Crítica | 10 Segundos Para Vencer (2018)

Curiosamente 10 Segundos Para Vencer chegou aos cinemas brasileiros um dia após o mais recente trailer de Creed 2 ganhar a internet. É para refletirmos: muito provavelmente vários e vários brasileiros conheçam Rocky Balboa, mas não saibam quem é o pugilista brasileiro bicampeão mundial de boxe, considerado por especialistas do mundo inteiro um dos dez melhores deste esporte.

Algo triste. Que diz muito da nossa cultura. E que nosso cinema, aos poucos, tenta ajudar a transformar. Afinal, cinebiografias de grandes nomes das artes, dos esportes, da política dos EUA, da Inglaterra, para ficar nesses dois países, costumam estrear em várias salas do circuito comercial daqui. Por outro lado, filmes que retratam personagens importantes da história do Brasil nem sempre conseguem passar da primeira semana em cartaz, isso quando conseguem superar o circuito de festivais e entrar em exibição.

José Alvarenga Jr., de extensa carreira televisiva e, nas telonas, acostumado às comédias (de vários filmes dos Trapalhões à franquia Os Normais, Divã, Cilada.com, etc), vai bem em seu primeiro drama, a partir do roteiro assinado por Thomas Stavros e Patrícia Andrade e do qual o próprio diretor e José Guertzenstein colaboraram.

Começa com Éder Jofre (Daniel de Oliveira) no vestiário, preparando-se para a disputa do título mundial do Conselho Mundial de Boxe, em 1973, contra o cubano José Legra. Vem um longo flashback e acompanhamos a trajetória do tio, Silvano (Ricardo Gelli), lutador talentoso porém descontrolado e que poderia ter construído carreira respeitável. Passamos pela infância do “Galinho de Ouro”, a relação intensa com o pai Kid Jofre (Osmar Prado), o amor da mãe Angelina (Sandra Corveloni), a doença do irmão Doga (Ravel Andrade), o namoro e o casamento com Cida (Keli Freitas), a ascensão no boxe.

O elenco é acima da média. Daniel de Oliveira, que encarnou Cazuza em 2004, volta a se entregar de corpo e alma a uma figura marcante. Lembrei de quando escrevi sobre a atuação de Andreia Horte em Elis. Fosse norte-americano interpretando um ícone de lá, seria indicado às principais premiações do cinema. O veterano Osmar Prado, vencedor do Kikito de melhor ator em Gramado, é poderoso, por vezes um tanto exagerado, no entanto admirável. Ricardo Gelli, eleito melhor ator coadjuvante no evento da Serra Gaúcha, tem algumas das cenas mais impactantes.

Difícil não comparar 10 Segundos Para Vencer a outros filmes sobre boxe ou lutas em geral. A própria saga Rocky Balboa vem à mente. Só que não há oponentes como Apollo, Clubber Lang ou Ivan Drago são para Rocky. Podemos lembrar do “Touro Indomável” Jake LaMotta. Até por tratar-se também de uma história baseada em fatos. Só que o pugilista filmado por Martin Scorsese é o seu próprio algoz. Os rivais de Éder Jofre, no filme, são os percalços da vida, as relações familiares, o câncer de Doga. São obstáculos do cotidiano. Essa opção o torna mais palpável, real. Por outro lado pode deixar a impressão de que falta ação, emoção, um momento de catarse (poderiam ter recriado a luta pelo primeiro título mundial ao invés das imagens de arquivo, que poderiam ser usadas durante os créditos).

O santista Afonso Poyart, por exemplo, escolheu outro caminho para retratar o lutador do UFC José Aldo em Mais Forte que o Mundo (2016), repleto de ação, movimento. São caminhos diferentes e igualmente, na maior parte, bem executados, realizados, dignos e relevantes ao retratarem sujeitos que, diante de todas as dificuldades, chegaram lá.

Brasileiros que conseguem destaque nacional nas artes, nos esportes, são verdadeiros heróis. Alcançar reconhecimento internacional então… Cinebiografias assim apontam que o nosso cinema tem se diversificado. Que venham filmes sobre Maria Esther Bueno, Adhemar Ferreira da Silva, Ayrton Senna, Gustavo Kuerten.

10 Segundos Para Vencer
2018. Brasil.
Direção: José Alvarenga Jr.
Com Daniel de Oliveira, Osmar Prado, Ricardo Gelli, Sandra Corveloni, Ravel Andrade, Keli Freitas.
120 minutos.


 

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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