O olhar e a imaginação de quem sonha para sobreviver

 

Crônica dedicada à minha amiga poetisa, Mô Amorim que é capaz de extrair poesia das coisas mais simples da vida. Amélie Poulain da vida real e de quem sou fã de seus poemas, crônicas e reflexões. Além do fato de suas crônicas cinematográficas serem uma inspiração para esses meus textos mais pessoais, reflexivos e sempre cinematográficos.

 

Um menino judeu, em meio à Grande Depressão (também conhecida como a Crise Econômica de 1929) sobrevive sozinho – após a morte da mãe e o pai ser forçado a trabalhar como caixeiro viajante – passando por todo tipo de apuros. Em determinado momento, em meio a tantos infortúnios e passando fome, ele senta-se à mesa, em frente a um prato vazio e imagina estar comendo uma deliciosa refeição. Essa cena cinematográfica do filme O Inventor de Ilusões (King of the Hill, EUA, 1993), de Steven Soderbergh, ficou marcada na minha memória, pois mostra até que ponto o ser humano precisa usar a imaginação ou olhar o mundo de uma outra forma para sobreviver.

Às vezes, não compreendemos logo de cara, a forma de uma criança agir, de se comportar socialmente, pelo fato dela não falar pequenas grandes mentiras necessárias em algumas situações, pois elas têm o seu próprio jeito de pensar, os seus princípios e vivem em seu universo particular. Quando crescemos, nossa tendência é esquecer de enxergar o mundo de uma maneira mais lúdica, mais simples e mais sincera. Não apenas o menino Aaron (Jesse Bradford) de O Inventor de Ilusões tem uma visão de mundo mais positiva, mas Guido (Roberto Benigni) que em meio ao Holocausto cria um mundo de brincadeiras e fantasia para o filho não sentir os horrores do nazismo em A Vida é Bela (La vita è bella, ITA, 1997).

Em Anne with an “E” somos apresentados a uma menina órfã que é adotada por um casal de irmãos idosos fazendeiros. Eles a adotam por engano (queriam um menino para ajudar com o trabalho no local), mas acabam encantados com a imaginação da menina ruiva, faladeira e cheia de sardas que, mesmo tendo sofrido tanto em orfanatos, cria, na sua imaginação, histórias encantadoras e batiza pessoas e lugares da forma que acha mais adequada.

Baseado na obra da escritora canadense Lucy Maud Montgomery, desde 1919 já houve diversas versões da história tanto para a telona quanto para a telinha, mas atualmente a Netflix distribui mundialmente a série de TV que vai para sua 3ª temporada (as filmagens iniciam no primeiro semestre desse ano) com produção do canal CBS canadense e o programa é um primor. Enquanto isso, a Pedrazul Editora já lançou no Brasil 5 dos 8 livros que compõe a trajetória da órfã Anne Shirley.

No filme Em Busca da Terra do Nunca (Finding Neverland, EUA/UK, 2004) embarcamos na vida do dramaturgo e escritor escocês, J.M. Barrie (Johnny Depp) e descobrimos como ele teve a inspiração para escrever Peter Pan: a partir do momento em que conhece uma jovem viúva e seus 4 filhos, Barrie fica amigo do mais velho (que se chama Peter Llewelyn Davies) e da convivência e experiências com essa humilde família ele começa a traçar as linhas de sua obra mais famosa (e até ousada para época). O que se percebe vendo o filme é a forma como a Terra do Nunca é mostrada: como um lugar de passagem, a terra dos mortos, daí o sentido de que, ali todos serão crianças para sempre. É uma coisa muito triste, mas Barrie consegue transformar a morte, a passagem da vida na Terra para a vida espiritual em outro plano, em pura poesia.

Não só para “fugir” de uma realidade triste serve a imaginação. Em O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (Le fabuleux destin d’Amélie Poulain, FR/ALE, 2001), uma moça que tem uma vida simples, mas uma personalidade para lá de especial, consegue transformar não só sua vida numa grande aventura romântica, mas também, com o seu jeito para lá de positivo, a vida das pessoas à sua volta. Duas situações são bem marcantes no filme: quando ela ajuda um cego a atravessar a rua e começa a descrever em detalhes e de maneira mágica tudo a sua volta, aquele senhor, por alguns minutos passa a enxergar o mundo pelos olhos de Amélie. É mágico! A nossa entusiasta heroína, inconformada com a rotina e passividade de seu pai, resolve “sequestrar” seu anão de jardim e passa a mandar para ele, cartões postais do então objeto de decoração de seu pai “visitando” vários lugares do mundo a fim de que o acomodado senhor volte a viver uma vida plena. É por situações como essas que Amélie Poulain é uma personagem tão especial e o filme é tão marcante para tanta gente. Afinal, muitas vezes não podemos mudar o cenário em que estamos e muito menos as ações das pessoas à nossa volta, mas se formos meio Amélie, com um olhar novo, pleno e positivo tudo poderá ser diferente, transformador.

Em Antes do Pôr-do-Sol (Before Sunset, EUA, 2004), segundo filme da trilogia do antes, de Richard Linklater (dos quais fazem parte, também Antes do Amanhecer/Before Sunrise, EUA/AT/CH, 1995 e Antes da Meia-Noite/Before Midnight, EUA/GR, 2013), Celine (Julie Delpy), a caminho de casa fala para Jesse (Ethan Hawke) sobre o seu gato de um olho só, de como, diariamente, ele passeia pelo mesmo jardim e o observa como se fosse a primeira vez. Talvez esteja aí o segredo de se enxergar as situações mais duras ou as de pura rotina: enxergar com o positivismo e magia à la Amélie Poulain o que para a maioria é banal; fantasiar para sobreviver como faz Aaron, Guido e Anne Shirley (não com ares de alienação, mas de pessoas corajosas e fortes diante dos obstáculos da vida) ou como o gato de Celine que observa com frescor aquilo que já conhece, dando assim, o valor diário.

Em certos momentos da vida, talvez devêssemos buscar um outro olhar, uma nova perspectiva, tanto para as coisas corriqueiras como para as dificuldades que surgem no nosso dia a dia, assim como fazem tão brilhantemente os protagonistas dessa crônica.

Marcelo Reis nasceu no finalzinho dos anos 70, É jornalista por formação, assistente administrativo por ocupação e cinéfilo de coração. Apaixonado por cinema desde os 13 anos (quando uma cirurgia o obrigou a ficar 6 meses de cama), tem um carinho todo especial por musicais, dramas, comédias românticas (‘Harry & Sally – Feitos um para o Outro” é sua favorita), romances e filmes do Woody Allen. Quase sempre, se identifica do lado de cá com algum(a) personagem da telona ou da telinha.

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