Crítica | Dumbo (2019)

Dumbo integra a leva de adaptações live-action da Disney para seus clássicos em animação. O sucesso de Alice, em 2010, dirigido por Tim Burton, com mais de US$ 1 bilhão arrecadados, apontou a tendência. Vieram outras versões como Cinderela (2015) e A Bela e a Fera (2017), este último também de bilheteria bilionária e quase uma reprodução quadro a quadro do filme animado de 1991. Pela frente virão outros, principalmente O Rei Leão, ainda em 2019.

Parte desse grupo, Dumbo traz Burton novamente trabalhando com o estúdio. Ele, no início de carreira, trabalhou para o Walt Disney Studios e realizou os curtas Vincent (animação em stop motion), e dois live-actions, João e Maria e Frankenweenie, trabalho que o levou à demissão por ser sombrio demais pelos executivos. É curioso perceber como a vida dá voltas.

Hoje consagrado, Burton não deixa de inserir seu apuro visual inspirado no Expressionismo Alemão, no gótico, no art-decó, no Cinema Noir, que permeia sua trajetória. Seja nos blockbusters (Batman, Batman, o Retorno, Alice) ou em obras de menor orçamento. Inclusive em Alice ele dirigiu seu parceiro de longa data, Johnny Deep e se deliciou com os personagens estranhos, deslocados, do conto original. Em Dumbo vemos menos presente suas marcas registradas, ainda que apareçam aqui e ali.

A trama é conhecida: há a trupe circense. Nasce um elefante de orelhas gigantes. Tido como aberração no início, ele logo torna-se a principal atração, é “adotado” por duas crianças e tudo vai bem até um empresário (Michael Keaton) manipular o chefe do circo (Danny DeVito) e tentar lucrar horrores com o protagonista.

Típico filme Disney, Dumbo traz momentos fofos e mensagens conhecidas: a superação, tanto do elefantinho em lidar com o preconceito alheio e a saudade da mãe, tirada dele à força, até do pai dos meninos (Colin Farrell), que volta da guerra sem um braço. A trilha de Danny Elfman, antigo parceiro do diretor, ajuda a provocar empolgação e lágrimas no espectador. Talvez falte mais ação, mais momentos mágicos. Mas os pequenos instantes fazem valer à pena acompanhar a história.

Burton trabalha em prol do sucesso do filme: sabe do investimento e da necessidade de retorno, em precisar dialogar com os adultos que viram a animação original e com a nova geração. Mas não deixa de mirar figuras deslocadas, marginalizadas: desde Dumbo aos personagens de Farrell e da diva Eva Green, sempre carismática, no papel da francesa “salva” pelo sujeito inescrupuloso e que tenta seguir em terra estrangeira, e toda a trupe circense.

Keaton e DeVito trabalharam com Burton décadas atrás. O primeiro encarnou Batman e dois filmes. Em Batman, o Retorno (1992), DeVito viveu Pinguim que, naquela trama, era capturado pela promessa de êxito do verdadeiro vilão, o empresário Max Shreck (Christopher Walken). Curiosamente o veterano astro volta a ser alguém manipulado e menosprezado por sujeito ambicioso, agora interpretado por Keaton.

Assim, Dumbo não deixa de ser um trabalho de Tim Burton, porém o diretor surge mais esperançoso e de acordo com a Disney.

Dumbo
2019. EUA.
Direção: Tim Burton.
Com Colin  Farrell, Eva Green, Michael Keaton, Danny DeVito, Nico Parker,  Finley Hobbins, Alan Arkin.
112 minutos.


 

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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