10 anos de Batman: O Cavaleiro das Trevas

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Batman: O Cavaleiro das Trevas
foi o primeiro filme baseado em HQs a ultrapassar a marca de US$ 1 bilhão – pouco antes nascia o Marvel Studios, que anos depois transformaria praticamente em rotina conseguir esse valor. A continuação de Batman Begins estreou em 14 de julho de 2008 nos EUA, e quatro dias depois no Brasil.

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À época, a sensação de ter assistido um divisor de águas na trajetória do cinema não pôde ser descrita em poucas palavras. Ficou impossível caminhar contra a maré e não entrar de cabeça no hype formado a partir de uma campanha viral ao melhor estilo de A Bruxa de Blair e Cloverfield, até um poderoso esquema de marketing que incluiu o lançamento do DVD animado O Cavaleiro de Gotham, com tramas localizadas entre o longa anterior e a obra recém lançada no cinema.

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A morte prematura de Heath Ledger (escalado para viver o Coringa), aos 28 anos, por overdose de medicamentos antes do lançamento e os primeiros trailers fizeram o burburinho se tornar uma bola de neve. E não houve decepção. As primeiras críticas da produção compararam-na com O Poderoso Chefão 2 e O Império Contra Ataca, continuações superiores aos filmes originais de suas respectivas franquias.

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“É a melhor adaptação de uma HQ para o cinema já realizada”. “Oscar póstumo para Ledger”. “Indicação de Melhor Filme no Oscar de 2009”. Essas foram algumas bolas levantadas pela imprensa especializada. O Cavaleiro das Trevas é isso tudo e mais. É um drama policial denso, tenso, com toques de tragédia principalmente no ato final, tem ótimas sacadas irônicas (principalmente vindas do mordomo Alfred, tão bem composto por Michael Caine). É a jornada e a transformação de duas figuras do lado da lei (uma “oficial”, a outra de “capa e máscara”) que precisam confrontar seus ideais perante o caos causado por um lunático. É uma obra completa, com tudo no seu devido lugar.

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Diferente de outras adaptações cinematográficas de HQs, em que os atores dão entrevistas dizendo que se divertiram ao interpretarem seus personagens, tanto em Batman Begins como em O Cavaleiro das Trevas, os artistas se dedicaram como se estivessem participando de um drama shakespereano. Vestiram a camisa e saíram, cada um à sua maneira, com atuações excepcionais.

Se no anterior a plateia pôde presenciar o encontro de Liam Neeson, Ken Watanabe, Tom Wilkinson, Rutger Hauer, entre outros, nesse pôde conferir os remanescentes Christian Bale (a melhor de todas as encarnações de carne e osso do homem-morcego), Morgan Freeman, Michael Caine, Gary Oldman e até Cillian Murphy (em rápida aparição), mais os “novatos” Maggie Gyllenhall (ocupando o posto que havia sido de Katie Holmes, como a promotora Rachel Dawes), Aaron Eckhart, Eric Roberts e Heath Ledger.

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Na trama, Batman tornou-se o medo dos bandidos da cidade. Junto com o tenente Gordon (Oldman), conseguiu finalmente levar medo aos traficantes. Sua existência faz cidadãos a passarem a se vestir como ele e tentar “fazer justiça”. No campo dos tribunais, o município passa a ter um promotor confiável, Harvey Dent (Aaron Eckhart). Em meio a tudo isso, surge o Coringa (Heath Ledger), que propõe à bandidagem a solução para que o crime volte a governar Gotham: matar Batman. Atentados passam a acontecer, juízes, policiais e civis são mortos. O pânico se instala na metrópole.

Mesclando ação, suspense, policial e drama, o público é jogado num épico de sociedade desorientada, que busca sedentamente alguém em quem confiar e possa salvá-la da desordem. O roteiro também dá uma pequena cutucada no governo americano da era Bush, quando questiona (numa cena entre Bale e Morgan Freeman), se é ético e/ou necessário estar plugado aos celulares de todos os munícipes para vigiá-los e conseguir informações. Bush utilizou meios parecidos para monitorar terroristas.

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Se a direção de Nolan – inspirada, segundo ele próprio declarou, em Fogo Contra Fogo, de Michael Mann, principalmente no duelo psicológico entre os dois rivais, como ocorreu com os personagens de Al Pacino e Robert de Niro no longa de 1995) – é espetacular (ele praticamente abriu mão de efeitos computadorizados e filmou quase tudo “de verdade”), a trilha sonora de James Newton Howard e Hans Zimmer cria os momentos perfeitos de tensão.

O elenco é a cereja de um bolo cujos ingredientes casaram-se perfeitamente. Caine e Freeman surgem carismáticos como sempre, Maggie dá uma dimensão dramática ao papel que Holmes não havia conseguido antes, e Bale e Eckhart conseguem transmitir os conflitos internos de seus personagens. O primeiro enxerga no promotor Harvey Dent uma esperança de poder deixar a cidade nas mãos de um “cavaleiro de luz” e assim, levar uma vida normal. Já o segundo mergulha numa viagem sem volta de transformação intensa, perante sentimentos como injustiça e perda. E juntos a Rachel formam um triângulo amoroso.

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E há Heath Ledger. A forma como compôs o vilão – o modo de andar, de lamber os lábios e a fala fantasmagórica, mais o visual borrado, com um “quê” de O Corvo -, faz o Coringa de Jack Nicholson, tão elogiado à época do primeiro Batman de Tim Burton, parecer brincadeira de criança. A atuação do falecido ator ganhou reconhecimento mundial, rendendo muitos prêmios póstumos a ele.

Apesar do título, o longa não é uma versão da história clássica de Frank Miller. Um ou outro fã mais radical pode não aceito as modificações em relação aos gibis. No entanto, há cenas que reproduzem quase à exatidão alguns quadros de HQs clássicas do herói, como aquela em que Batman, Gordon e Dent reúnem-se no terraço do prédio, retirada de O Longo Dia das Bruxas.

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O filme ultrapassou a marca de US$ 900 milhões em sua primeira trajetória pelas salas de exibição e voltaria em fevereiro do ano seguinte para ultrapassar a hoje obsessiva marca do bilhão. Recebeu 152 prêmios (incluindo dois Oscars, de ator coadjuvante e edição de som) e outras 155 indicações. Reconhecimento merecido. Garantindo, assim, a conclusão da trilogia em 2012, O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Para entender o contexto de 2008, se atualmente a Marvel domina as bilheterias, naquela temporada Homem de Ferro alcançou razoável sucesso, mas foi ofuscado pelo longa do Cruzado de Capa. O universo dos heróis nas telonas nunca mais seria o mesmo.

Batman: O Cavaleiro dasTrevas
The Dark Knight.
2008. EUA / Reino Unido.
Direção: Christopher Nolan.
Elenco: Christian Bale, Morgan Freeman, Heath Ledger, Aaron Eckhart, Michael Caine, Gary Oldman, Maggie Gyllenhall, Eric Roberts, Cillian Murphy.
Ação / Drama / Policial.
142 minutos.


 

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André Azenha
André Azenha

Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.