Entrevista | Milena Manfredini, diretora de Eu Preciso Destas Palavras Escrita

enxergando em foco
A Agência Nacional de Cinema – ANCINE elaborou o levantamento Diversidade de gênero e raça nos lançamentos brasileiros. Os dados levam em conta os 142 longas-metragens brasileiros lançados em circuito durante 2016 – ainda não foi divulgado o balanço do ano passado. A pesquisa apresenta um quadro bastante distante de todo o debate sobre diversidade e representatividade contemporâneo: homens brancos dirigiram 75,4% dos longas; as mulheres brancas, 19,7%; e somente 2,1% foram dirigidos por homens negros. “Onde fica a mulher negra nisso tudo? Em nada. Nenhum filme em 2016 foi dirigido ou roteirizado por mulheres negras”, ressalta a cineasta carioca Milena Manfredini.

Entrevista | Ator Luciano Quirino fala sobre carreira e próximos projetos

Movimentos como o #OscarSoWhite, sobre representatividade racial em Hollywood, e o #MeToo, sobre o assédio na indústria cinematográfica, levam a reflexão à grande mídia. No Brasil, porém, muitos passos precisam ser dados. Talvez uma maior implementação de escolas e oficinas culturais em áreas vulneráveis e que democratizem o acesso da população ao ofício artístico. A própria Milena teve seu interesse pelo cinema intensificado após cursar a Escola Livre de Cinema de Nova Iguaçu, “um projeto potente que existia na periferia do Rio de Janeiro e que definitivamente transformou o meu olhar”, afirma a cineasta. Vale lembrar que Cinema faz parte do currículo escolar na Argentina e na França, países de culturas cinematográficas fortes.

Na conversa a seguir abordamos esse panorama. A diretora de 26 anos vem se destacando nos festivais com  Eu Preciso Destas Palavras Escritas. O curta-metragem, que ela dirigiu e escreveu ao lado de Raquel Fernandes, acompanha de maneira poética a trajetória de Arthur Bispo do Rosário.

Milena e o ator Luciano Quirino.
Milena e o ator Luciano Quirino.

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O Bispo do Rosário tornou-se um dos artistas brasileiros mais reconhecidos internacionalmente. A sua história é envolta de momentos marcantes. Em 22 de dezembro de 1938, após longa peregrinação, chegou ao Mosteiro de São Bento, onde anunciou a um grupo de monges que era um enviado de Deus, encarregado de julgar os vivos e os mortos. “Era um homem negro, de origem nordestina, pobre e que a partir de um delírio místico passa a produzir suas obras para se comunicar com o divino. Isso é de uma potência absurda! Em seu primeiro surto, Bispo se dirige ao Mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro e afirma ser filho de Deus, o enviado, o filho do homem mestre. Pra mim tem uma ressonância muito grande um homem negro dizer isso, sabe? Para além de diagnósticos isso é de uma potência! E acredito que cada um de nós, à sua maneira, produz no seu cotidiano, maneiras de se comunicar com o divino. O Bispo foi por intermédio da produção dessas obras e eu realizo o mesmo movimento, mas por intermédio do cinema”, ressalta a diretora.

O protagonista é interpretado por Luciano Quirino (Detetives do Prédio Azul, Carcereiros), santista de nascimento e residente no Rio de Janeiro. Nos quase vinte minutos do filme acompanhamos a narração em off do ator, enquanto seu personagem traça a jornada pelos momentos marcantes de sua vida até a conclusão sob o som de Lamento Sertanejo, música de Dominguinhos na belíssima versão de Gilberto Gil.

Eu Preciso Destas Palavras Escrita, sem o S na última palavra do título, pois é inspirado numa das obras do Bispo denominada dessa forma, será exibido no próximo Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo e abrirá o 3º Santos Film Fest – Festival Internacional de Filmes de Santos, que terá a presença de Luciano Quirino. Para saber mais sobre a carreira do filme, acesse https://www.facebook.com/curtabispodorosario/.

Estreia no Cine Odeon, no Rio.
Estreia no Cine Odeon, no Rio.

Conte um pouco de sua trajetória, como surgiu seu interesse pelo audiovisual?
O cinema sempre orbitou meu universo tangencialmente por conta da minha vó, dona Delminda, uma mulher negra, baiana, de origem humilde, mas sempre muito sensível ao cinema. Cresci ouvindo as memórias dos filmes que ela assistiu na juventude, quando chegou ao Rio de Janeiro. O acesso ao cinema sempre foi caro, mas ela, quando podia, se apertava para ver os filmes nacionais nos dias de folga. Toda essa relação dela foi muito antes d’eu nascer.

E quando nasci, nos ligamos por intermédio da fala, da narração. Gosto de pensar que minha vó, durante a minha infância, exerceu esse lugar do narrador do Walter Benjamim. Essa figura que promove o intercâmbio de experiências, que viveu muito e além de tem o que contar, sabe como contar. Eu sempre gostei de ouvir histórias, e acredito que esse dom eu tenha adquirido por conviver com ela. E a escuta está muito presente no meu trabalho e na escolha da minha profissão, pois trafego em duas confluências marítimas: o cinema e a antropologia.

O cinema se intensificou como desejo de elaboração no final da minha adolescência, quando entrei na Escola Livre de Cinema de Nova Iguaçu, um projeto potente que existia na periferia do Rio de Janeiro e que definitivamente transformou o meu olhar. Nas aulas, enquanto ouvia os fundamentos e as teorias do cinema, entendi que era por intermédio dele que eu gostaria de me comunicar com o mundo. E desde então eu e o cinema não nos separamos.

Fale da concepção do filme Eu Preciso Destas Palavras Escrita. Por que a opção por retratar o Bispo do Rosário? Você considera que ainda existem pessoas com uma visão deturpada sobre ele?
O Bispo do Rosário surgiu na minha vida quando fui estudar artes na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Durante o período em que lá estive entrei em contato com inúmeros nomes da arte contemporânea. Foi outro divisor de águas na minha vida, assim como a Escola Livre de Cinema de Nova Iguaçu. Numa das aulas de História da Arte me foi apresentada as obras do Bispo e lembro-me como se fosse hoje, foi impactante, pois olhava para aquela imensidão e me via ali de uma alguma forma. De tantos nomes que eu ouvia falar ele foi o primeiro artista negro que me chegou nas aulas. Bispo tinha uma história muito particular. Era um homem negro, de origem nordestina, pobre e que a partir de um delírio místico passa a produzir suas obras para se comunicar com o divino. Isso é de uma potência absurda! Em seu primeiro surto, Bispo se dirige ao Mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro e afirma ser filho de Deus, o enviado, o filho do homem mestre. Pra mim tem uma ressonância muito grande um homem negro dizer isso, sabe? Para além de diagnósticos isso é de uma potência! E acredito que cada um de nós, à sua maneira, produz no seu cotidiano, maneiras de se comunicar com o divino. O Bispo foi por intermédio da produção dessas obras e eu realizo o mesmo movimento, mas por intermédio do cinema.

Fui maturando ao longo dos anos o desejo de fazer um trabalho tendo o Bispo como artista homenageado, mas sempre sentia que não estava pronta. Até que um dia apresentei o projeto pro Cavi Borges, amigo e produtor, que desde o início acreditou na proposta e topou entrar nessa empreitada comigo. Escrevi o projeto para o edital da Rio Filmes e fomos contemplados para concretizarmos esse grande sonho. Nesse período, trabalhava como produtora no Museu Bispo do Rosário e com toda a certeza essa experiência acrescentou e muito no processo de pesquisa e investigação dos percursos do Bispo, enquanto artista, pois nós respirávamos a obra do Bispo.

Luciano, Milena e Joana Collier, montadora do filme.
Luciano, Milena e Joana Collier, montadora do filme.

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Como tem sido a trajetória do filme? Está em festivais? Depois dessa ele poderá ser visto em alguma plataforma?
O filme estreou em setembro do ano passado e desde então tem feito a carreira de festivais. Já circulou em muitos estados brasileiras. Em março desse ano ele foi exibido em Portugal e em agosto retornará para outras exibições lá. Em agosto ele será exibido no 29ª Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo, além de outros festivais.

Comente um pouco o trabalho com o ator Luciano Quirino.
O Quirino é um ator e parceiro muito especial. Sempre admirei o trabalho dele no cinema e no teatro. Ele sempre orbitou a minha vida, pois minha vó admira muito o trabalho dele. Durante o processo de construção do roteiro, era muito importante escrever os diálogos tendo em mente o ator que falaria aqueles diálogos. Precisava ter a medida das palavras, o respiro, a textura da voz e durante o período de escrita, comecei a ver o Quirino dizendo tudo aquilo. Fui sentindo que aquelas palavras cabiam nele, sabe? E lembro como se fosse hoje quando fiz o primeiro contato com ele. Apresentei o projeto, o roteiro e ele foi muito sensível e receptivo. Marcamos a primeira conversa e desde então eu entendi que o Quirino era o nosso Bispo do Rosário. O Quirino é um ator muito comprometido e extremamente delicado. Ele desde o início topou mergulhar em alto mar. Quirino é um ator de profundeza e entrega. Aprendemos muito juntos. Foi uma parceria e tanto!

O Oscar teve dois anos de debate do #OscarSoWhite, sobre representatividade racial nas indicações, e este ano o #MeToo, contra o assédio. Qual sua visão sobre esses movimentos? Acredita que tenham contribuído de maneira determinante para mudanças de comportamento
Acredito que todo movimento que busque questionar e discutir as especificidades de gênero e raça no cinema é necessário. Pensando o mercado cinematográfico brasileiro, no qual de alguma maneira tenho mais proximidade, por mais que não faça parte da “indústria”, ela ainda é protagonizada majoritariamente por homens brancos. Recentemente a ANCINE elaborou um levantamento tendo como base os 142 longas-metragens lançados comercialmente no ano de 2016 e os dados são desoladores, pra dizer o mínimo. As análises dessa pesquisa mostraram que os homens brancos dirigem 75,4% dos longas. As mulheres brancas 19,7%, e somente 2,1% foram dirigidos por homens negros. Onde fica a mulher negra nisso tudo? Em nada. Nenhum filme em 2016 foi dirigido ou roteirizado por mulheres negras.

Esses dados fazem parte do levantamento “Diversidade de gênero e raça nos lançamentos brasileiros”. Os dados referentes ao ano de 2017 ainda não foram divulgados pela ANCINE, mas infelizmente já dimensiono o resultado. Precisamos mais do que nunca debater, denunciar e tencionar essa discussão. Por essa razão, penso que movimentos amplos como #OscarSoWhite nos ajudam, de alguma forma, a ampliar essa discussão. Precisamos reconhecer as distâncias desses grupos (homens brancos, mulheres brancas, homens negros e mulheres negras) e romper com a invisibilidade das mulheres negras no cinema e aqui friso o cinema nacional, pois temos muito caminho pela frente ainda. Acredito que mudanças reais se dão no âmbito das políticas públicas e precisamos encarar essa pauta de maneira séria.

Grande parte da produção de filmes no Brasil fica restrita aos festivais. Depois, muitos filmes não conseguem espaço no circuito de distribuição e vão direto para outras plataformas, streaming, Youtube, TV a cabo, etc. Qual sua visão sobre esse contexto?
Precisamos criar estratégias outras de democratização e circulação dos filmes. Nesse sentido, acredito na importância de exibições paralelas como o circuito de exibição em cineclubes, praças públicas, universidades, escolas, mostras independentes, dentre outras iniciativas. Pois dessa forma, é possível estabelecermos um contato mais direto com o público.

Fale um pouco sobre seus próximos projetos.
Atualmente finalizo um novo filme, chamado Camelôs, que é uma homenagem aos camelôs da cidade do Rio de Janeiro. É um projeto que tem muito de mim, da minha memória afetiva, da minha relação com a cidade. Como disse no início, eu sou da periferia do Rio de Janeiro e durante toda a minha vida eu atravessei a cidade de todas as maneiras: ônibus, trem, inúmeras integrações, metrô e em cada uma delas passava horas a fio observando a relação dos trabalhadores nesses espaços e um dos personagens que sempre me fascinou eram os camelôs. Sempre inovadores, performáticos, inventivos e extremamente políticos. Os vejo dessa maneira, pois dentro de uma lógica de cidade que sempre tentou exterminá-los com inúmeras políticas de “modernização” e higienização eles persistiram a tudo isso, de alguma forma, é um ato de resistência e muitos deles me confidenciavam isso no processo de pesquisa do filme.

Fique à vontade para deixar um recado aos leitores do site.
Bom, o filme Camelôs vai estrear no Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul em setembro desse ano e se a galera tiver curiosidade pra conferir o novo projeto, ele vai entrar no circuito de festivais e o nosso desejo é circular bastante com esse projeto pensando, inclusive, em propostas outras de circulação para além dos festivais de cinema. Estamos desenvolvendo iniciativas bem bacanas para a distribuição do filme nas cidades. Novidades virão aí!


 

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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