Crítica | Turma da Mõnica: Laços (2019)

 

A primeira memória de infância que me vem à cabeça quando se fala em leitura é, sem dúvida, um quadrinho da Turma da Mônica. As histórias e os personagens criados por Maurício de Sousa foram um incentivo ao aprendizado. Além dos gibis (que, atualmente, chamamos HQs – abreviação de história em quadrinhos), eu cheguei a assistir alguns desenhos estrelados pela turminha (que, confesso, nunca chegou perto da qualidade dos quadrinhos).

Eu não imaginava que 30 anos depois eu pudesse assistir a um longa-metragem em live action (com atores) e que, na mesma proporção, me surpreendesse e emocionasse com tamanha qualidade técnica, história, elenco, etc.

Baseada na HQ Laços, que os irmãos Vitor e Lu Cafaggi escreveram para a coleção Graphic MSP (que “reimaginam” os personagens de Maurício de Sousa), numa história em que o Floquinho (o lhasa apso verde do Cebolinha) some e a turminha parte numa perigosa e emocionante aventura para encontrá-lo. Uma história simples, mas muito humana, também.

Engraçado perceber que, desde o início, o talentoso diretor e montador Daniel Rezende (Bingo: O Rei das Manhãs) não faz uma adaptação comum. Na verdade, a sensação que se tem, desde o início (numa cena de perseguição da Mônica ao Cebolinha) não é de que estamos vendo um filme, mas sim, de que fomos transportados para as páginas de um quadrinho. Sensação semelhante que tive quando assisti ao clássico de Martin Scorsese, A Invenção de Hugo Cabret (só que, naquela ocasião, o espectador era “jogado” para dentro de um livro). A partir daí, confesso, o filme já me conquistou.

No início da história há sim um plano “milabolante” (e muito engraçado) do Cebolinha, mas o diferencial aqui é que o quarteto central (Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali) se unem por um objetivo e em solidariedade ao Cebolinha. E essa união, parceria e amizade tornam uma história infantil/juvenil em universal.

Outro ponto positivo é o elenco: Giulia Benite (a Mônica), Kevin Vechiatto (o Cebolinha), Laura Rauseo (a Magali) e o Gabriel Moreira (o Cascão) se saem tão bem encarnando o quarteto central que vai ser difícil pensar nos personagens daqui para frente sem vir a imagem deles à mente. Do elenco adulto, destaques para Monica Iozzi (a dona Luisa, mãe da Mônica), Fafá Rennó (a dona Cebola) e o Paulo Vilhena (o seu Cebola). Um show à parte é a participação de Rodrigo Santoro como o Louco. É tão sensacional, que merecia um filme solo.

A direção de Daniel Rezende é talentosa e refinada: a direção de atores, a já citada cena de perseguição ao Cebolinha e a tomada em que mostra a floresta num plano geral de cima é sensacional.

Rezende é tão sensível e atento ao material com que trabalha que, por exemplo, uma frase, já tão usada e conhecida nos quadrinhos é dita pelo Cebolinha num momento inapropriado da história e leva Mônica às lágrimas. E o espectador, também.

Sem dúvida, Turma da Mônica: Laços acaba sendo um presente para as crianças, mas principalmente para o público na faixa dos 30 ou 40 anos de idade, pois é um filme lúdico, que faz despertar a criança que existe dentro de cada um de nós.

Mais do que um plano infalível do Cebolinha (que, convenhamos, nunca dá certo), “Turma da Mônica: Laços” é um acerto que toca no espírito e no coração de quem se permitir, por pouco mais de uma hora e meia, voltar a ser criança. Acreditem: a sensação e o filme valem muito a pena. Corra para assistir! Só não vá tentar roubar o Sansão da Mônica no meio do caminho. Senão…

Turma da Mônica: Laços
2019. Brasil.
Direção: Daniel Rezende.
Com Giulia Benite, Kevin Vechiatto, Laura Rauseo, Gabriel Moreira, Monica Iozzi, Fafá Rennó, Paulo Vilhena, Rodrigo Santoro.
97 minutos.


 

Marcelo Reis nasceu no finalzinho dos anos 70, É jornalista por formação, assistente administrativo por ocupação e cinéfilo de coração. Apaixonado por cinema desde os 13 anos (quando uma cirurgia o obrigou a ficar 6 meses de cama), tem um carinho todo especial por musicais, dramas, comédias românticas (‘Harry & Sally – Feitos um para o Outro” é sua favorita), romances e filmes do Woody Allen. Quase sempre, se identifica do lado de cá com algum(a) personagem da telona ou da telinha.

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