Crítica | Venom (2018)

Certos filmes nascem sob a dúvida do espectador. Soam meros caça-níqueis. Existem por que os produtores querem extrair até o último centavo de certas franquias. Alguns exemplos: as séries Gotham – que chegou a parecer promissora – e Krypton, respectivamente seriados sobre os universos de Batman e Superman. Mas sem as presenças do Cavaleiro das Trevas e do Homem de Aço. E deste Venom, o primeiro longa-metragem da Sony derivado do Homem-Aranha.

Vale sempre reforçar: hoje o Cabeça de Teia integra o universo cinematográfico do Marvel Studios, numa parceria desta empresa com a Sony, que adquiriu os direitos do personagem anos atrás e realizou a trilogia estrelada por Tobey Maguire e dois filmes com Andrew Garfield no papel.

O Escalador de Paredes é dos super-heróis mais populares vindos das histórias em quadrinhos. Possui universo rico, repleto de coadjuvantes, vilões. Avi Arad e Amy Pascal, produtores da Sony, sabem da fonte e desejam extrair o máximo dela. Só que os fãs não são bobos. São bem informados e cada vez mais exigentes. Também guardam lá dentro um otimismo juvenil. Me incluo nessa galera. E fui assim ver Venom: com quase os dois pés atrás, porém torcendo, lá no fundo, para que ainda assim pudesse conferir uma boa trama.

Afinal, o diretor Ruben Fleischer fez o divertido Zumbilândia (2009) e os atores são conhecidos pelas participações em projetos interessantes: Tom Hardy mergulha tanto nos personagens que não o vemos no Bane de Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012) ou o Max de Mad Max: Estrada Fúria (2015); Michelle Williams sempre é indicada aos principais prêmios; Riz Ahmed chamou atenção em papéis menores nos filmes Rogue One: Uma História Star Wars (2016) e O Abutre (2014). São talentosos, de carreiras respeitáveis.

Então fica a pergunta: o que cargas d’água eles estão fazendo em Venom?! A impressão é que o roteiro inicial pode ter chamado a atenção de todos. No entanto, pelo meio do caminho algo deu muito errado. Talvez os produtores tenham se intrometido demais. O resultado é o que importa. Deixa muito a desejar.

Após acessar um documento sigiloso enviado à sua namorada, a advogada Anne Weying (Williams), o jornalista investigativo Eddie Brock (Hardy) confronta o criador da Fundação Vida, Carlton Drake (Ahmed). A corporação realiza missões espaciais de forma a encontrar possíveis usos medicinais para a humanidade. Na teoria, algo bonito, bem intencionado. Só que a empresa faz uso de humanos, que viram hospedeiros de simbiontes alienígenas. Eddie acabará tornando-se Venom a partir dessa junção e precisará conter a empresa, bem como tentar salvar a própria vida.

A história até poderia render reflexão interessante sobre até que ponto a ciência e o jornalismo podem ir para alcançar resultados. Nada é aprofundado. Ok, trata-se de um filme que visa o entretenimento. Nem isso funciona. Poucas piadas nos fazem rir. Hardy vez ou outra lembra o ator que aprendemos a admirar. Só que na maior parte do tempo soa forçado. Michelle Williams está insossa, longe de outras interpretações. As cenas de ação não são lá essas coisas. Venom e os demais monstros lembram criaturas de obras trash. Se a intenção fosse parodiar filmes de super-heróis, de terror, etc, daria até para relevar. Não foi dessa vez. Que venha Homem-Aranha no Aranhaverso, animação da Sony que deverá ser um filme de personalidade própria. Dica: assista às duas cenas pós-créditos. A primeira é descartável. A segunda empolga.

Venom
EUA. 2018. 
Direção: Ruben Fleischer. 
Com Tom Hardy, Michelle Williams, Riz Ahmed, Jenny Slate. 
112 minutos. 


 

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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