, maquiagem que lhe dá olheiras, tudo parecido com o diretor. Reparem como nos primeiros momentos ele é visto sempre de costas, depois esconde o rosto até entrar no banheiro. E só nas termas é que ganhará seu primeiro close.

Foi rodado como “Eu Confesso” – o nome veio porque Fellini havia estreado na direção co-dirigindo “Mulheres e Luzes” (Luci di Varietá, 50, com Alberto Lattuada). Então este foi o Oitavo (e meio) filme que ele dirigiu. Dali em diante quase sempre seus filmes teriam o nome Fellini incluído no título, o que é um caso único no cinema. Muitas vezes fiquei intrigado vendo o filme por uma sequência em que aparece um mágico que faz um truque de adivinhação (que ele diz ser verdade, porque Fellini acreditava em fantasmas e magia). E a senhora que por sinal se chama Maia (ou seja, nome da deusa da Ilusão) escreve na lousa o nome: Asa Nisi Masa. Sempre percebi que era um código, como a linguagem do P que as crianças brasileiras usavam antigamente. Mas não tinha decifrado até agora, quando finalmente me surgiu o óbvio: quer dizer apenas Anima, que não é apenas traduzido como Alma, mas também a vontade interior que nos leva a fazer coisas ou ser determinada pessoa. “Oito e Meio” é a história de um cineasta famoso em crise, que acha que não tem mais nada a dizer. Fica enrolando o produtor, a equipe, a estrela Claudia Cardinale (que faz ela própria além do símbolo da pureza), todos esperando suas instruções enquanto mistura lembranças do passado e imagens de sua fantasia.

O filme foi notável por ter sido o primeiro a não explicar antes para o espectador o que está sucedendo. Passado, presente e imaginação podem estar convivendo no mesmo plano e tudo fica absolutamente claro. Mas na época era extremamente ousado e original. E agora escandaloso quando se pensa que fez Anouk Aimée interpretar a esposa lembrando abertamente a verdadeira mulher Giulietta Massina e que Sandra no fundo faz ela mesma   O filme começa com um pesadelo, uma das cenas de abertura mais incríveis do cinema – o personagem do diretor está preso dentro de um congestionamento de transito num túnel, onde todo mundo parece estar olhando para ele. Passa a se afogar com fumaça mas consegue escapar dali e magicamente voa por cima dos carros e vai parar no céu numa praia, como se fosse uma Pipa, um Papagaio amarrado por uma corda a seus produtores! Tudo esplendidamente fotografado em preto e branco por um gênio Gianni di Venanzo (1920-66), que teve morte prematura e que, dali em diante, se supera com contrastes fortes, chegando aos limites do que era possível naquele momento.

Tão seminal quanto “Cidadão Kane”, “Oito e Meio”, foi também premonitório; Fellini realmente entrou em crise e o filme seguinte, “A Viagem de Guido Mastorna”, deixou inacabado conforme faz aqui o protagonista do filme.

Longe de ser um filme fácil, “Oito e Meio” resiste a análises e interpretações, muito ajudado pela magnífica trilha musical de Nino Rota (que faz ponta como maestro), o colaborador mais fecundo e importante na carreira do diretor. A sequência final no circo Fellini imaginou de última hora e, por isso, nem todo o elenco pôde estar presente. O final que rodou antes se passava num trem com todos vestidos de branco e a sequência se perdeu. Sobraram apenas algumas fotos. O filme reflete muito a visão de mundo de Fellini. É seu confessionário, sua sessão de análise, sua mea culpa. Expõe abertamente seu egoísmo, suas fantasias, seus delírios com as mulheres (a grande sequência é a do harém). Para finalmente, depois de ter procurado respostas na religião, na família, na profissão, perceber que tudo começa com a própria aceitação, de si mesmo e dos outros, dos seus limites e dos outros. A vida é um circo, conclui ele, e o único jeito de se continuar vivendo é nós todos nos darmos as mãos, nos aceitarmos e sairmos dançando pelos picadeiros da vida.

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André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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