Kasdan, Branagh e o sentido da amizade

Dedico essa crônica:

Aos amigos que conheci ao longo da vida, companheiros de bate-papo nerd ou filosóficos, sessões de cinema, lanchinhos, cafés nerds e outras gordices.

Aos parentes que considero amigos.

Aos colegas de trabalho que se tornaram amigos.

Aos amigos que fiz no Tarquínio Silva e no Colégio Positivus.

Aos amigos que fiz na Facos.

Aos amigos virtuais cinéfilos com quem converso desde os tempos do orkut e da internet discada.

E aos “Rebentos da Miriam”.

De todo meu coração.

 

É engraçado como certas coisas, às vezes, chegam a nós. Lembro que meu primeiro contato com a obra de Shakespeare foi assistindo ao filme Romeu e Julieta (1968), de Franco Zeffirelli (que foi lançado mais de 10 anos antes de eu nascer. Sou de 1979), assim como só algum tempo depois, assistindo (pasme!) As Patricinhas de Beverly Hills (1995) que eu descobri que, na verdade, nada mais era do que uma versão moderna de Emma, de Jane Austen (minha autora favorita).

O Reencontro (The Big Chill, 1983), de Lawrence Kasdan foi mais ou menos por esse mesmo caminho: aos 13 anos me tornei cinéfilo por ter que ficar seis meses de cama após uma cirurgia e passei a ver e rever Henrique V, do cineasta e ator irlandês e shakespeariano, Kenneth Branagh umas 11 vezes (só naquele ano) como eu já falei numa crônica anterior.

Desde então, procurei por outros longas do diretor-ator e descobri, pouco depois, um belíssimo filme que tratava do reencontro de velhos amigos que se reúnem na mansão de um deles. Esse filme, Para o Resto de Nossas Vidas (Peter’s Friends, 1992), contava com um primoroso elenco que ia de Emma Thompson – na época, esposa de Kenneth – que interpreta Maggie, a amiga que nutre uma paixão pelo anfitrião do local; Hugh Laurie (série House) e Imelda Staunton (Harry Potter e a Ordem da Fênix) fazendo um casal que passou por uma grande perda e fica apreensivo em deixar o filho pequeno para rever os amigos, o próprio Branagh como o autodestrutivo e alcoólatra, Andrew e Stephen Fry (Wilde) na pele do Peter do título. Esses eram alguns dos amigos de Peter.

A cada texto ou crítica que eu lia sobre Peter’s Friends quase sempre encontrava alguma citação do tipo: “Kenneth Branagh faz aqui seu O Reencontro dos anos 90”. E, depois de algum tempo, eis que encontrei esse clássico dos anos 80 que era sempre citado à obra de Branagh.

O Reencontro (1983) é um dos filmes de Lawrence Kasdan em que faz um cinema mais humanista (outros exemplos são: O Turista Acidental, 1988 e Grand Canyon – Ansiedade de uma Geração, 1991), onde narra a história de um grupo de amigos que se reencontra depois de anos, para o funeral de Alex (Kevin Costner, que teve sua participação cortada), aquele que era considerado o mais promissor deles.

Do eclético grupo de amigos temos Michael (Jeff Goldblum), um jornalista que escreve para a revista People; Sam (Tom Berenger), um ator que faz sucesso em um seriado policial; Nick (William Hurt), um homem que sofreu sequelas na Guerra do Vietnã e que é viciado em comprimidos; Harold (Kevin Kline) que trabalha na Bolsa de Valores e é casado com Sarah (Glenn Close), entre outros. O reencontro desses velhos amigos fará com que lembranças, afeto e desejos venham à tona.

Afinal, o que faz de alguém, um amigo? Empatia, afinidade, interesses e ambientes em comum? Talvez um pouco disso tudo, mas o principal talvez seja a intuição de reconhecer em alguém um amigo. Ou de reconhecer-se em alguém.

Tem uma frase que diz: “amigos são parentes que a gente mesmo escolhe”. Se seguirmos essa máxima ao “pé da letra” temos obrigação de nos cercarmos de pessoas incríveis, que nos façam bem, que nos façam rir, que tornem um dia estressante mais leve e que a gente possa retribuir esse afeto; afinal, a vida é um ciclo e deve haver sempre reciprocidade.

Um(a) amigo(a) você pode conhecer/reconhecer numa quadra de futebol, nas escadarias de uma faculdade, nos palcos, num jantar japonês, num café nerd, no ambiente de trabalho, nas redes sociais e em tantos outros lugares, das maneiras mais agradáveis, surpreendentes e improváveis.

Tenho amigos(as) que não vejo há anos, mas basta uma música, uma citação, uma lembrança, para um deles vir à minha mente e ao meu coração.

Milton Nascimento diz em Canção da América:

“Amigo é coisa para se guardar
No lado esquerdo do peito
Mesmo que o tempo e a distância digam “não”
Mesmo esquecendo a canção
O que importa é ouvir
A voz que vem do coração”

E eu, revendo aquele clássico do Kasdan, no discurso em que Harold (Kevin Kline) se despede de Alex e diz assim: “Eu conhecia o Alex. E o amava. Vejo diante de mim todos aqueles que Alex amava. Não nos vimos muito nestes últimos anos. Mas nem o tempo, nem a distância poderiam quebrar esses laços que nos unem”, me dou conta de que, tanto Milton quanto Kasdan entendem, realmente, o sentido da vida e a importância de um amigo de verdade.

É bonito perceber que, quando uma obra ou alguém fala ao coração e é com sinceridade, como em Para o Resto de Nossas Vidas, O Reencontro ou Milton “Bituca” Nascimento se tornam atemporais e referências para aquilo que buscamos, para aquilo que desejamos falar, refletir e discutir.

Vejo, de certa forma, o Andrew do Kenneth Branagh em Para o Resto de Nossas Vidas no Nick de William Hurt em O Reencontro. Assim como vejo alguns amigos que fiz pela vida, pelo mundo teatral, acadêmico, cultural ou virtual nesses filmes, nesses personagens, nessas histórias tão bem contadas sobre um grupo de velhos amigos que não se veem há muito tempo e precisam se reencontrar, se esbarrar, se redescobrir e perceber que “mesmo que o tempo e a distância digam não”, sua empatia, afinidade, qualidades, defeitos e suas histórias em comum são peças únicas e insubstituíveis desse imenso e belo quebra-cabeça chamado vida.

Marcelo Reis nasceu no finalzinho dos anos 70, É jornalista por formação, assistente administrativo por ocupação e cinéfilo de coração. Apaixonado por cinema desde os 13 anos (quando uma cirurgia o obrigou a ficar 6 meses de cama), tem um carinho todo especial por musicais, dramas, comédias românticas (‘Harry & Sally – Feitos um para o Outro” é sua favorita), romances e filmes do Woody Allen. Quase sempre, se identifica do lado de cá com algum(a) personagem da telona ou da telinha.

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