Um Oscar para a história

A 91ª edição do Oscar deve entrar para a história pelas diversas controvérsias que enfrentou até a grande noite. O apresentador convidado Kevin Hart decidiu recusar o convite por causa de antigas piadas homofóbicas de tempos atrás, as quais levantaram muitas críticas e polêmicas. A atriz mexicana de origem indígena, Yalitza Aparicio, indicada por seu lindo trabalho em Roma, sofreu ataques hostis de infelizes colegas da profissão mexicanos, que queriam diminuir seu feito, o de ter conseguido uma rara indicação ao Oscar de melhor atriz em sua estreia cinematográfica. Aliás, houve a consagração de Roma com dez indicações, empatado com A Favorita, que estabeleceu a presença da Netflix na corrida do Oscar. Outro ruidoso problema foi quando a Academia anunciou que iria apresentar somente duas das canções indicadas, para depois voltar atrás. Também publicou que iria anunciar a vitória de quatro categorias, inclusive fotografia e edição, durante os comerciais. Acabou voltando atrás novamente.

No entanto, todas esses obstáculos foram superados. A cerimônia abriu com um contagiante show do Queen, com Adam Lambert no lugar do lendário Freddy Mercury, aquecendo a noite para o sucesso de Bohemian Rhapsody na premiação. Eles ferveram com We Will Rock You e We are the Champions, levantando a ilustre plateia com bastante entusiasmo. O número também veio para substituir a apresentação da canção de Pantera Negra, não exibida por questões de logística.

A primeira vitória foi de Regina King, coadjuvante em Se a Rua Beale Falasse, com um discurso emocionado. Daí por diante, saíram três Oscars para Pantera Negra, o primeiro longa de super-heróis indicado na categoria de filme. Venceu em figurinos, design de produção e trilha sonora, todos merecidamente.

Spike Lee finalmente levou seu Oscar para casa pelo brilhante roteiro de Infiltrado na Klan. Spike deu até um pulo em cima do apresentador Samuel L. Jackson. Seu filme foi bastante prestigiado pela Academia, que trouxe até Barbra Streisand, admiradora confessa deste longa para apresentar o clipe. Acabou sendo o único prêmio para o filme, e o cineasta se virou de costas quando o filme vencedor foi mais tarde anunciado.

Um dos pontos altos da noite foi o impecável dueto de Lady Gaga e Bradley Cooper, confirmando a vitória para a canção Shallow. Os dois subiram ao palco e cantaram o grande sucesso musical do ano. Lady Gaga, em look inspirado em Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo, de Blake Edwards, usando um diamante da Tiffany’s de 113 milhões de reais, foi às lágrimas em seu discurso, e fez questão de falar as mais lindas palavras a respeito de seu diretor Cooper. As outras apresentações trouxeram a poderosa voz de Jennifer Hudson, ganhadora do Oscar por Dreamgirls, com I’ll Fight (de “RBG”)’, e o carisma de Bette Midler para cantar uma canção de O Retorno de Mary Poppins. Não se entende porque Emily Blunt não quis cantar sua canção, mas Poppins não levou nada para casa, ao contrário do clássico insuperável original, que recebeu cinco Oscars, inclusive de melhor atriz para Julie Andrews.

Roma levou três grandes prêmios, todos para o talentoso Alfonso Cuarón, vencedor de diretor por Gravidade. A obra prima mexicana em preto e branco foi premiada como melhor filme em língua estrangeira, pela magnífica fotografia e direção. Todos os três prêmios foram para as mãos de Cuarón, que não parava de subir ao palco para discursar, elogiando suas atrizes.

O ”In Memorium” teve música regida por Gustavo Dudamel e um número reduzido de nomes que partiram – Carol Chaning não foi mencionada – mas, pelo menos, incluíram o nosso Nelson Pereira dos Santos.

Bohemian Rhapsody acabou sendo o filme mais premiado da noite, com quatro Oscars importantes – edição de som, mixagem de som, edição e melhor ator para o incrível Rami Malek, interpretando o ícone Mercury, do Queen. Malek fez um discurso forte, exaltando o fato de ser descendente de egípcios, exaltando Mercury e a namorada atriz do seu longa, a linda Lucy Boyton, na plateia. No final da cerimônia, o premiado ator acabou levando um tombo, caindo do palco para a plateia, mas felizmente nada grave.

Uma elegantíssima Julia Roberts, muito linda, anunciou o grande vencedor da noite: Green Book – o Guia.  Um filme de sucesso, com grandes interpretações de Viggo Mortensen e Mahershala Ali. O longa nos faz lembrar de Conduzindo Miss Daisy às avessas, teve polêmicas, inclusive o protesto de Spike Lee na noite, mas de maneira geral, é um elogiado filme que agrada o grande público. Mahershala, vencedor por Moonlight,  ganhou todos os prêmios do ano com este seu lindo trabalho, e o Oscar o reconheceu novamente. O terceiro importante Oscar do filme foi o de roteiro original.

A noite sem apresentador teve um ritmo mais ligeiro, sem anfitrião (coisa que não acontecia desde 1989)), terminou mais cedo, marcou grande aversão a Donald Trump, abraçou as minorias  e teve uma maior audiência – 12% maior que no ano anterior.

No entanto, deve-se ressaltar o impacto do prêmio para a melhor atriz. A grande favorita deste ano era Glenn Close, que trazia uma bagagem de sete indicações ao Oscar, em trinta e seis anos de esplêndida carreira. A atriz foi até vestida de dourado, como Meryl Streep há alguns anos, para receber seu prêmio interpretando Margaret Thatcher. Quando o nome de Olivia Colman foi anunciado, o choque foi imenso. Olivia é uma boa atriz, dividiu prêmios com Glenn, mas seu papel em A Favorita tinha a mesma extensão dos papeis coadjuvantes de Emma Stone e Rachel Weiz. A estrela de títulos como Atração Fatal e Ligações Perigosas tinha a maior chance de levar o prêmio esse ano, mas não foi dessa vez. Será que haverá alguma mais? Colman fez um discurso louquinho e simpático, e declarou que idolatrava Glenn, sorridente na plateia. E Glenn a caminho da festa do Governor’s Ball se dizia feliz e que só sentia pelas pessoas que tinham apostado em sua vitória, como eu.

Seja como for, a grande Glenn Close vai ficar na lista dos grandes nomes não premiados, como Hitchcock, Lauren Bacall, Peter O’Toole, Richard Burton. É uma lista tão ilustre como a dos vencedores… Será que só resta a Glenn esperar por um Oscar Honorário? Espero que não.

Waldemar Lopes é artista plástico, engenheiro mecânico, professor, cinéfilo. Anualmente realiza em Santos uma palestra beneficente sobre o Oscar, que se tornou tradicional na cidade. Também já realizou encontros sobre cinema para a Universidade Católica de Santos, Universidade Monte Serrat, Secretaria de Cultura de Santos e Rotary. Escreve para o CineZen e o 50 Anos de Cinema.

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