Crítica | Bacurau (2019)

”O que significa Bacurau?”, pergunta a forasteira.

“É o nome de um pássaro”, responde a dona do bar.

“É um passarinho?”

“Não, é um pássaro, e ele só voa à noite.”

”E quem nasce em Bacurau é o quê?”, continua a forasteira.

“É gente!”, dispara o menininho ouvindo a conversa.

É com diálogos inteligentes e cheios de espontaneidade como esse que o roteirista e diretor Kleber Mendonça Filho e seu parceiro Juliano Dornelles criaram a fascinante e enigmática história de Bacurau, um dos melhores filmes do cinema brasileiro desde Aquarius, também de Mendonça, e estrelados pela mesma atriz icônica, a premiada Sonia Braga.

Na pré-estreia em São Paulo, la Braga pedia aos jornalistas e críticos para não revelarem muito de Bacurau, para que o público fosse surpreendido pela força do longa. E com toda razão. Quanto menos souber do enredo, tanto mais o espectador será envolvido por uma história que é contada de forma original e poderosa, incluindo elementos de diversos gêneros –  western, ficção-científica, ação, drama, até comédia.

Assim como Aquarius começa com a emblemática canção Hoje, de Taiguara, Bacurau tem seu início com a voz magnífica de Gal Costa cantando a linda Não Identificado, de Caetano Veloso, com a imagem de um céu forrado de estrelas.

Os diretores parecem homenagear o cinema americano dos anos setenta já nessa abertura, à maneira de Woody Allen: canção, elenco em ordem alfabética e equipe técnica.

A câmera de aproxima da Terra e revela, num futuro próximo, um pequeno povoado no oeste de Pernambuco, Bacurau, cuja população está no funeral de uma respeitada anciã de 95 anos.

A partir daí, um professor e seus pequenos alunos descobrem que Bacurau não mais aparece nos mapas da internet. Depois de algumas cenas de cotidiano, é descoberta uma carnificina numa fazenda que estarrece a população.

Uma sucessão de adversidades atormenta a corajosa população, que já sofre com a falta de água, comida, remédios, roupas – menos união.  Uma trama maligna vai se desdobrar gradativamente, com altas doses de violência, e é ao mesmo tempo, muito envolvente.

Na verdade, sente-se que Mendonça e Dornelles evocam o cineasta John Carpenter, com as passagens das cenas como em Star Wars. Tudo muito anos 70.

Entende-se que o personagem principal é o povo de Bacurau – seus trabalhadores, donas de casa, professor, médica, donos de bar, crianças, prostitutas – todas pessoas simples e subestimadas enfrentando forças do mal.

O estilo dos realizadores está onipresente: a força da trilha sonora, as locações exóticas em Povoado de Barra  em Parelha, no Sertão do Seridó – Rio Grande do Norte,  a combinação de atores profissionais como Sonia Braga e o alemão Udo Kier com residentes do povoado, a riqueza de diálogos, os efeitos especiais,  os símbolos – os caixões são prenúncios de morte, o voo livre do bacurau, a naturalidade da nudez e do sexo – como numa comunidade indígena, a fotografia belíssima, especialmente retratando repetidamente o pôr-de-sol dramático do sertão, a figura mítica do cangaceiro, o político corrupto,  um final poderoso.

Há também cenas em inglês, mas são as de violência as mais impactantes, algumas delas com a surpreendente atuação de Silvero Pereira, como Dunga.

A grande Sonia Braga se despe da beleza e glamour para fazer uma idosa médica alcoólica e, curiosamente, responsável por alguns dos poucos momentos de humor. Com sua maestria, dá um banho de interpretação em fortes cenas dramáticas e num duelo estilizado com Udo Kier. Depois de ter que tingir o cabelo de ruivo e deixar as raízes brancas, Sonia decidiu deixar seus lendários cabelos negros no passado e agora exibe orgulhosa os cabelos brancos. “É uma libertação! Mas se algum papel exigir que eu os tinja novamente, tudo bem”.

Bacurau é uma experiência cinematográfica sem nenhum par no cinema brasileiro. É forte, corajoso, original, talentoso e merecidamente premiado:  vencedor do prêmio do júri do Festival de Cannes 2019, melhor filme no Festival de Munique e mais três prêmios no Festival de Lima, inclusive de melhor filme.

Foi selecionado para os vindouros festivais de New York e Toronto. Que a força esteja com Bacurau!

Bacurau
Brasil. 2019.
Direção: Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.
Com Sonia Braga, Karine Telles, Udo Kier, Barbara Kolen, Alli Willow, Chris Doubek, Jonny Mars, Silvero Pereira, Julia Marie Peterson, Thomas Aquino, Antonio Saboia, Brian Townes.
131 minutos.

Waldemar Lopes é artista plástico, engenheiro mecânico, professor, cinéfilo. Anualmente realiza em Santos uma palestra beneficente sobre o Oscar, que se tornou tradicional na cidade. Também já realizou encontros sobre cinema para a Universidade Católica de Santos, Universidade Monte Serrat, Secretaria de Cultura de Santos e Rotary. Escreve para o CineZen e o 50 Anos de Cinema.

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