Um Oscar de ineditismos e uma grande surpresa

A 91ª edição do Oscar não teve grandes novidades. Tudo que estava desenhado aconteceu. Exceto na categoria melhor atriz. A vitória de Olivia Colman foi surpresa geral. Afinal, uma das estrelas de A Favorita divide o filme praticamente em pé de igualdade com duas colegas (Rachel Weisz e Emma Stone, ambas indicadas para coadjuvante). Glenn Close havia vencido praticamente todos os prêmios na temporada. Era a sétima indicação da veterana, a mais velha com o maior número de nomeações sem ter recebido a estatueta. Provavelmente receberá o Oscar honorário em breve.

As vitórias de Green Book (Filme), Rami Malek (Ator), Mahershala Ali (Ator Coadjuvante), Regina King (Atriz Coadjuvante), Homem-Aranha no Aranhaverso (Animação) e Alfonso Cuarón (Direção) eram aguardadas. Este último, aliás, foi o grande vencedor da noite. O cineasta mexicano ainda levou pra casa os “carecas dourados” de Filme em Língua Estrangeira e Fotografia – nesta categoria precisou substituir às pressas o genial conterrâneo Emmanuel Lubezki.

Foi o quinto prêmio de direção para o México em poucos anos – antes o próprio Cuarón (por Gravidade), Alejandro González Iñárritu (dois anos seguidos, por Birdman e O Regresso) e Guillermo Del Toro (por A Forma da Água) ganharam. São premiações merecidas e, não podemos ignorar, um claro posicionamento da Academia contra as políticas anti-imigração e intolerantes de Donald Trump. Não à toa Yalitza Aparicio é a primeira atriz indígena indicada para atuação.

Esse foi um Oscar de ineditismos. De – algumas – barreiras quebradas, ainda que a a principal categoria tenha ficado com um filme conservador no sentido narrativo, estético e gerou polêmicas.

Após aquelas edições de “Oscar So White” a Academia acertadamente convidou mais profissionais para o time de votantes, de diferentes países, etnias. Dando maior diversidade e possibilitando maior inclusão no grupo. Não trata-se de ‘mimimi”, choro ou nada parecido. Esses profissionais, mulheres, negros, latinos, trabalham há décadas na indústria e jamais tinham o devido reconhecimento, por mais que fizessem por merecê-lo.

O que acontece agora é algo que deveria ser natural. Como as vitórias de Pantera Negra. Vencedor em Trilha Sonora, o primeiro longa de super-heróis indicado para Melhor Filme fez história especialmente com Ruth E. Carter, primeira mulher negra a ganhar o prêmio de Melhor Figurino, e Hannah Beachler, primeira negra indicada e vencedora em Melhor Design de Produção na história dos Academy Awards.

Três dos atores vencedores por suas atuações interpretaram personagens homossessuais: Rami Malek é Freddie Mercury em Bohemian Rhapsody; Olivia Colman faz a Rainha Anne em A Favorita e Mahershala Ali vive o pianista Don Shirley em Green Book.

Nada porém, nem o momento fofura de Lady Gaga com Bradley Cooper entoando Shallow, a Melhor Canção da Noite, iguala-se ao discurso de Spike Lee, tardiamente e merecidamente vencedor pelo Roteiro Adaptado do sensacional Infiltrado na Klan. “Hoje é 24 de fevereiro, o mês mais curto do ano. Também é o mês do ano da história negra. 1619… Há 400 anos nós fomos roubados da África e trazidos para a Virginia, escravizados. A minha avó, que viveu até 100 anos de idade, apesar de sua mãe ter sido escrava, conseguiu se formar. Ela viveu anos com seu seguro social, e conseguiu me levar para a universidade NYU. Diante do mundo, eu gostaria de reverenciar os ancestrais que construíram esse país, e também os que sofreram genocídios. Os ancestrais que vão ajudar a voltarmos a ganhar nossa humanidade. As eleições de 2020 estão chegando, vamos pensar nisso. Vamos nos mobilizar, estar do lado certo da história. É uma escolha moral. Do amor sobre ódio. Vamos fazer a coisa certa”.

PS: A ausência de um mestre de cerimônias sequer foi sentida. A cerimônia pode continuar assim nos próximos anos.

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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