Crítica | Legalize Já – Amizade Nunca Morre (2017)

Legalize Já – Amizade Nunca Morre é um dos filmes mais sensíveis do ano. Exala empatia, fraternidade. A história da amizade que resultou na criação da banda Planet Hemp chega aos cinemas em momento do país onde irmãos gêmeos são espancados por que os agressores pensaram que fossem um casal gay.

Skunk (Ícaro Silva) e Marcelo D2 (Renato Góes) se amam. Dizem eu te amo um ao outro. Se abraçam. Caminham abraçados. Se admiram. Amor de irmão. Talvez hoje não pudessem demonstrar esses sentimentos.

Obviamente, caso a relação fosse homoafetiva não haveria problema. A não ser em mentes deturpadas como os trogloditas de plantão. E o filme concebido por Johnny Araújo, que assina a direção ao lado de Gustavo Bonafé (da vindoura adaptação dos quadrinhos nacionais O Doutrinador), é sobre isso: amor fraterno, como duas pessoas podem se incentivar, se ajudar e, juntas, alcançarem seus sonhos.

Skunk não pôde desfrutar de todo o sucesso do Planet Hemp: faleceu jovem, vítima do vírus HIV. Marcelo manteve o legado do amigo e, juntos aos demais colegas de grupo, transformou o Planet Hemp num dos principais ícones musicais do Brasil nos anos 90. Venderam centenas de milhares de discos, pediram a legalização da maconha, chegaram a ser presos.

Mas Legalize Já pouco fala ou mostra algo em relação à Cannabis Sativa. É muito mais uma trama sobre tudo escrito acima e também sobre os bastidores da música: a maneira, à época, de quem não tinha grana e tentava ouvir os artistas preferidos em fitas demos, e fazendo uso delas para divulgar o trabalho; mais as tentativas de emplacar nas rádios, então principais vitrines para quem buscava o sucesso na área, enfrentar as decepções frente ao jabá, etc.

Há um jeitão de filme indie, deixando a câmera próxima aos personagens. Talvez a maneira de homenagear os artistas independentes, que enfrentam todos os obstáculos para alcançarem alguma luz ao sol.

Entre batidas policiais, discussões familiares, alegrias e decepções, sobra espaço para humor certeiro, especialmente a cena impagável da primeira vez da dupla em cima do palco, numa igreja.

O elenco se entrega de corpo e alma: desde os protagonistas aos coadjuvantes. Ícaro Silva está gigante e Góes não fica atrás. O argentino Ernesto Alterio faz o dono do boteco serva de figura paterna para Skunk. Atuação intensa.

Nem é preciso repetir a importância de vermos, nas telonas, obras biográficas de grandes nomes da nossa cultura. Resta torcer para que o nosso cinema não pereça nos próximos anos dependendo das atitudes do próximo presidente.

Se o Planet Hemp rompeu padrões, colocou os dedos nas feridas da sociedade, da hipocrisia, Legalize Já dá o recado de forma honesta, sincera, até um tanto tímida. Mas é aquele tipo de timidez que esconde tamanha força e traz esperança em tempos difíceis.

Legalize Já – Amizade Nunca Morre
2017. Brasil.
Direção: Johnny Araújo, Gustavo Bonafé.
Com Ícaro Silva, Renato Góes, Ernesto Alterio, Marina Provenzzano, Stepan Nercessian, Rafaela Mandelli.
90 minutos.


 

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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