Crítica 2 | Bohemian Rhapsody (2018)

É quase impossível não gostar de um filme sobre o Queen. Os realizadores precisariam cometer atrocidades para que a plateia não se envolvessem, não se emocionassem.

Fosse uma sucessão de videoclipes da banda ainda assim teríamos prazer em apreciar os hinos compostos por Freddie Mercury (vocais e piano), Brian May (guitarra e vocais), John Deacon (baixo) e Roger Taylor (bateria e vocais).

Não trata-se apenas de uma das maiores bandas de todos os tempos. Mas da lenda. Do mito. De canções imortalizadas, cantadas pelos quatro cantos do globo.

Bohemian Rhapsody, filme que leva o título de uma das músicas mais emblemáticas do grupo, traz canções em profusão. Mostra como teriam sido feitas algumas delas. Ignora outras. Under Pressure, por exemplo, feita por em parceria com outra lenda, David Bowie, passa quase despercebida.

Na verdade a trama apresentada pela cinebiografia obviamente focada em Freddie Mercury não traz muitas novidades em relação ao que já sabíamos: os músicos são excepcionais, foram subestimados no início de carreira, Mercury era talento puro, conflitos aconteceram entre os membros que, nos palcos, eram praticamente incomparáveis. O protagonista foi casado e, após o divórcio, manteve a amizade com Mary até o fim de sua vida.

E há algumas liberdades. Como, por exemplo, antecipar em vários anos o show do Rock in Rio. Realizado em 1985, quando Mercury já estava com bigode, o evento no longa é mostrado durante os anos 1970, quando o cantor ainda tinha cabelo cumprido.

Se olharmos mais atentamente perceberemos que a produção tem problemas. Joga ao espectador algumas situações de maneira praticamente aleatória. Vilaniza de forma caricata o companheiro de Mercury.

O diretor Brian Synger foi demitido antes do término das filmagens. Segundo os executivos da Fox, o clima era de caos no set. Esse caos só não é totalmente perceptível na tela por que o elenco está em estado de graça. Principalmente Rami Malek. Duas vezes indicado ao Globo de Ouro e premiado com o Emmy por seu trabalho na série Mr. Robot, o norte-americano de origem egípcia desaparece dentro de Freddie Mercury.

Há três tipos de interpretações em cinebiografias. Atores que simplesmente soam meros imitadores ao repetirem trejeitos dos biografados, como foi Joaquin Phoenix em Johnny e June (2005), aqueles que de longe lembram os personagens reais retratados (e há vários exemplos neste sentido) e aqueles que simplesmente se transformam nas figuras filmadas. Bohemian Rhapsody traz este último exemplo. Malek provavelmente estará nas listas de indicados aos principais prêmios cinematográficos.

No fim somos presenteados com a reprodução quase na íntegra do lendário show do Queen no Live Aid, em 1985. Está tudo igual. Na mesma noite que vi o filme corri para o computador e revi a apresentação real. Trabalho admirável de direção de arte, figurino, atuação e, nesta cena, direção. Há algumas brincadeiras, como as ligações do público. Sem detalhes para não estragar o sorriso.

Só fica a dúvida. Se a apresentação real pode ser conferida facilmente, pra que a revermos com atores? No saldo geral, o filme cumpre o seu papel de fazer o espectador cantar junto, bater palma, chorar e sorrir. Por mais que Bryan Singer tenha dificultado as coisas.

Bohemian Rhapsody
2018. Reino Unido, EUA.
Direção: Bryan Singer.
Com Rami Malek, Lucy Boynton, Gwilym Lee, Ben Hardy, Joseph Mazzello, Allen Leech, Mike Myers.
134 min.


 

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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