Entrevista | Elder Fraga prepara filme sobre a vida do dançarino com paralisia cerebral Marcos Abranches

Do cinema de ação ficcional ao documentário sobre a Arte. O diretor Elder Fraga não se limita a gêneros, temas, e prepara seu segundo longa-metragem após vários curtas e ter acumulado 36 prêmios e 24 indicações, 4 prêmios no teatro, e 2 prêmios como personalidade da arte em 2018. Seus filmes passaram por mais de 80 países, passando duas vezes pelo Festival de Cannes, em 2014 com o curta Os Bons Parceiros, dobre a obra do dramaturgo Plínio Marcos e, em 2015, com Nóia Um Dia no Limite, sobre usuária de cocaína interpretada por Patrícia Vilela que ganhou o prêmio de melhor atriz em Los Angeles no The World Cinema Festival.

Seu primeiro longa-metragem SP: Crônicas de uma Cidade Real vem fazendo ótima carreira nos festivais internacionais e no Brasil:  teve avant-Première no terceiro Santos Film Fest e, desde então, são seis premiações acumuladas. Agora levará ao público a história do artista Marcos Abranches em O Artista e a Força do Pensamento, em fase de produção.

Abranches é coreógrafo e dançarino com coreoatetose decorrente de uma lesão cerebral. Não é uma doença e sim um estado patológico que se manifesta a partir de movimentos involuntários, intermitentes e irregulares da face e dos membros. “É importante saber que o profissional possui inteligência normal e, utiliza da própria deficiência como referência de estudo para a construção de sua linguagem artística corporal, sendo o único coreógrafo brasileiro com paralisia cerebral a propor um estudo sobre dança contemporânea”, explica Elder.

Marcos integrou a Cia. FAR 15, atuando nos espetáculos Senhor dos Anjos, Jardim de Tântalo e Metamorfose, de Franz Kafka, dirigidos e coreografados por Sandro Borelli e Sônia Soares.

Participou do Kulturdifferenztans, em Colônia (Alemanha) e do Crossings Dance Festival, em Düsseldorf (Alemanha), apresentando Via sem Regra, sob direção de Gerda König. Atuou na peça Trem Fantasma, adaptação da obra Navio Fantasma, de Wagner, e na ópera teatralizada Vida e Obra de Joana D’Arc, no Deutsche Open Be 066A1545.JPGrlin, dirigida por Christoph Schligensielf, um dos mais respeitados diretores de teatro e cinema da Europa. É diretor da Cia Abranches.

Conversamos com diretor e artista sobre o que poderemos ver neste filme.

Como surgiu a ideia de fazer o documentário?
Elder Fraga | Conheço o Marcos Abranches há mais de 20 anos. Trabalhei durante sete anos na oficina Cultural Oswald de Andrade como produtor interno da casa, ao lado da Eliety Teixeira (mãe do Marcos) e foi lá convivendo com eles, que conheci suas histórias e pude vivenciar a superação dele e da família.

Vi o artista nascer, estava presente na sua estreia profissional quando dançou na Cia do bailarino Sandro Borelli, O Senhor dos Anjos, no SESI SP, em 2001. Fiquei muito emocionado e, a partir daí, sempre estive acompanhando sua luta e trajetória dentro da dança.

Há mais ou menos uns 5 anos atrás falamos sobre essa possibilidade de contar a história dele no cinema, mas o tempo foi passando, e acabamos deixando a ideia de lado. No ano passado nos encontramos novamente, e retomamos as conversas sobre o documentário. Eu disse para o Marcos: vamos fazer esse filme! Era o momento certo e começamos o filme O Artista e a Força do Pensamento.

Por que a escolha pelo Marcos Abranches?
Elder Fraga | O Marcos é um cara muito determinado e quando quer uma coisa vai à luta e não desiste. Como amigo de muitos anos eu conheço ele bem, mas acho que o grande público vê ele de outro jeito. Fazer esse filme sobre ele é a forma de mostrar um artista que não tem limites, ele passa por cima dos obstáculos e segue em frente.

Claro que como qualquer artista enfrenta muitos problemas com a carreira, já quis parar, já tentou outros caminhos, mas a arte sempre falou mais alto em sua vida, e esse é o combustível para o filme.

No nosso primeiro encontro perguntei como devia tratar com ele a questão da deficiência, palavra que ele não gosta, ele disse uma frase que achei perfeita para sua definição, “O meu corpo foi feito por um Deus artístico” – ali estabelecemos uma conexão muito forte e segue nas filmagens com muita potência.

Abordar a criação artística é algo complexo, vasto. Qual o recorte que o filme pretende dar nesse contexto?
Elder Fraga | O filme não quer ir pelo caminho de contar uma história de um dançarino com paralisia cerebral. A ideia é falar da pessoa que tem uma família e se dedica a ela com amor e luta e o artista que passou por cima de muitos obstáculos, inclusive a paralisia cerebral, ganhou voz e corpo para mostrar sua arte do seu jeito. Um artista que segue encantando as pessoas por onde passa com sua dança, ao lado de grandes nomes da dança e assim evoluir. De São Paulo, ganhou o Brasil e depois o mundo dançando nos principais teatros de Berlin (Alemanha) e Madrid (Espanha) encantando os europeus e ganhando o respeito que as vezes não tem aqui, no seu próprio país. Queremos dar voz ao artista e mostrar que os limites não existem quando você acredita no que ama.

Em que ponto está a produção do longa-metragem?
Elder Fraga | Estamos nesse momento na fase de filmagens, nosso cronograma de captação das imagens é até o início de abril e aí sim, vamos para a ilha de edição começar a montar o filme. É importante falar que o Cauê Angeli (diretor de fotografia) é meu sócio nesse projeto e minha produtora Fraga Films e a dele, Onze e Onze Filmes, estão trabalhando de forma independente, pois acreditamos muito nessa história.

Qual o sentimento de ter a vida mostrada em filme?
Marcos Abranches  | Sempre tive esse sonho de estar nesse mundo cinematográfico para mostrar minha arte e para mostrar ao mundo que cada trabalho é um tipo de concentração e de preparação, mas eu me entrego de corpo e alma para o personagem do momento, às vezes quando termino o espetáculo ou ensaio, eu Marcos Abranches, volto ao mundo real e me sinto possuído profundamente pelo personagem, pesquisa, estudo, em nome da arte e vida.

O que espera com essa exposição?
Marcos Abranches | Talvez seja realmente essa a minha missão. Quando Deus colocou a artes em minha vida, não me perguntou se eu a queria ou não. Simplesmente a colocou. Deus não pergunta. Mas de uma coisa estou certo. Ele me fez dançarino, para que, entre tantos outros, obsecre ao mundo que reflita sobre a ausência do igual.

Meu corpo não oscila para o movimento físico. Oscilo meu corpo na busca permanente da libração. Para aqueles que não sabem o verdadeiro significado do igual e pensam que igual é corpo e mente semelhante, não entendem que a equidade é a disposição para reconhecer imparcialmente o direito de cada um, e que a equidade revela nas pessoas o amor, o senso de justiça, a imparcialidade, a isenção e a ética. A minha dança oscila o meu corpo clamando por lisura e reflexão sobre o modo de agir, pensar e opinar das pessoas. Honestidade e integridade não são somente padrões que os outros enxergam em nós. Oscilo meu corpo para que as pessoas possam interiorizar os seus verdadeiros valores de equivalência.

Se estiverem vazios, por Deus, que a Arte os alimente.

Algumas pessoas podem pensar: Se somos o sopro de Deus, quem nasce com deformações físicas ou mentais são frutos de um sopro defeituoso?

A resposta para este tipo de desigualdade é que não há sofrimento ao redor de nossos passos. O mal supostamente forjado não está naqueles que o carregam, mas naqueles que padecem da aflição de sua própria ansiedade, respeitável, mas inútil, projetando e mentalizando ocorrências menos felizes para a vida dos portadores de deficiência, que, em muitos casos, não são vistos como se supõe e, por vezes, nem chegarão a vê-los assim.

Estes não oscilam seus corpos e nem suas mentes.

Acredito que entendemos melhor os normais. A recíproca não é verdadeira. À medida que as limitações surgem, voltamo-nos para a essência da vida e compreendemos mais a missão que temos aqui na Terra. Para nós, a simples reflexão sobre a dor e o sofrimento, basta para evidenciar que têm uma razão de ser muito profunda. A dor é um alerta da natureza, que anuncia algum mal que está nos atingindo e que precisamos enfrentar.

Para muita dor é lamúria.

Para muitos, dor é a desculpa para as fraquezas de suas almas.

Meus movimentos oscilantes não são alerta para a deficiência física, mas para a deficiência do desamor. Procuro despertar nas pessoas as mazelas provocadas pelo egoísmo e preconceitos que corroem a alma e fomentam o ódio, o orgulho, a indiferença e a aflição do próximo, asfixiando os mais nobres ideais da vida, alimentando o campo fértil da ignorância com os ingredientes venenosos da revolta e da insensatez.

Oscilo meu corpo para o equilíbrio, para o despertar do vazio e isolamento causado pela solidão. A desestética dos movimentos são as desestéticas sentida pelo abandono e pela rejeição, entendendo que o bálsamo está na proteção do amor. Busco nos meus movimentos um mundo sem angústia, sem dores, sem desespero. Busco a vida. Busco na dança o equilíbrio do corpo e o belo da alma.

“ A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios:

Por isso cante, chore, dance, ria e viva intensamente antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos ”.

(Charles Chaplin)

Fale um pouco sobre sua trajetória e os obstáculos que precisou superar para expor sua arte?
Marcos Abranches | Olhar para a deficiência e olhar para a arte, ou juntas, a arte pelo deficiente, não está no simples olhar de ver. Está na grandeza, sem limites, do respeito e da alma das pessoas.

Em filosofia discute-se a questão do sistema autopoiético (compreender os sistemas vivos e por decorrência os sistemas de sentido). São os sistemas de sentido que abrangem os sistemas psíquicos, os sistemas comunicativos, enquanto sistemas sociais e suas realidades, cujo centro de interesse é a capacidade interpretativa do ser vivo, que concebe o homem não como um agente que “descobre” o mundo, mas que o constitui.

Entre frustrações e conquistas, nesse sentido, venho, a mais de 10 anos, desde meu primeiro trabalho em Senhor dos Anjos baseado na vida e obra do escritor Augusto dos Anjos, até o meu mais recente trabalho Corpo sobre Tela adaptada das obras do pintor modernista Francis Bacon, procurando fazer da minha dança um chamamento para a reflexão sobre o modo de agir, pensar e opinar das pessoas. Honestidade e integridade não são somente padrões que os outros enxergam em nós. Danço para que as pessoas possam interiorizar os seus verdadeiros valores de equivalência.

Se estiverem vazias, por Deus, que a Arte e a Cultura as alimentem.

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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