Entrevista | Renata Giovannetti fala sobre carreira, mulheres no audiovisual e novos projetos

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Eliane Caffé, Tata Amaral, Anna Muylaert, Laís Bodanzky, Lina Chamie, Kátia Lund, Marina Person, Lúcia Murat, Daniela Thomas, Tizuka Yamasaki, Suzana Amaral, Maria Augusta Ramos, Petra Costa, Sandra Kogut, Beatriz Seigner, Andrea Pasquini. A lista é grande e não para de crescer. O cinema nacional é um celeiro de mulheres cineastas que presenteiam o público com filmes dos mais diversos, interessantes, envolventes.

Aos 31 anos, a paulistana Renata Giovannetti desponta como uma das jovens diretoras do país. No curta-metragem Com Grãos, traz a cultura caiçara à tona com um olhar sensível e profundo. O filme foi apresentado no encerramento do 3º Santos Film Fest, em outubro do ano passado, e emocionou o público. Ela também foi responsável pela direção de fotografia do longa Somos Todos Estrangeiros, exibido na mesma noite. Em ambos, trabalhou com Germano Pereira – ator do primeiro e diretor do segundo. Nos dois, a produção é do crítico Rubens Ewald Filho.

Entrevista | Germano Pereira fala da produtora GPS Entertainment

Agora Renata prepara o lançamento do documentário Odinei Ribeiro: O Narrador de Emoções, no qual divide a direção com Germano. A obra acompanha a trajetória do narrador esportivo nascido em Itanhaém – cidade onde Renata possui ligação desde pequena – e que chegou à Copa do Mundo.

No papo a seguir ela conta sua trajetória, comenta o movimento #MeToo, contra o assédio, entre outros assuntos.

Renata, como surgiu seu interesse pelas artes, especialmente o cinema?
O interesse pelas artes vem de casa. Meus pais desde minha infância sempre tiveram o hábito de levar a mim e meus irmãos aos finais de semana em exposições, museus, teatro e muito cinema. Minha mãe tinha uma câmera analógica profissional e seu hobby era fotografar.

Fale um pouco sobre sua formação, como foi sua trajetória até tornar-se diretora?
Busquei um curso de fotografia após ter tido contato com a disciplina no curso de Designer de Interface Digital que cursei por dois anos no Senac. Fiz um curso profissionalizante a Focus – Escola de Fotografia, no centro de São Paulo. Trabalhei por alguns anos apenas com fotografia e depois em uma produtora cultural onde gravei muitos shows, sempre relacionado à música. Senti a necessidade de um olhar mais aprofundado que deveria ir além da fotografia, assim cheguei ao cinema. Foi quando fui cursar direção cinematográfica na Academia Internacional de Cinema onde fiz a Direção de Label, um curta metragem que retrata a violência contra a mulher, e Como Grãos, a história de amor entre um marisqueiro, o mar e sua esposa. Tive outras participações como Diretora de Fotografia, uma delas foi em Somos Todos Estrangeiros, com direção de Germano Pereira – este foi meu primeiro longa-metragem, a partir de então comecei a trabalhar com Germano Pereira em sua produtora GPS Entertaniment.

Em Como Grãos, que você dirigiu, você busca o resgate da cultura caiçara. Qual sua visão da cultura caiçara atualmente, especialmente em Itanhaém e no litoral sul?
A cultura caiçara é meu encanto pessoal. Considero incrível a forma de trabalho dentro de todos os meios e requisitos dispostos à população, viver e tirar seu sustento do lugar onde a destruição é visível em nossas praias e mares. Para mim tudo isso é poético e intrigante. A busca do simples, o viver a vida com leveza e clareza do que é possível, a paciência do esperar e às vezes nem colher. Toda essa leveza e clareza sempre me fazem escrever meus poemas, e dentro de um deles surgiu Como Grãos. Veio da inspiração em uma praia que sempre usei como refúgio, a praia da Gruta, localizada em Itanhaém.

Renata Giovannetti e Germano Pereira.

Renata Giovannetti e Germano Pereira.

Como tem sido a carreira do filme?
A trajetória do filme tem sido incrível – participei de festivais e mostras locais, uma realizada na cidade de Itanhaém e agora  a busca pela mostra nos canais  de televisão de curta-metragem.

Comente seus atuais projetos. Além do longa-metragem Odinei Ribeiro: O Narrador de Emoções, quais seus próximos trabalhos?
Como diretora atualmente, estou com o projeto de Odinei Ribeiro: o Narrador de Emoções, onde divido a direção com Germano Pereira, parceiro de criação. Este projeto inicialmente partiu de uma proposta minha em retratar a vida de Odinei Ribeiro, que tenho contato com sua família desde minha infância e acompanho seu crescimento profissional. Ele é da cidade de Itanhaém, que vivo desde muito pequena, minha segunda cidade, já que meus avós lá moravam. E a ideia veio, apresentei para Germano Pereira e estamos construindo juntos esta direção. Estou envolvida como Diretora de Fotografia no documentário de Ney Latorraca e outros projetos realizados com a GPS Entertaniment.

O Brasil tem grandes cineastas mulheres, mas o segmento audiovisual ainda é machista e majoritariamente dominado por homens. Qual sua visão deste contexto? Percebe alguma melhora nos últimos anos? E o que fazer para que exista mais igualdade de oportunidades neste e demais setores da sociedade?
Não apenas o Brasil, mas o mundo, como temos visto as manifestações quando da entrega do Oscar este ano, a cultura machista e da mulher como objeto de satisfação do homem, em que não pode estar em nível ou cargo mais elevado, ainda, infelizmente faz parte de uma triste realidade. Eu com meus trinta e um anos de idade, em início de carreira, não tive problemas sérios com isso, a equipe que trabalho é incrível  sempre rodeada de homens muito especiais e respeitosos em que meu papel profissional não precisou deixar de ser exercido por qualquer motivo, mesmo me posicionando criticamente e muitas vezes em discordância dos demais. Minha situação enquanto mulher ainda não me trouxe problema. Acredito e espero que cada vez mais a sociedade possua a igualdade entre homens e mulheres, apesar de representarmos somente um terço do universo na área de Direção de Cinema, como disse Rubens Ewald Filho em uma entrevista para A Tribuna em março de 2018, “Será medo de perder para elas?”.

No Oscar desse ano movimentos como #MeToo têm se destacado. Acha que haverá realmente uma transformação na indústria?
Espero e acredito que sim. O #MeToo  cria um destaque interessante e representativo a essa discussão e acredito sim que dá força à quebra do silêncio de tantos anos de muitas mulheres. Atualmente temos como expressão as redes sociais que contribuem significativamente para a luta contra o assédio sexual, tornando-se  um movimento de dimensão mundial.

Procura se espelhar em alguma diretora em especial?
A grande e magnífica Agnés Varda que buscava os cenários naturais para seus filmes e o uso do não ator, que são expressões que gosto e busco para meus filmes. Me espelho nesse natural do ser, relatar o viver onde cada mudança comove um ciclo, então porque não deixar o que se vê.

Fique à vontade para deixar um recado aos leitores do site.
Convido a todas e todos para o dia 4 de setembro próximo no 3º Santos Film Fest com estreia do filme de Odinei Ribeiro: O Narrador de Emoções. Estaremos lá com Germano Pereira que tenho o prazer de dividir a direção e o querido Rubens Ewald Filho, o produtor do filme.


 

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André Azenha
André Azenha

Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.