Crítica | Creed II (2018)

Alguns personagens se tornam queridos a ponto de torcemos por eles como se fossem nossos amigos. Rocky Balboa é um desses exemplos. Há mais de 40 anos o Garanhão Italiano nos empolga e faz chorar em filmes ora muito legais, ora irregulares.

Quando achávamos que já tínhamos acompanhado toda a sua trajetória, o jovem cineasta Ryan Coogler fez o excelente Creed: Nascido Para Lutar (2015, lançado no Brasil no início de 2016), colocando o personagem de Sylvester Stallone treinando Adonis (Michael B. Jordan), filho de seu ex-adversário e amigo, Apollo Creed (Carl Weathers). O trabalho rendeu ao astro o Globo de Ouro e uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante.

| Crítica | Creed: Nascido Para Lutar

Apollo faleceu em Rocky IV pelas mãos do adversário Ivan Drago (Dolph Lundgren). Creed II é continuação direta tanto do longa de três anos atrás como daquele de 33 anos antes.

Coogler volta como produtor após comandar o megassucesso Pantera Negra e deixa a cadeira de direção para o amigo Steven Caple Jr., de carreira curta e pontuada por trabalhos na TV e poucos longas-metragens. Assim, Creed II revela-se um filme competente, sem o virtuosismo do anterior, que trazia um round inteiro filmado em plano-sequência, sem cortes, nos levando para dentro do ringue.

A derrota para Rocky fez Drago cair no ostracismo. Vivendo à margem da sociedade, treina o filho Viktor (Florian Monteanu), boxeador em ascensão, implacável e que chama a atenção do promotor de lutas fanfarrão Buddy Marcelle (Russell Hornsby). Enquanto isso, Adonis e a namorada Bianca seguem suas vidas. Ele, treinado por Rocky, disputa o título mundial dos pesos pesados. Ela, segue fazendo shows de sucesso. Tudo vai bem até os caminhos de Adonis e Viktor se cruzarem.

Antigas feridas retornam. Temos, pela frente, a velha trama de hesitação, superação e redenção. A maneira como o roteiro, escrito pelo próprio Stallone em parceria com Juel Taylor (curiosamente mais experiente no departamento de som, com 18 trabalhos listados no IMDB), é construído, remete à dinâmica de Rocky III (1982).

Por mais que possamos antecipar algumas situações, a história mantém a essência que fez a franquia Rocky durar tanto tempo e, agora, faz a saga Creed manter nosso interesse: os personagens são gente como a gente. Erram, choram, vibram, têm medo.

Particularmente, eu que perdi meu pai recentemente, me emocionei diversas vezes. Creed II, que amadurece o relacionamento entre o protagonista e Bianca (a sempre ótima Tessa Thompson) é principalmente sobre pais e filhos. Rocky é a figura paterna de Adonis que, por sua vez, não esquece Apollo e se torna pai. Há também a relação conturbada entre Ivan e Viktor Drago.

Vale ressaltar que, dessa vez, nos aproximamos de Drago de maneira que não era possível em Rocky IV. Aquela produção funcionava como mera propaganda do capitalismo norte-americano e mostrava soviéticos de forma caricata. Não à toa é um dos piores da série e, para os fãs, soa um “guilty pleasure” (algo que sabemos ser ruim, mas ainda assim gostamos).

Não faltam cenas de luta eletrizantes, as velhas e boas sequências de treinamento e a trilha sonora de Ludwig Göransson, que ecoa acordes da música clássica de Bill Conti, empolga. Para os mais aficionados, há a aparição de dois antigos personagens. Stallone divulgou que foi sua última atuação na pele de Rocky. Fica a saudade. Mas o legado está mantido em Adonis, vivido com intensidade, alguma marra e carisma por Michael B. Jordan.

Creed II.
2018. EUA.
Direção: Steven Caple Jr.
Com Michael B. Jordan, Tessa Thompson, Sylvester Stallone, Dolph Lundgren, Florian Monteanu, Wood Harris, Russell Hornsby, Phylicia Rashad, Milo Ventimiglia, Brigitte Nielsen.
130 minutos.  


 

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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