Crítica | Dor e Glória (Dolor y Gloria, 2019)

Há alguns anos, quando revi A Era do Rádio (1987), percebi que era o Amarcord de Woody Allen. Ou o filme mais felliniano do cineasta nova-iorquino. Agora, volto a ter essa mesma sensação com Dor e Glória, novo longa de Pedro Almodóvar. Um filme muito menos almodovariano e mais felliniano que o cineasta espanhol concebeu (propositalmente ou não). Onde – entre outras coisas – relembra a sua infância e seu relacionamento com a sua mãe.

De um terrorista que persegue seu amante (em Labirinto de Paixões) a um fã obcecado por uma estrela de cinema (em Ata-me). De um aluno de tauromaquia que resolve usar o que aprendeu em aula para atacar a vizinha por quem é obcecado (em Matador) a um pai em busca de vingança pelo ataque e morte de sua filha (em A Pele que Habito). Esses foram alguns dos personagens mais perturbadores e brilhantes que Antonio Banderas interpretou nos filmes do cineasta espanhol (o ator praticamente debutou no cinema sob a batuta de Almodóvar em Labirinto… em 1982). Nada mais justo que Banderas seja o escolhido para interpretar o alter ego de seu mentor nesse Dor e Glória.

Banderas interpreta Salvador Mallo, um cineasta em crise. Sem condições físicas (sofre com fortes dores nas costas, dores de cabeça, problemas na garganta que o faz engasgar, entre outros) ou psicológicas para dirigir e escrever um próximo filme. Ele vai relembrando seu passado muito pobre com a mãe (Penélope Cruz, quando jovem e Julieta Serrano, na velhice), sua vocação para o canto e para ensinar, além de sua educação longe da família, num seminário.

Se em A Pele que Habito, Banderas demonstrava um distanciamento e a frieza necessária ao protagonista daquele longa, aqui ele se mostra muito mais próximo e frágil. O olhar cansado, envelhecido, as tantas dores e amarguras da vida e a já citada terrível dor nas costas que seu personagem sente estão presentes em seu andar, na maneira como o personagem senta, etc. É um trabalho meticuloso de um artista que já foi astro em Hollywood (com A Máscara do Zorro, Gato de Botas, etc.), mas que aqui entrega a atuação de sua vida. Talvez seja cedo para falar numa indicação ao Oscar e, infelizmente, a gente sabe que a Academia faz uma festa de americanos para americanos, mas seria lindo vê-lo indicado ao maior prêmio do cinema e, quem sabe, até levando uma estatueta.

Voltando ao filme, vemos o protagonista se reaproximando de um astro de cinema, Alberto Crespo (Asier Etxeandia) com quem brigou há mais de 30 anos (e que acaba lhe fornecendo heroína para aliviar as dores que sente) e o reencontro com um antigo amor (vivido pelo astro argentino, Leonardo Sbaraglia).

Repleto de grandes momentos (o monólogo, a coletiva com o público, o acerto de contas com a mãe já idosa, etc.), nenhum deles, a meu ver, é mais lindo ou cinematográfico do que a cena final.

Mais do que um retrato da vida do cineasta espanhol (e das muitas dores físicas que sente) Dor e Glória trata das dores da alma, de reconciliação com os fantasmas do passado, da busca por uma paz interior, um conforto espiritual e até de uma reconciliação consigo mesmo.

Ao final da película, confesso que chorei. Chorei por ver uma vida dedicada ao Cinema, apesar de todos os percalços ao longo da jornada.

Bravo, maestro Almodóvar!

Dor e Glória
Dolor y Gloria
2019. Espanha.
Direção: Pedro Almodóvar.
Com Antonio Banderas, Penélope Cruz, Julieta Serrano, Leonardo Sbaraglia, Asier Etxeandia, Nora Navas, Cecilia Roth.
113 minutos.


 

Marcelo Reis nasceu no finalzinho dos anos 70, É jornalista por formação, assistente administrativo por ocupação e cinéfilo de coração. Apaixonado por cinema desde os 13 anos (quando uma cirurgia o obrigou a ficar 6 meses de cama), tem um carinho todo especial por musicais, dramas, comédias românticas (‘Harry & Sally – Feitos um para o Outro” é sua favorita), romances e filmes do Woody Allen. Quase sempre, se identifica do lado de cá com algum(a) personagem da telona ou da telinha.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *