Crítica | Homem-Aranha no Aranhaverso (Spider-Man: Into The Spider-Verse)

Linda, arrebatadora, divertida, emocionante. Não cabem adjetivos para Homem-Aranha no Aranhaverso, mais novo filme e primeiro longa em animação do Amigão da Vizinhança. A empreitada tinha tudo para soar mero caça-níqueis.

A Sony detém os direitos do personagem. Mas fez parceria com a Marvel Studios e o herói tem participado do universo compartilhado junto com Vingadores, Guardiões da Galáxia, etc. Esteve em Capitão América: Guerra Civil (2016), teve sua história solo (De Volta ao Lar) em 2017 e participou de Guerra Infinita ano passado. Tom Holland, o jovem ator que encarna o Cabeça de Teia, é carismático, agradou público e crítica. Sobrou para a Sony usar figuras secundárias, como Venom, que protagonizou sua própria história, ruim, mas êxito de bilheteria.

Veio a notícia da animação. Se inicialmente soou como suspeita, os nomes envolvidos geraram expectativa interessante: os produtores seriam Phil Lord e Chris Miller, da ótima Uma Aventura Lego. Sorte de todos nós, que podemos ver o melhor filme do Escalador de Paredes, ao lado de Homem-Aranha 2 (2004). Os três diretores Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman entregam um trabalho visualmente arrebatador.

A contribuição do filme para o gênero animação será sentida nos próximos anos. Trabalharam com novas ferramentas, colando animação “chapada” (tradicional), tipo desenhada à mão, em animação feita por computador. O resultado é deslumbrante. Como se víssemos histórias em quadrinhos ganhando vida e saltando do papel. Não se trata de verniz apenas. A trama é envolvente. Talvez soe complexa para os pequeninos.


Miles Morales é estudante secundarista e se vê em meio a um conflito entre o Homem-Aranha e o Rei do Crime. Vê seu ídolo perecer e é envolvido numa aventura sobre universos paralelos: o vilão quer juntar todas as realidades para trazer sua amada Vanessa de volta à vida. Quem acompanhou as séries do Demolidor no Netflix sabe quem é a amada do bandidão robusto. Eis que outros “Aranhas” surgem e são reunidos: a Mulher-Aranha Gwen Stacy, um Peter Parker veterano e barrigudinho que servirá de mentor a Miles, o Homem-Aranha Noir, a garota Peni Parker, vinda do futuro, e até o Porco-Aranha Peter Porker. Todos concebidos com traços respeitando suas diferentes origens. O Homem-Aranha Noir, por exemplo, sempre em preto e branco, Peni com traço de anime e assim por diante. Poderia ser uma salada maluca tantos estilos de animação dividindo espaço na tela. No entanto tudo é fluído, bonito.

Tal como Lego Batman – O Filme foi para o Homem-Morcego, Homem-Aranha no Aranhaverso celebra décadas de seu herói homenageando diferentes fases nos quadrinhos, nas telinhas e telonas, refazendo cenas de filmes, entregando aos fãs diversas referências, easter eggs. Vale à pena esperar a cena pós-créditos para quem achar que um determinado Homem-Aranha foi esquecido.

Com elenco de dubladores muito legal, que inclui o premiadíssimo Mahershala Ali (Moonlight e Green Book) vivendo o Tio Aaron, Shameik Moore (The Get Down) como o protagonista e até Nicolas Cage como o Homem-Aranha Noir e p Steve Trevor de Mulher Maravilha, Chris Pine, vivendo o Peter Parker do início, a animação tem vilões de visuais um tanto exagerados, trilha sonora e montagem empolgantes e momentos que arrancarão lágrimas do espectador. Foi assim comigo, inclusive na homenagem a Stan Lee. É também, retrato da diversidade: Miles Morales é um personagem maravilhoso, criado inicialmente para a linha Ultimate de quadrinhos da editora Marvel, negro de descendência latina, cativa, erra, acerta, corre para os pais quando as coisas saem de rumo mas busca, sempre, melhorar. Inspirador. Finalmente a Sony acertou em cheio depois de tropeços em Homem-Aranha 3, O Espetacular Homem-Aranha 1 e 2 e Venom. Vencedor do Globo de Ouro, que venham o Oscar e continuações.

Homem-Aranha no Aranhaverso
Spider-Man: Into The Spider-Verse
2017. EUA.
Direção: Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman.
Com vozes de Shameik Moore, Mahershala Ali, Jake Johnson, Lily Tomlin, Hailee Steinfeld, Liev Schreiber , Nicolas Cage, Kimiko Glenn, John Mulaney, Zoë Kravitz, Chris Pine.
117 minutos.


 

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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