Crítica | The Handmaid’s Tale | 2ª Temporada (2018)

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Premiada várias vezes no Emmy, o Oscar da TV, no Globo de Ouro, entre outras láureas recebidas, The Handmaid’s Tale, ou O Conto de Aia, revelou-se uma das melhores séries dos últimos anos, de todos os tempos: pungente, contundente, infelizmente de acordo com o momento da humanidade e tendências intolerantes mundo afora.

Feita para o serviço de streaming Hulu – que ainda não chegou ao Brasil – mas visualmente cinematográfica e repleta de atuações magníficas. Elisabeth Moss dá vida à protagonista June/Offred e merecia todos os prêmios do universo.

Baseado no romance homônimo de 1985 escrito por Margaret Atwood e que rendeu um filme em 1990, o seriado escrito e produzido por Bruce Miller (Alphas, Eureka, Os 100) ficou melhor na segunda temporada.

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Os EUA foram tomados por religiosos radicais. Somos apresentados ao futuro distópico onde a fertilidade diminuiu drasticamente. Algo mais ou menos como seria visto no excepcional Filhos da Esperança (2006), de Alfonso Cuarón. O temor em desaparecer do mapa faz a humanidade entrar em colapso. Quando o caos é instalado, o desespero faz seres humanos agarrarem-se naquilo que acham ser a salvação.

Na ficção, parte da população aceita o governo totalitário de radicais religiosos que transformam os EUA na totalitária Gilead, de classes sociais bem definidas. A “falta de fé” e os “pecados” teriam levado à falta de fertilidade. Mulheres que traíram seus maridos, gays e qualquer pessoa que seja considerada “profana” torna-se cidadã de segunda classe.

A vida real não está longe disso. Políticos tipo Jair Bolsonaro são enxergados, por parte da população, como a saída para por fim à corrupção. Levam ao público discursos de intolerância. Não são poucos os países nos quais mulheres, homossexuais, gente que não segue a religião vigente, são perseguidos, mortos, isolados, separados das famílias.

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Cada episódio de The Handmaid’s Tale dói na carne, desgasta o espectador psicologicamente. Só não fica sensibilizado quem pensa igual aos governantes de Gilead. June foi isolada da filha, do marido. É estuprada dezenas de vezes. Faz o possível para sobreviver, não sucumbir. Sua trajetória é a de tantas mulheres.

Mas a série vai além. Esposas dos homens que comandam o novo país humilham outras mulheres. Os chefes, homens brancos de meia idade, usam o “dividir para conquistar” presente em inúmeros momentos da história da humanidade, sempre que alguém quer dominar o próximo: nas colonizações, na escravidão, na invasão da China pelo Japão, etc, etc.

The Handmaid’s Tale, o livro, foi escrito há mais de 30 anos. Continua atual. Não é sobre o futuro. É sobre o presente. E revela o quão vivemos em círculo. Quando achamos que evoluímos, que velhos preconceitos seriam superados, volta tudo de novo e em doses cavalares.

Ok, escrevi nada sobre a trama dos episódios. Posso dizer que conhecemos mais personagens e mais do universo de Gilead e situações além de suas fronteiras. O elenco segue irrepreensível e tecnicamente a obra é de um esmero só. Apesar do desgaste psicológico descrito anteriormente, há também admiração pelos artistas envolvidos, tanto talento reunido e o desejo, tanto na ficção como na realidade, de que as coisas melhorem.

O Conto de Aia
The Handmaid’s Tale. 
EUA. 2017, 2018 – . 
Criador: Bruce Miller. 
Com Elisabeth Moss, Max Minghella, Yvonne Strahovski, Joseph Fiennes, Ann Dowd, Amanda Brugel, Madeline Brewer, Alexis Bledel.
Média de 60 minutos por episódio. 


 

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André Azenha
André Azenha

Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.