Entrevista | Luciana Bollina inspira garotas a partir do audiovisual

Luciana Bollina (Foto: Daniel Spalato).
Luciana Bollina (Foto: Daniel Spalato).

Atriz, cantora e bailarina profissional desde 2004, a sorocabana Luciana Bollina possui currículo extenso e variado: nos palcos e em diferentes plataformas de audiovisual. Teve contato com a dança ainda cedo. Brilhou em montagens nacionais para clássicos da Broadway como Chicago, Sweet Charity e Hair. E nos musicais brasileiros Ary Barroso – do princípio ao fim, de Diogo Vilela (2013), Tom e Vinícius – o musical, dirigido por Daniel Herz (2008), Pernas Pro Ar, com Cláudia Raia (2010), As Aventuras do Menino Iogue (sete prêmios CEBTIJ 2016), com texto de Antonio Tigre e direção de Arlindo Lopes e Juliana Terra (2015 a 2017), e Garota de Ipanema – O amor é Bossa, dirigido por Gustavo Gasparani.

Trabalhou em séries e novelas para a televisão, mas tem se destacado interpretando Mel Béart em Red, a primeira websérie de temática lésbica do país disponível gratuitamente no Vimeo. O seriado tem servido de espelho para milhares de garotas que sentem-se deslocadas no mundo e não encontram, na tevê aberta principalmente, representatividade.

Atualmente na quarta temporada, lançada em Las Vegas, na Clexacon (A Media & Entertainment Convention for LGBTQ Women and Allies), o projeto tem mais de um milhão de views e arrebatou o prêmio de Melhor Websérie do New York WebFest 2017, e outros quatro no Rio Webfest do mesmo ano. Na trama acompanhamos Mel e Liz Malmo (Ana Paula Lima), duas atrizes que se conhecem durante a filmagem de um curta-metragem e acabam por levar para a vida real o envolvimento amoroso que vivem na ficção.

Red.
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Luciana trilhou um caminho natural para muitos artistas: da frente das câmeras para atrás delas. Dirigiu no teatro, videoclipes, curtas e agora prepara uma nova obra para tocar corações e mentes: o docu-reality Sou Clarice, em parceria com a produtora Orvalho Filmes, de Santos, baseado em seu próprio livro, Clarices. “Sou Clarice virou um docu-reality para mulheres adolescentes e mostra o processo de autoconhecimento delas durante uma imersão de 10 dias tendo aulas de corpo, voz, artes plásticas e estudo do romance Clarices para inspirar conversas e trocas. Usei meu livro como ferramenta para guiar a construção do roteiro e o projeto se tornou um estímulo para que as adolescentes priorizem seu autoconhecimento, pois é daí que surge tudo! Como uma mandala! Nossa realidade é criada a partir do nosso centro. Nossa intenção é fazer essa obra chegar ao máximo de meninas possível porque sinto que é um momento onde precisamos falar disso”, detalha a artista.

Na conversa a seguir, Luciana fala sobre sua trajetória profissional, representatividade na televisão brasileira, Red e Sou Clarice.

Como surgiu a websérie Red? Como foi o processo de produção? – Fale da concepção de sua personagem, Mel.
A websérie foi idealizada por Germana Belo e Vivian Shriler. Surgiu pela vontade delas de falar do amor entre duas mulheres, ainda muito pouco representado na TV brasileira. Fomos a primeira websérie lésbica brasileira. Depois disso, surgiram várias e somos muito felizes por isso! Nossa produção é pequena, com poucas pessoas e é bem centralizada na figura do diretor Fernando Belo (dirige, filma, faz a luz, edita, escolhe as músicas da trilha e produz) e da Germana Belo, roteirista, produtora e responsável por todas as mídias sociais da série. Sinceramente eu não sei como eles conseguem! (risos) Eu e a Ana cuidamos do nosso visagismo, além de interpretar as cenas. As duas primeiras temporadas filmamos com a minha câmera. A Mel chegou pra mim já muito bem desenhada. Eu só me deixei tocar pelo jeito que ela colocava as falas, os pensamentos e ela foi surgindo dentro de mim. A Mel carrega uma angústia muito profunda, mas vê na Liz algo mais forte que tudo, capaz de transformar.

O primeiro beijo entre duas mulheres em TV aberta no Brasil só ocorreu em 2011, na novela Amor e Revolução do SBT, dado entre as personagens interpretadas por Luciana Vendramini e Giselle Tigre. De lá para cá poucas vezes foram mostrados beijos entre pessoas do mesmo gênero e, nessas poucas vezes, a polêmica foi imensa. Por que você acha que no Brasil tantas pessoas se dizem chocadas quando assistem a um beijo gay, mas não ficam chocadas com as cenas de violência, desonestidade, crime, etc, que diariamente pontuam o horário nobre das novelas?
Boa pergunta! Somos completamente viciados em violência e sofrimento tanto nas nossas vidas como sentimos um prazer (muitas vezes inconsciente) ao vermos isso na TV. É só observar quais séries fazem sucesso, quais novelas têm mais audiência… é um hábito social que as mídias fazem questão de sustentar porque dá lucro! Isso é triste e tem que mudar! As pessoas que já se ligaram nisso têm que parar de consumir esse tipo de produto que só faz o vício no sofrimento ser validado. Mas falando do pudor da família brasileira, na minha opinião é uma fachada para não entrar em contato com desejos reprimidos. Algo te incomoda porque você não resolveu dentro de você. Mas o autoconhecimento e auto responsabilidade nesse lugar ainda é muito ausente e as pessoas morrem de medo do diferente, assim como morrem de medo de ter que mudar, mesmo que seja para melhor.

Luciana Bollina em RED (1)

Red chegou a ser oferecida aos canais abertos? Se fosse exibida em rede aberta, acha que teria mais impacto ou a mídia onde é exibida é indiferente no fim das contas?
O projeto foi pensado para a internet. A ideia era termos mais liberdade para expormos a nossa história sem censura. Com certeza, se tivéssemos RED num outro formato para um canal aberto teríamos ainda mais alcance, mas mesmo nosso canal sendo o Vimeo (e não Youtube) ainda temos muito alcance porque está disponível a qualquer momento na internet. Então as meninas acabam chegando até a série porque uma indica pra outra. Além de termos fãs no mundo inteiro justamente por estarmos na internet.

O Brasil tem grandes cineastas mulheres, mas o segmento audiovisual ainda é machista e majoritariamente dominado por homens. Qual sua visão deste contexto? Percebe alguma melhora nos últimos anos? E o que fazer para que exista mais igualdade de oportunidades neste e demais setores da sociedade?
O segmento audiovisual e praticamente todos os segmentos são machistas, mesmo quando existem mais mulheres do que homens. As mulheres também são machistas, a sociedade toda é machista porque é algo cultural e dominante há muitos séculos. Mas eu realmente sinto que a cura desse desequilíbrio é a conscientização das mulheres. Quando começamos a perceber nossa própria misoginia, começamos a reconhecer os abusos, começamos a perceber a nossa competitividade entre mulheres e o quanto sustentamos também essa cultura através de omissões e de machismos no casamento, na criação dos filhos, no trabalho e em toda a parte. E aí começamos a perceber a força da nossa união. Quando começamos a perceber que nos acostumamos com a desigualdade e que estávamos sendo excluídas e violentadas, as coisas começaram a mudar. Mas foi preciso que todos nós evoluíssemos até aqui. Só agora o lixo está bem no meio da sala, não cabe mais sujeira debaixo do tapete e é hora de limpar tudo. É chegado o momento das mulheres falarem e os homens ouvirem. Mesmo que esse discurso seja, no primeiro momento, cheio de ódio porque carregamos um trauma ancestral de abusos. Essas cicatrizes precisam se expressar. Muitas mulheres nem sabiam que podiam falar sobre o que sofreram. Essa repressão precisa ser vista. E o grito faz parte desse processo. Mas sinto que esse é só o começo. Ser mulher é deixar o feminino livre e potente para agir de forma diferente. Chegou a hora de priorizarmos o afeto, a união, a sensibilidade, as amizades, a colaboração, valores que são inerentes à energia feminina. Só assim as mudanças serão possíveis! Mulher forte é mulher com empatia, inteligência emocional, equilíbrio, pensamento transgressor e intuição aflorada. Mulher que quer se conhecer e que se assume vulnerável. Não podemos achar que agora é a nossa vez de sermos os “homens da relação”. Agora é nossa vez de fazer do nosso jeito! O mundo grita pela energia feminina! E unidas somos MUITO potentes!

No Oscar desse ano movimentos como #MeToo têm se destacado. Acha que haverá realmente uma transformação na indústria?
Eu acredito que a evolução é contínua e ascendente, mesmo que não pareça. Não tem mais volta. As mulheres estão despertando porque precisamos que o mundo vibre mais na energia feminina, se não, vamos todos morrer. O jeito que construímos a sociedade não é sustentável. Os homens morrem de medo do poder da união das mulheres porque a energia masculina distorcida compete e intimida porque quer sobreviver. Mas unidas, trazemos à tona sentimentos e mistérios que eles não dominam. Temos que desarticular isso. Precisamos viver em harmonia e não lutar para sobreviver. Não é só uma questão de homens e mulheres e posições sociais, mas também uma mudança no jeito de ver as coisas. O que está acontecendo agora é uma divisão: Os que querem um novo mundo e os que são apegados demais para querer mudar. Precisamos deixar nossa natureza feminina ser positivamente orientada para o bem de todos. O bem de todos é o nosso próprio bem. Somos todos reflexos uns dos outros. Depois que você acorda, o sonho parece absurdo. É isso que está acontecendo. Estamos acordando!

Fale um pouco sobre sua trajetória. Como surgiu seu interesse pelas artes? E qual foi seu caminho até tornar-se diretora?
Eu danço desde pequenininha. Desde sempre amo os palcos! Também amava desenhar e a criatividade sempre foi muito presente em tudo que fazia. Então, quando eu lembro da minha infância, a arte aparece muito viva. Eu comecei trabalhando como bailarina aos 17 anos e depois entrei no mundo dos musicais. Fiz alguns gringos e nacionais. Cantei muito e o bichinho do teatro me mordeu. Me considero sempre em primeiro lugar atriz, porque eu nunca fiz nada tão estimulante na minha vida. A busca da verdade, mesmo sendo mentira, é algo que me fascina e me faz sentir viva! Meus personagens são pedaços meus. E é sempre um lugar de vulnerabilidade maravilhoso, que liberta! Fiz televisão e teatro. Ainda não estreei num filme como atriz, mas tenho muita vontade. Comecei dirigindo um curta (chamado Esconde-Esconde) sobre a mortalidade do jovem negro junto com meu parceiro querido Luiz Felipe Mendes e depois um clipe (Teia) de uma amiga cantora que eu amo, Alana Moraes – os dois filmes estão disponíveis no Youtube. Tem mais outros dois clipes no forno! Um da Josi Araújo e outro do cantor Will Caminada que gravamos em Los Angeles. Eu mesma que filmei todos esses e percebi que eu levo jeito pra coisa. Gosto da possibilidade de mostrar um olhar sobre uma história. Sou idealizadora de muitos projetos, amo criar e pensar no todo das obras e ser diretora de audiovisual é estar a par de tudo! Eu amo isso! Também dirigi uma peça que eu mesma escrevi, Não Nem Eu e também o show dos Não Recomendados no Teatro Ipanema. Estou gostando cada vez mais de assumir esse lugar e ter a oportunidade de despertar mais essa sensibilidade.

Luciana Bollina em RED 2
Você tem experiência nos palcos, atrás e à frente das câmeras. Tem alguma preferência? Como sua experiência de atriz pode contribuir para o trabalho de direção?
Eu amo estar na frente e atrás das câmeras. Não tenho preferência… depende do momento da vida. Ser atriz não só contribui como define o meu jeito de trabalhar. Eu me coloco no lugar do ator, sei as técnicas e os estímulos para tirar dele o que preciso. Isso é uma bênção! Eu sei o quanto é difícil interpretar e as barreiras que aparecem e impedem a fluidez do trabalho. E mesmo para filmar clipes, onde trabalho com cantores, uso da minha experiência e das técnicas que me ajudam a ficar mais à vontade em cena.

Como surgiu a ideia de Sou Clarice? O que pretende alcançar com o filme?
Eu fui convidada pela Chris da Orvalho Filmes para fazer uma obra audiovisual inspirada no meu livro Clarices. Fiquei radiante! A única coisa é que eu estava com uma viagem de quatro meses marcada para a Índia e depois Estados Unidos. A criação dessa obra aconteceu na Índia, onde eu estava praticando meditação e yoga e me conhecendo ainda mais profundamente através de práticas e estudos espirituais. Meu guru estava em Rishkesh e parei a minha vida para mergulhar pra dentro! O que aconteceu? Sou Clarice virou um docu-reality para mulheres adolescentes e mostra o processo de autoconhecimento delas durante uma imersão de 10 dias tendo aulas de corpo, voz, artes plásticas e estudo do romance Clarices para inspirar conversas e trocas. Usei meu livro como ferramenta para guiar a construção do roteiro e o projeto se tornou um estímulo para que as adolescentes priorizem seu autoconhecimento, pois é daí que surge tudo! Como uma mandala! Nossa realidade é criada a partir do nosso centro. Nossa intenção é fazer essa obra chegar ao máximo de meninas possível porque sinto que é um momento onde precisamos falar disso.

O que diria para garotas que pretendem estudar cinema, atuação, etc? Daria algum conselho?
Eu diria: Você acaba de entrar numa montanha-russa! Aceite a instabilidade emocional e financeira. Aceite a realidade autônoma da profissão, mas essa é a melhor escola de vida que eu já conheci. Existirão dias maravilhosos e dias não tão bons assim. Mas se é o que você sonha, se é o que você ama, não desista!  Estude, divirta-se e faça seu sonho acontecer. Não fique esperando o telefone tocar. Faça seus projetos acontecerem. Tenha confiança e perseverança. Ninguém pode dizer quem você é. Procure se estudar, se conhecer e saiba que seu talento é um presente que precisa se manifestar. Aprenda com os professores e tenha muita humildade para aceitar os desafios. Nunca é tarde demais. Não se cobre tanto e nem se coloque pra baixo. Ser artista é amar brincar acima de tudo. Seja leve.

Fique à vontade para deixar um recado aos leitores do site.
Agradeço essa ótima entrevista e espero que o Sou Clarice fique pronto logo pra podermos falar sobre. Adorei!!


 

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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