Crítica | Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman, 2018)

Antes tarde do que nunca um dos principais filmes de 2018 e do Oscar 2019 chega aos cinemas da região. Diz o clichê que tomou conta da imprensa especializada: Infiltrado na Klan é o retorno do grande Spike Lee à boa forma. Não concordo muito com esse tipo de afirmação. Como se artistas fossem atletas, competidores. É o filme mais emblemático dele nos últimos tempos, sim. Mas o cineasta jamais perdeu a verve crítica, a lucidez ao tratar de temas densos.

No caso, ele narra a história real de Ron Stallworth (John David Washington, filho do astro Denzel Washington), que se infiltrou na Klu Klux Klan durante os anos 70. Ele conversava por telefone com o diretor da organização racista, David Duke (o mesmo que identificou em Jair Bolsonaro alguém “dos seus”), vivido por Topher Grace. Quando convocado a ir nas reuniões do grupo, foi substituído pelo colega branco Flip Zimmerman (Adam Driver, o Kylo Ren de Star Wars). Na vida real, essa investigação evitou diversos atentados.

A trama acompanha ainda a relação de Ron e a ativista do movimento negro Patrice (Laura Harrier, a Liz de Homem-Aranha de Volta ao Lar, demonstrando versatilidade enquanto intérprete). O filme toma algumas liberdades, principalmente no ato final.

Spike Lee escreveu o roteiro junto a Charlie Wachtel, David Rabinowitz e Kevin Willmott e partir do livro assinado pelo próprio Ron. Destila ironia, humor ferino, para criticar a hipocrisia, o preconceito e, apesar de tratar de algo ocorrido há décadas, traça um poderoso paralelo com o mundo atual, tomado por políticos nacionalistas, preconceituosos e que chegam ao poder graças à parte da população que se revela igualmente intolerante.

Infiltrado na Klan tem entre os produtores o ator e diretor Jordan Peele, do excepcional Corra! (2017). É, acima de tudo, retrato do momento do planeta, da ignorância. Traz elenco afiado: Alec Baldwin faz Dr. Kennebrew Beauregard, o veterano das telinhas Robert John Burke (Law & Order: Special Victims Unit) é o chefe de polícia Bridges. Por sinal, o protagonista encontra dificuldades dentro do departamento onde trabalha. Há o racismo implícito, velado.

David Duke chegou a ser deputado na Luisiana. Votou duas vezes contra o projeto que transformava o aniversário de Martin Luther King em dia festivo no estado. Em 2002 seria condenado por fraude e evasão fiscal. Mas a cegueira por parte de alguns é tanta que o sujeito seguiu em atividade. Em 2017 estava no “protesto” de grupos supremacistas brancos em Charlottesville. Infiltrado na Klan encerra com imagens de arquivo chocantes, que nos lembram: por mais que passos sejam dados a um mundo melhor, sempre surge alguém para remar contra, para impor o ódio, a segregação. Por isso, o filme de Spike Lee é tão necessário. Nos reforça: a luta nunca termina.

Infiltrado na Klan
BlacKkKlansman
20198. EUA.
Direção: Spike Lee.
Com John David Washington, Adam Driver, Laura Harrier, Topher Grace, Alec Baldwin, Robert John Burke.
135 minutos.


 

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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