Um Natal capraniano

Essa crônica é dedicada ao meu amigo Flapp que tem o espírito de um astronauta, é persistente como um escritor e talentoso na arte da escrita como todo artista deveria ser no exercício de seu oficio (seus textos e críticas flapperianas sempre me fazem refletir e aprender). Além de ser admirador de It’s a Wonderful Life tanto quanto eu.

 

De todas as datas festivas a minha favorita desde criança é o Natal. Naquela época, provavelmente, era por causa dos presentes, mas havia muito mais coisas envolvidas e que me recordo com alegria e uma certa nostalgia. Da volta no quarteirão à procura do Papai Noel, das encenações que eu, minha irmã e meus primos fazíamos (com direito a troca de elenco de última hora – um dos integrantes tendo que viajar de última hora até pequenas queimaduras devido à cera de vela que levamos em uma das encenações), a reunião familiar, o amigo secreto (que, atualmente, não participo ou aprecio), a reza em volta da mesa, meu avô abrindo a cantoria com Noite Feliz e, enfim, a tão almejada ceia e troca de presentes.

Como cinéfilo, não poderia deixar de lembrar que, naquela época (década de 1980), uma famosa emissora de TV passava na véspera de Natal o desenho He-Man e She-Ra: Especial de Natal (He-Man and She-Ra: A Christmas Special, 1985) seguido de E.T.: O Extraterrestre (E.T. the Extra-Terrestrial, 1982), de Steven Spielberg (ou seria o contrário? Sei lá). Eram tempos de sonhar e de ser feliz.

Conforme fui crescendo, o meu carinho pelo Natal não desapareceu, pelo contrário… Meu carinho e atenção por uma data tão especial continuou, porém, com algumas mudanças: não havia mais encenações e trapalhadas advindas disso, passei a fazer novena natalina e, se na infância, He-Man e E.T. eram os meus “heróis natalinos”, com uns 18 anos descobri um outro herói dessa data. O nome dele? George Bailey, o icônico personagem/herói de A Felicidade Não Se Compra (It’s a Wonderful Life, 1946), de Frank Capra.

Um amigo (a quem essa crônica é dedicada) disse recentemente: “É pra assistir todo ano. Milagre em forma cinematográfica” e é isso que eu tenho feito há 20 anos, desde a primeira vez que assisti a essa obra-prima do Capra, aquele que tinha fé no ser humano como poucos.


Para quem não conhece o enredo desse filme, eu vou tentar resumi-lo aqui: George Bailey é o filho mais velho de uma família classe média que sonha estudar Medicina e se mudar de sua cidade natal, Bedford Falls. Com a repentina morte de seu pai (que é sócio numa firma, “Irmãos Bailey – Financiadora e Construtora”), ele precisa assumir seu lugar e ajudar não só sua família, mas a população. Às vezes, acreditamos que o sair de casa, se aventurar pelo mundo, seja um ato não apenas corajoso, mas de maturidade e crescimento; No caso de George, sua coragem está em permanecer e ajudar aqueles que ama, sejam eles familiares, amigos ou a população da cidade.

Passam-se alguns anos, Bailey está numa crise pessoal e financeira e, então, resolve cometer suicídio. Um anjo, Clarence (que sonha em ganhar suas asas) tem a missão de fazê-lo desistir dessa ideia, com uma atitude para lá de inusitada: mostrar para George como seria Bedford Falls se ele nunca tivesse existido. E é aí que está a grandeza do filme: mostrar que cada ser humano é único e capaz de fazer a diferença no mundo, com benevolência, generosidade, compaixão e amor ao próximo. Ou, como bem define o anjo, Clarence: “Estranho como a vida de um homem toca tantas outras. Se alguém não existe deixa um buraco horrível”.

Essa atitude desesperada de George e a lição de vida (e, posteriormente, a consciência de sua importância no mundo e na vida das pessoas) pela qual o protagonista passa, remete à uma frase do pensador e filósofo chinês, Confúcio que li recentemente (na bela graphic novel, Duas Vidas, do francês, Fabién Toulmé): “Você tem duas vidas. A segunda começa quando você percebe que só tem uma”.

Se eu perguntasse a você agora: qual é o maior vilão do cinema na sua opinião? Você poderia citar Hannibal Lectar, Lorde Voldemort, Coringa, Darth Vader e tantos outros. Confesso a você, caro leitor, que o vilão que mais me assusta chama-se sr. Henry F. Potter (Lionel Barrymore, tio-avô de Drew Barrymore), o homem mais rico e cruel de Bedford Falls e que sem George para ajudar aos que necessitam, transforma a cidade em sua Pottersville (uma espécie de Las Vegas, com muitas luzes, casas noturnas, cassinos, etc. Tudo muito comercial e desumano) onde as pessoas estão muito mais duras, sofridas e sem esperança.


Realmente, assistir A Felicidade Não Se Compra, pelo menos uma vez ao ano não é apenas necessário. É obrigatório. Afinal, se durante o ano, temos algumas desilusões, brigas, aborrecimentos e mal entendidos, a obra-prima de Capra está aí para nos fazer ter fé no ser humano novamente e nos lembrar que “… nenhum homem é um fracasso se têm amigos”.

Que os milagres não aconteçam somente numa data ou por causa de um clássico do cinema, mas que estejam dentro de nós, nas nossas escolhas e ações diárias com nós mesmos e com o próximo.
Se nessa véspera de Natal, por acaso, você ouvir um sino tocar, lembre-se: “Toda vez que toca um sino, é sinal de que um anjo ganhou suas asas”. Merry Christmas!

Marcelo Reis nasceu no finalzinho dos anos 70, É jornalista por formação, assistente administrativo por ocupação e cinéfilo de coração. Apaixonado por cinema desde os 13 anos (quando uma cirurgia o obrigou a ficar 6 meses de cama), tem um carinho todo especial por musicais, dramas, comédias românticas (‘Harry & Sally – Feitos um para o Outro” é sua favorita), romances e filmes do Woody Allen. Quase sempre, se identifica do lado de cá com algum(a) personagem da telona ou da telinha.

One thought on “Um Natal capraniano

  1. A gente realmente precisa dessas “luzes”, durante a vida, para iluminar nossos caminhos e nos trazer esperança. Nunca tinha ouvido falar desse filme antes de vc falar dele, e jamais o assistiria com os mesmos olhos se não ouvisse o que vc tem para falar dele.

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