Crônica sobre um turista para lá de acidental

turista7
Certos momentos na vida, temos algumas certezas. Seja de ter encontrado o dom para algo; seja a pessoa certa para passar o resto da vida ou, simplesmente, a certeza de que escreveria sobre uma obra que há muito te tocou e, ao revê-la, sabia que era a hora certa de falar sobre.

Esse último exemplo é a minha certeza do momento. Sou cinéfilo desde 1993 (quando tinha 13 anos) e já vi muitos filmes, desde os clássicos até os blockbusters, mas um filme que revi inúmeras vezes e mexe demais comigo é O Turista Acidental (The Accidental Tourist), um dos melhores filmes do final dos anos 80 (a produção é de 1988) e que deu o Oscar de Atriz Coadjuvante para Geena Davis (ela vinha do sucesso A Mosca (1986) e de Os Fantasmas se Divertem, 1988), mas merecia muito mais.

William Hurt (formidável no papel do herói da história, Macon, personagem super contido), Kathleen Turner (Sarah, esposa de Macon) e Amy Wright (Rose, a perfeccionista irmã do personagem de Hurt) mereciam indicações ao Oscar. Mas a Academia, infelizmente, não lhes fez jus. Na época (Oscar de 1989), Rain Man acabou levando as estatuetas de Filme, Direção (Barry Levinson), Ator (Dustin Hoffman) e Roteiro Original. O filme que tirou o Oscar de Roteiro Adaptado de O Turista Acidental foi Ligações Perigosas, longa dirigido por Stephen Frears e adaptado para as telas por Christopher Hampton baseado no romance de Pierre Choderlos de Laclos.

turista6
O Turista Acidental é baseado no best-seller homônimo da escritora norte-americana Anne Tyler e mostra um casal enlutado e despedaçado, desde a morte trágica do filho Ethan aos 12 anos de idade. Macon Leary é um guia de viagens que, ironicamente, detesta viajar e dá dicas a homens de negócios que, independente da onde estiverem, sintam como se estivessem em casa. O livro-guia escrito por Macon para o seu público é justamente o título do filme.

Sarah não aceita a forma contida e a falta de apoio dele para a tragédia porque passaram há 2 anos – há uma frase dela sobre o marido em que fala: “Mas há uma coisa. Como se diz? Contida no modo como sente as coisas. É como se passasse pela vida sem mudar”. Percebe-se no protagonista uma forma prática, detalhista, quase que mecânica de trabalhar, mas também de seguir com a vida. Macon não vive, mas sim sobrevive dentro do possível.

Seu único companheiro é Edward, o cão de estimação, a quem ele leva a uma clínica veterinária (onde hospedam os bichinhos, também), enquanto ele se prepara para mais uma de suas viagens de negócios. É lá que encontrará a jovem e extrovertida Muriel (Geena Davis) e, a partir daí, tudo muda na vida desse “turista acidental”.

turista8
É muito bonito acompanhar como uma pessoa (no caso, Muriel), por mais diferente que possa ser da outra, é capaz de transformá-la e ajudá-la a superar o que, até então, parecia impossível.

Mais do que ótimos atores (o trio principal é especialíssimo), o longa traz coadjuvantes encantadores (Alexander, o filho de Muriel alérgico a tudo; os irmãos Leary que são para lá de excêntricos e cheio de manias) e uma direção sensível: Lawrence Kasdan faz a história fluir sem resvalar para o pieguismo – infelizmente, encontrado em muitas produções atuais.

O Turista Acidental tem o que mais me interessa e chama atenção em um filme: personagens interessantes, uma boa história e um ótimo roteiro. Repleto de ótimos diálogos e observações sobre a vida, sobre o ser humano e sobre relacionamentos como, por exemplo: “Começo a achar que o importante não é o quanto você ama alguém. Talvez o mais importante seja quem você é quando está com alguém”. E apresenta tantos outros momentos reflexivos e tocantes. O filme mais parece um estudo sobre relacionamentos, sobre a dor e o “seguir em frente” (dentro do possível) depois de uma tragédia.

turista2
Há uma meia dúzia de filmes pelos quais sou apaixonado e que tratam da dor da perda, da sobrevivência de quem fica e da redenção (ou melhor, da superação da perda). O Turista Acidental é um deles. Outros que me vem à memória e tem alguns desses elementos que citei acima são: Gente como a Gente, Laços de Ternura, A Liberdade é Azul e Manchester à Beira-Mar. É também um dos longas mais humanistas de Lawrence Kasdan. Outros que ele dirigiu nesse estilo foram O Reencontro (1983) e Grand Canyon – Ansiedade de uma Geração (1991). Kasdan é mais celebrado atualmente por ser roteirista de blockbusters, como O Império Contra-Ataca (1977) e Os Caçadores da Arca Perdida (1981).

O Turista Acidental me é tão especial porque, de certa forma, me considero um pouco como o protagonista Macon Leary: às vezes forçado a fazer aquilo que não gosta (o meu sonho era trabalhar com arte/cultura), mas também aprendendo diariamente a me socializar e tentando deixar um pouco a timidez de lado. Enfim… confesso que  é o tipo de filme que me “fisga” sempre que passa na TV. Mais do que um filme, acho que tem um pouquinho de mim e sua trama é um microcosmo da vida a dois.

Eu sei que a forma como uma obra toca uma pessoa é muito pessoal e subjetiva, mas se você não conhece ou não viu esse filme, permita-se ser um “turista acidental” pelo menos uma vez e surpreenda-se com essa história fascinante e personagens para lá de peculiares que você poderá conhecer através desse singelo retrato da vida. Afinal, como diria Macon Leary: “Nas viagens, assim como na vida, menos é invariavelmente mais”.

THE ACCIDENTAL TOURIST, William Hurt, Kathleen Turner, Amy Wright, 1988, (c)Warner Bros

O Turista Acidental 
The Accidental Tourist. 
EUA. 1988. 
Direção: Lawrence Kasdan. 
Com William Hurt, Kathleen Turner, Geena Davis, Amy Wright, David Ogden Stiers, Ed Begley Jr., Bill Pullman. 
128 minutos. 


 

 

As opiniões embutidas nos textos são dos seus respectivos autores, e não refletem necessariamente a opinião do site ou de seu editor.
Marcelo Reis
Marcelo Reis

Marcelo Reis nasceu no finalzinho dos anos 70, É jornalista por formação, assistente administrativo por ocupação e cinéfilo de coração. Apaixonado por cinema desde os 13 anos (quando uma cirurgia o obrigou a ficar 6 meses de cama), tem um carinho todo especial por musicais, dramas, comédias românticas (‘Harry & Sally – Feitos um para o Outro” é sua favorita), romances e filmes do Woody Allen. Quase sempre, se identifica do lado de cá com algum(a) personagem da telona ou da telinha.